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Dois dedos de prosa — 12 de abril de 2021

Dois dedos de prosa
Dois dedos de prosa — 12 de abril de 2021
Por Dra. Carla Vorsatz • Edição Nº1 • Ver na web
Revisão semanal comentada de postagens das séries #SOStraduçãomédica, #PALAVRADODIA e Hoje tem #postediting

A nomenclatura na pediatria não é uniforme, bem como a faixa etária da população atendida pela pediatria.
Sim, a pediatria trata das crianças, isso é ponto pacífico, a etimologia direta do grego já nos informa: παῖς, παιδός (paîs, paidós — “criança”) + ἰατρός (-iatrós — “médico”).
O neonatologista faz a sala de parto”, o pediatra faz a puericultura e acompanha a criança até… quando exatamente?
Quando a criança deixa de ser criança, ou quando a pediatria já não trata mais somente das crianças, mas também dos pré-adolescentes, dos adolescentes e inclusive dos jovens adultos?
Aí começam as divergências: a Sociedade Brasileira de Pediatria diz que até 20 anos, já a American Academy of Pediatrics norte-americana diz que até os 21 anos.
Cada hospital define sua própria faixa etária para as unidades de pediatria: enfermaria, unidade de tratamento intensivo pediátrica (melhor dizer “infantil” ou “infantojuvenil”) e ambulatório.
Sem contar que tem a negligenciada hebiatria ou medicina do adolescente
Ou seja, a situação terminológica é uma terra de ninguém.
E como a pediatria chegou a tratar de jovens adultos de 20 e 21 anos?
Um jovem adulto já tem todos os seus direitos civis assegurados, vota, pode dirigir, casar, ter filhos, comprar e vender imóveis, se tornar responsável legal por crianças ou idosos, fazer concursos públicos e assumir cargos públicos, se candidatar e ser eleito e continua sendo considerado paciente da pediatria?
Em termos médicos a gente acaba cuidando dos pacientes e dá tudo certo, mas já o idioma sofre.
É bom lembrar que existem os termos “infantil”, “juvenil” e “infantojuvenil” na língua portuguesa para adjetivar assuntos relacionados com as crianças, os adolescentes ou ambos, respectivamente.
E que o adjetivo “pediátrico” diz respeito à pediatria, não às crianças ou (pré-)adolescentes.
Essa semana revemos o nome das agências regulamentadoras da realização de ensaios clínicos no Brasil.
Sugestão: como são órgãos oficiais e governamentais com nomes próprios, convém que ao traduzir a documentação relacionada com os ensaios clínicos a tradução localize usando o nome da instituição pertinente no Brasil, em vez de deixar os nomes e as siglas referentes às instituições do país no qual o original foi redigido.
Até porque serão as instituições brasileiras mencionadas nos documentos que irão aprovar ou não a realização do protocolo no Brasil.
Série #PALAVRADODIA
Em português o advérbio “não” é habitualmente usado com verbos, mas não com adjetivos (exceto adjetivos verbais ou particípio passado), menos ainda com substantivos. Essa noção gramatical básica costuma ser esquecida a julgar pelos modismos em português de expressões impróprias como “não ictérico”, “não cianótico”, “não febril”, etc. Caso mesmo assim você insista em usar, por favor lembre-se que a última reforma ortográfica aboliu o hífen nestes casos.
Recomendo utilizar os prefixos de negação, privação, contradição e oposição à nossa disposição, que são muitos: a-, an-, anti-, contra-, des-, dis-, in-, etc.
Este tema é bem explorado e exemplificado no Libro Rojo — Diccionario de dudas y dificultades de traducción del inglés médico de Fernando Navarro, em cuja edição brasileira estou trabalhando e estará em breve disponível, mas já pode ser consultado em espanhol no site dos Cosnautas.
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Grande abraço!
Dra. Carla Vorsatz
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Dra. Carla Vorsatz

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Curadoria cuidadosa de Dra. Carla Vorsatz via Revue.
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