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Por favor, me chame de Mar 🌊

Maria Freitas
Maria Freitas
Eu nasci de um jeito meio inusitado. No começo da tarde de um sábado, quente como o inferno, simplesmente decidi que minha hora tinha chegado. Nem esperei o médico, só… nasci, assustando a enfermeira que não sabia direito o que fazer.
Minha mãe diz que a previsão era de que eu nascesse no fim de dezembro, mas eu só quis nascer 15 dias depois, já em janeiro. Demorei para querer nascer e, quando quis, não esperei por ninguém.
Acho que isso diz muito sobre mim até hoje, 28 anos depois.
Sou capricorniana, signo de terra, demoro a reagir, a processar, a mudar. Mas, quando me decido, simplesmente vou correndo. Minha vida é essa sequência de atrasos e antecipações.
Quando você menos espera, eu nasço.
Eu era um bebezinho careca e branquelo, que ganhou brinquinhos redondos nas orelhas e um rótulo que definiu toda a minha vida. Desde antes de deixar o hospital, eu estava marcada. Ali estava tudo o que eu podia ser e o que eu não podia. Como eu deveria agir e como não deveria. A gente era pobre, então eu não tinha muitos brinquedos e roupas, mas me deram bonecas e vestidinhos rosa. E, quer saber? Cheguei a amar aquelas bonecas e vestidinhos rosa. Lembro de chorar, sentindo uma dor que se agarrou na minha lembrança, quando uma amiguinha destruiu minha boneca preferida, ou antes disso quando ela parou de cantar a musiquinha “Brilha, brilha, estrelinha”.
Mas nunca entendi porque os meninos me tratavam como se eu fosse estúpida e não conseguisse apertar meia dúzia de botões no videogame, ou que não fosse legal o bastante para participar da corrida de carrinho na pista que eu tinha ajudado a fazer na rua sem calçamento da casa da minha avó.
Então eu cresci sem entender por que meu irmão tinha um quarto só para ele e podia dormir até tarde, enquanto eu e a minha irmã precisávamos lavar as vasilhas e deixar o almoço pronto. Sem entender por que os meninos brincavam de bola na Educação Física enquanto a gente ficava sentada no muro falando sobre garotos. Eu não queria falar sobre garotos, não queria ser disputada por eles. Queria falar sobre bandas legais e pular elástico na casa da Sandinha.
Foi a primeira vez que alguém me chamou de esquisita. A primeira que me lembro. Uma amiga se irritou comigo porque eu não me importava com quem era o menino mais bonito da cidade, e disse que não entendia “por que eu era daquele jeito”. Acho que me pergunto até hoje de que jeito eu era, mas concluí que essa amiga se importava muito em andar com alguém que não ligava para chapinha no cabelo e a melhor maneira de fazer o uniforme ridículo da escola ficar legal.
Eu não queria ter o cabelo que nem o delas, nem parecer legal para os garotos mais velhos que rodeavam as meninas na porta da escola. Mas eu queria ter amigas. Queria que alguém me achasse bonita e legal. Do meu jeito.
But I’m a creep.
Radiohead - Creep
Radiohead - Creep
Quando os hormônios da adolescência começaram a afetar meu discernimento (comecei a gostar de um menino), tentei ficar bonita, depois de ver que não conseguiria fazer ele gostar de mim pela minha personalidade e o fato de a gente gostar das mesmas músicas. Tentei usar vestidos e saltos, tentei alisar meu cabelo porque ele gostava assim. Tentei não ser “daquele jeito” e falar sobre meninos também. 
Mas aquelas roupas me deixavam estranha, mesmo que todo mundo dissesse que eu estava bonita (finalmente), eu me sentia fora do lugar. Aquele cabelo, aquela personalidade, aquela busca por aceitação. O desconforto me fez brigar com todas as roupas que minha mãe achava que ficariam legais em mim, as roupas que ficariam bonitas nela. Enquanto, secretamente sempre quis ser como ela, ser bonita e cuidadosa, com unhas impecáveis, os cremes no rosto e o cabelo sempre pintado caindo nas costas.
Mas eu não era.
Então me convenci (ou me convenceram) que eu era desleixada, que não era vaidosa, que não era e nunca seria bonita.
As roupas se tornaram uma prisão. Passei a não me importar com elas. Não comprava nada pra mim, só aceitava as que ganhava e pronto. Minha vontade de ter camisas de banda legais, um all star vermelho e gravatas tipo as da Avril Lavigne ficaram na adolescência. Meu cabelo era uma prisão, eu amarrava com tanta força que chegava a doer a cabeça. Como se eu estivesse me punindo por não gostar de um cabelo tão bonito.
E talvez eu estivesse.
Eu me apaixonei por uma garota, mas aquilo não me libertou. Não me impediu de andar encurvada e sempre incomodada porque queria diminuir o tamanho dos meus peitos, não queria que ninguém os notasse. Embora eu tenha aceitado meus cachos por causa da minha garota e seus próprios cachos bonitos, aquilo não me libertou. Segui prendendo até doer. Me prendendo até doer.
E não percebi que estava prendendo tanta coisa até mandar um áudio para Camila Cerdeira, em 2020, comentando casualmente sobre como sempre tive uma relação estranha com minhas roupas. Acho que ele percebeu minha voz quebrar no meio do áudio, mas não disse nada. 
Guardei bem fundo aquela sensação de que algo tinha rachado dentro de mim e me convenci de que só precisava de camisas de banda. Peguei meu primeiro pagamento por Cartas para Luísa e resolvi a questão. Fui nas lojas da Fresno e do Far From Alaska e fiz a festa.
Mas a rachadura só ficou maior. Como quando a gente começa a acordar, mas ainda não quer deixar o sonho. Dá para tentar voltar, mas você já ouve os barulhos do mundo real, já sente o cheiro do café e a textura do lençol. Eu queria só dizer que só me lembro da sensação horrorosa que é olhar no espelho e não gostar do volume que os peitos fazem na camisa, bem no nariz do Dinocórnio, mas estou sentindo ela agora.
Tentei voltar pro sonho. Lógico que tentei. Mas, nas madrugadas de julho de 2020, fazia poemas e enviava mensagens para meu melhor amigo, chorando em frente ao espelho do banheiro, querendo desesperadamente voltar para aquele momento, aquele segundo antes de despertar.
Eu não queria ser trans. Nunca quis. Minha cabeça tentou esse truque também: o de mentir e dizer que nada disso era o bastante, que eu precisava de (mais) disforia, (mais) autoódio, (mais) masculinidade. Não bastava só não caber naquela caixinha rosa, eu precisava me espremer na azul. 
Escrevi sobre pessoas que aceitavam quem elas eram. Menti, como fazem todos os escritores.
Acordada, sentindo o mundo ao meu redor, embora ainda deitada na cama, sem coragem de me levantar para tomar um café. Acordada o bastante para saber que não voltaria a dormir, cortei o cabelo. 
15 anos tentando ser bonita, e odiando tudo. Lá estava eu, amando cada pedacinho meu. Como se tudo aquilo que eu segurava com tanta força, que eu amarrava até machucar, tivesse ficado no chão, varrido para o canto do salão de cabeleireiro. 
Então eu chorei. Chorei porque sabia que tinha outro armário para sair. Outra caixa para abandonar para sempre. Outra dor para tirar do fundo e sentir até curar. Mas, depois de tudo o que eu já tinha sentido e lutado para chegar em um lugar de orgulho, aquela pareceu uma luta que começava perdida.
Eu sempre soube que quebraria se olhasse para mim mesma por muito tempo, então fugi. E segui fugindo, mesmo com alguns pequenos momentos em que parava e encarava a verdade.
Evitei nascer mais uma vez.
Minha mente adoeceu, meu corpo adoeceu. Fui parando de falar, de escrever, de viver. Coloquei toda a minha força e o meu coração no lugar errado, focada em olhar para qualquer pessoa que não fosse eu. Focada em amar qualquer pessoa que não fosse eu. Focada em ser qualquer pessoa que não fosse eu.
A caixa era pequena, mas era todo o universo que eu conhecia. Eu só sabia como viver sendo uma menina, só sabia como me comportar sendo uma menina, como sabia como existir sendo uma menina. Foi o que me ensinaram, então foi o que aprendi. É como o mundo inteiro me vê e me trata desde o dia 8 de janeiro de 1994. É como eu sempre quis ser. Mas não é quem eu sou.
Por todos esses anos, construí o meu nome e, junto com ele, uma armadura de orgulho. Eu me vesti com as minhas cores para que ninguém mais dissesse quais eram aquelas que pertenciam a mim. 
Agora eu tenho novas cores para enrolar em volta do corpo.
Com dois anos de demora, eu finalmente aceito:
É hora de nascer mais uma vez.
E eu convido você a passar aqui para me conhecer. Não precisa trazer nenhum presente, só a companhia. Entre, tome um café, seja bem-vinde! Se o assunto for profissional, por favor, me chame de Maria (sempre ela), construí esse nome com muito trabalho. Mas se não for, você pode me chamar de Mar. E, assim como o Oceano é ele, eu também. 
Estou deixando muita coisa para trás para me reerguer sendo quem eu sou. Em todas as minhas cores. Em todas as minhas ondas, ressacas e marés.
E espero que você queira ficar.
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Maria Freitas
Maria Freitas @themariafreitas

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