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Tempo pra contar - Otimismo de guerrilha

Tempo pra contar
Tempo pra contar - Otimismo de guerrilha
Por Camila Freire • Edição Nº2 • Ver na web

Uma das personagens mais odiadas da literatura mundial nunca matou ninguém. Ela também não torturou, não ofendeu, não traiu nem lançou aquele veneno pseudo agressivo pra dominar todos à sua volta. Na verdade ela é muito odiada por não ter feito nenhuma dessas coisas. Ela é boa, é boa demais, e tá aí uma coisa que ninguém aguenta.
Eu estou falando de Pollyanna, personagem do livro de mesmo nome escrito pela estadunidense Eleanor H. Porter e publicado pela primeira vez em 1913. Chamar alguém de Pollyanna hoje em dia é uma ofensa grave, quase capacitista.
Ninguém com juízo veria o mundo com esses óculos cor de rosa, que só serviriam pra falsear a verdade e impedir pessoas oprimidas (principalmente mulheres) de lutar contra os seus grilhões.
Muito por conta dessa publicidade negativa eu acabei passando a minha infância e a minha juventude longe desse clássico. Mas um dia já adulta eu fui hóspede de uma casa que tinha o tal do livro. Resolvi ler antes de dormir e pra minha surpresa eu até gostei.
Poliana (essa é a versão brasileira do nome e mais fácil de escrever também) é uma menina de onze anos que ficou órfã de pai e mãe e é obrigada a viver com uma tia solteira que ela não conhecia. A tia não faz nenhum esforço pra disfarçar que aceitou a sobrinha por obrigação e cria uns empecilhos desnecessários pra mostrar o nível do desgosto.
Ela só não sabia que Poliana tinha sido treinada pelo pai missionário a lidar com situações extremas. Esqueça o seu preconceito com o famosíssimo “jogo do contente”, em vários momentos ele chega ao nível de desobediência civil.
Quando a tia coloca Poliana num quarto sem decoração pra humilhar a menina acaba ouvindo dela que assim é melhor, porque dá pra ver as coisas pela janela. Até quando Poliana tem que comer só pão e leite ela não demonstra nada além de satisfação e vai quebrando a resistência da tia página a página.
Poliana não é ingênua, ela sabe muito bem das intenções da tia e da desvantagem da situação em que ela se encontra. Ela tem muito pouco poder ali, e até poderia pensar em se rebelar de um jeito mais tradicional ou fugir, mas nada disso faria com que a sua realidade fosse melhor.
O jogo do contente, por outro lado, permite manejar a frestinha favorável de uma situação desesperadora. Pra se opor à tia e pra ajudar vários personagens ao longo do livro Poliana tem o poder do discurso, e também o de não se render.
É praticamente um livro inteiro de terapia cognitivo-comportamental, libertando várias pessoas das narrativas em que elas estavam grudadas por acharem que não tinham escolha nenhuma.
O livro é perfeito? Não é mesmo. Tem muitas partes sentimentalóides, preconceitos de religião e aquela narração datada que a gente até espera de um romance infanto-juvenil do início do século XX.
Mas é injusto que Poliana ainda desperte tanto desdém quando personagens muito parecidos com ela como Paddington e Anne with an E são amados mesmo sendo também doces e idealistas.
E todos os três conseguem mudar comunidades inteiras à sua volta sem abrir mão dos próprios valores.
Reconhecer que existe algo de bom na nossa realidade distópica é essencial pra que a gente consiga a superação dela. Pra fazer a revolução a gente precisa de uma base, de gente, de ideais, de coisas que sejam tangíveis agora.
É que entra um certo primo do jogo do contente, aquilo que eu chamo de otimismo de guerrilha.
Nós que vivemos no Brasil estamos num poço de desespero que parece que nunca tem fim. Quem não se sente assim só pode ser ignorante, ingênuo ou muito mau caráter.
Todos os dias eu acordo e penso que nada mais faz sentido quando temos mais de três mil mortes diárias, todos os hospitais em colapso e um presidente que é um caso a ser estudado por juntar tanta mesquinhez e perversidade.
Essa semana eu tive três crises de pânico e ainda acompanhei de longe uma amiga querida perder a mãe pra essa doença maldita. O abismo parece cada vez mais próximo.
Mas mesmo com a negligência cruel do governo federal muitas iniciativas surgiram pra nos dar um pouco de amparo. Começando pelo próprio Átila, o paladino da pandemia segundo o Podcast Xadrez Verbal.
Sem as lives dele vários governos não teriam tomado medidas tão rápidas lá no comecinho na pandemia. Aqui em Belo Horizonte o prefeito Kalil fechou tudo uma semana depois da famosa live do milhão de mortos.
Hoje o Átila é financiado pelo Instituto Serrapilheira, mas no começo era só ele mesmo, alguém que entendia o que tava acontecendo e precisava fazer alguma coisa.
Mais recentemente temos o Qual Máscara, uma iniciativa da Bia e do Ralph que começou sem grandes pretensões e acabou se tornando a maior referência nacional nesse assunto.
Foi com eles que descobri que as máscaras de pano devem ser descartadas depois de 30 lavagens e que existem muitas outras máscaras PFF2 além da hoje caríssima Aura.
E eles seguem sobrecarregados e trabalhando de graça. O projeto mais recente é conseguir mobilizar a cidade do Rio de Janeiro a disponibilizar PFF2s gratuitamente pra população em pontos estratégicos.
E também temos o PFF2 para todos no Twitter, com uma pessoa sozinha mapeando promoções de máscaras em todo o país e mantendo uma planilha organizada por região, e aí podemos comprar tanto na internet quando em lojas físicas. Foi com eles que eu conheci a minha máscara queridinha, a KSN branca.
Temos também os pesquisadores do Observatório Covid-19 BR explicando vários assuntos, da contaminação à realidade dos internados, e sempre defendendo o meu, o seu o nosso Sistema Único de Saúde.
E eu mesma venho tentando ajudar. Comprei uma caixa de máscaras da Camper, uma das mais baratas, e venho distribuindo pras pessoas junto com o folheto informativo do Qual Máscara.
Dá pra você baixar o arquivo imprimir e distribuir por aí também.
É uma merda ter que fazer o trabalho do governo e sem os recursos dele? É sim, mas que bom que ao menos alguma coisa é possível fazer.
Posso até ser Poliana, mas ao menos vou ser uma que vai cair atirando. E desculpe aí a metáfora bélica, mas é o que tá dando por agora.
Até a próxima, se cuide e cuide dos que estão em volta de você. A gente precisa se ver aqui de novo.
E olha como é simples montar um kit legalzinho assim
E olha como é simples montar um kit legalzinho assim
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Camila Freire

Uma newsletter sobre luto, doenças, família, sofrimento, redenção, bolo de chocolate e eu rindo de tudo isso. Com gifs.

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Curadoria cuidadosa de Camila Freire via Revue.
Belo Horizonte, (infelizmente) Brasil