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Tempo pra contar: O ano em que não teve Carnaval

Tempo pra contar
Tempo pra contar: O ano em que não teve Carnaval
Por Camila Freire • Edição Nº1 • Ver na web
Uma mulher. Escrevendo. Seus problemas. E mudando a internet brasileira

Minha clássica cara de sofrimento e um short realmente muito curto ali atrás
Minha clássica cara de sofrimento e um short realmente muito curto ali atrás
Eu nasci numa segunda de Carnaval no ano de 1985, eu e o Axé Music somos basicamente gêmeos. O que quer dizer que o meu aniversário muitas vezes caiu no meio do feriadão e não teve festa, ou acabou só tendo depois.
Se caía em dia de escola era só no comecinho do ano letivo. Quando eu já tinha estudado na mesma escola no ano anterior era beleza, do contrário era mais um motivo pra eu me sentir ignorada e infeliz.
Todos os anos eu posto minhas fotos de criança emburrada no Carnaval. Na verdade a maioria delas foi tirada quando eu era pequena demais pra lembrar, então não sei realmente o que me deixava tão emburrada. Talvez a fantasia, o calor, as pessoas ou tudo junto.
Eu não ficava emburrada nas fotos de São João, que pra mim era o feriado perfeito. Crescendo no interior da Bahia eu tinha fogos, fogueira, as melhores comidas e Mastruz com Leite tocando no rádio o dia todo. Às vezes tinha até Copa do Mundo.
Em 2008 eu passei o meu primeiro São João sozinha. Eu morava em Salvador e as aulas do mestrado iam acabar no início de julho. Não valeria a pena gastar pra ir pra casa duas vezes.
Pra mim São João era uma festa familiar tanto quanto Natal. Pra não ter que pensar nesse isolamento eu comprei canjica (o que os bárbaros chamam de curau ou mingau de milho) e baixei vários filmes, indo do horroroso Os Guarda-Chuvas do Amor até o incrível Amor à Flor da Pele.
E no meio tinha uns sem amor no nome, como Um Assaltante Bem Trapalhão. Um título traduzido por quem só queria ver um filme do Didi e teve que se contentar com aquela imitação do Woody Allen.
Quando eu vim pra Belo Horizonte em 2010 eu estranhei muito essa realidade paralela em que não se falava em São João. Só existia essa festa que apesar de se chamar junina poderia ser comemorada em qualquer dia de maio a agosto.
Eu cresci com um dia pra cada santo, sendo São João o mais importante. E eu nem sou religiosa nem nada, então talvez valesse mais a pena voltar a chamar de solstício de inverno mesmo, e comemorar dia 21 de junho, com um feriado.
Mas eu preciso de uma data, chame o que você quer fazer de pré-festa ou de pós festa, mas me dê um dia pra tal da festa.
Carnaval não tem uma data definida sempre, mas a gente já sabe com bastante antecedência em que dia vai cair. A gente se prepara muito bem pra curtir, fugir, ou um meio termo, tipo ir num dia só pro bloquinho da própria rua e dormir no resto do tempo.
E eu nunca achei que fosse viver pra ver a outra opção, a não existência do carnaval.
No livro Olga do Fernando Moraes tem um trecho que eu sempre achei muito bonitinho, sobre o carnaval de 36. A Intentona Comunista (ou Revolta Comunista, ou Revolta Vermelha) do ano anterior já havia acontecido e fracassado, e aí tava todo mundo preso como Graciliano Ramos ou escondido como Prestes e a própria Olga:
O Rio entrava em fevereiro, mas nada havia que identificasse a cidade com a “capital universal da alegria e do Carnaval”, como escreveu um cronista mundano da época. Primeiro por causa da chuva, que caía intermitente há semanas, tirando das ruas o colorido e a graça da decoração carnavalesca. Em seguida, porque o capitão Filinto Muller não media a aplicação de seu poder no cerco a Prestes e a sua recém-revelada esposa, a estrangeira Olga de Tal.
Tá, não tem nada de bonito ainda, mas vai lendo aí:
Não importavam as leis: o que valia eram as portarias que ele conseguiu fazer (sic) com que o Carnaval de 1936 entrasse para a história como o mais acabrunhado e sem alegria de todos os tempos. Já no começo do ano Filinto decretara que durante a vigência do estado de sítio ninguém poderia usar máscara nos bailes, festejos carnavalescos e ranchos.
(…)
Quando faltavam poucos dias para a “semana gorda”, mais portarias com novas proibições: as batalhas de confete só seriam permitidas em clubes, desde que com autorização prévia da polícia. Cada clube poderia realizar no máximo três batalhas(…) Os ensaios de blocos e ranchos só podiam ser feitos após a devida autorização do chefe de polícia, e teriam que se encerrar impreterivelmente às 22 horas.
Aí agora que vem a parte legal:
Mas mesmo um Carnaval sem fantasias, sem máscaras e com pouco confete era uma novidade para uma alemã da Baviera. Através das frestas da janela do quarto, Olga se deliciava com os grupos que passavam desafiando a autoridade da polícia, sambando com os rostos pintados e pouquíssima roupa sobre o corpo.
Óbvio que o “acabrunhado” carnaval de 36 foi uma festança de arromba perto do que a gente não vai ter esse ano. E a gente espera que sejam poucos os grupos que resolvam desafiar a proibição corretíssima de agora.
Mas olha isso, uma mulher procurada por um regime ditatorial, e que viria a ser deportada por Getúlio Vargas e morta pela Alemanha nazista, acabou curtindo o Carnaval de algum jeito. E pouco mais de uma semana depois do aniversário dela, que por acaso é hoje (juro que escolhi a citação do livro antes de conferir a data).
Eu tenho me sentido bem desorientada nos últimos dias, parece que o vazio do não carnaval virou um buraco negro que vai engolindo todo o restinho de marcação temporal que eu conseguia ter nessa era de pandemia. Ontem parecia sexta, hoje parece, sei lá, uma coisa aí.
Meu aniversário é na quinta que vem, e seria depois da quarta de cinzas se não estivéssemos já em cinzas há tanto tempo.
Mas assim como no São João eu sigo ouvindo meus CDs de forró do tempo da faculdade, nada me impede de criar outros rituais também. Me enfeitar pra ficar em casa, me enfeitar pra passear com o cachorro, ver no youtube desfiles passados de escolas de samba, carnavais de Recife, Salvador ou qualquer outro lugar.
E ampliando um pouco o conceito da música, nós não temos Carnaval, nós somos Carnaval. E não é um ano sem ele que vai mudar isso.
Pra clicar:
Vídeo do Carnaval de 36, que parece não ter flopado tanto assim não
Pirata da Areia e Cadê Mimi, sucessos do mesmo Carnaval
Fricote, a música do Luiz Caldas que era realmente muito problemática em várias frentes, mas eu não tenho culpa de ter sido o sucesso do Carnaval de quando eu cheguei nesse mundo
Uma história policial de Carnaval na Alemanha, do autor nobelizado Heinrich Boll
We Are Carnaval na versão original de 88, que imitava o We Are the World, trazia várias estrelas do Carnaval baiano ainda bebês e era pra arrecadar dinheiro pras obras de Irmã Dulce
Bom possível não feriado aí pra você, e até a próxima!
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Camila Freire

Uma newsletter sobre luto, doenças, família, sofrimento, redenção, bolo de chocolate e eu rindo de tudo isso. Com gifs.

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Curadoria cuidadosa de Camila Freire via Revue.
Belo Horizonte, (infelizmente) Brasil