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[VERSÃO CERTA, SEM BUGS!] REFRESCOS - #9 Animais

REFRESCOS
[VERSÃO CERTA, SEM BUGS!] REFRESCOS - #9 Animais
Por paula gomes e mya pacioni • Edição Nº10 • Ver na web
Ironicamente a nossa newsletter com o tema de ANIMAIS foi cheia de BUGS pra caixa de entrada de vocês. Pedimos desculpas pelo problema e sigam por aqui para ver a versão certinha. =)

três ratos vivos
gosto de me gabar que coleciono não uma, nem duas, mas TRÊS histórias de encontros com rato que tiveram um final feliz — para o rato, é claro. duas aconteceram com amigos e uma aconteceu na minha casa. 
houve uma república universitária com seis moradores humanos e um número inexato de moradores roedores. um morador humano vai visitar os pais no fim de semana. 400 km depois, o humano chega, abre a mochila para pegar as roupas sujas e sai um rato lá de dentro, em desabalada carreira. ganha uma vantagem inestimável diante da perplexidade de todos ao redor e sai pela porta da frente, respirando o ar fresco e serrano de sua nova cidade. relatos de citadinos que testemunharam o evento dão conta que o rato olhou ao redor e disse: “então é aqui que vou recomeçar a vida. nada mau. duvido os credores me acharem nesse canto esquecido do mundo.”
houve uma casa em um bairro residencial de são paulo na qual, em uma bela noite, surge um rato na área de serviço. alguns moradores entram em pânico, armam um salseiro, começam a trombar entre si, assustando o rato. um morador, temendo pela saúde cardíaca do rato, manda todo mundo para o seu quarto. sozinho, consegue eventualmente prender o rato dentro de um caixa. arquiteta o plano perfeito: “tem um matagal no fim da rua, vou soltar o rato lá”. alta madrugada, rua escura, perto do matagal, uma turma de garotos existindo ali. “como vou soltar o rato agora, na frente desse povo todo? e se o rato erra o caminho e sai correndo em direção à turba?” voltou pra trás. a noite adensava, o rato se impacientava. os dois vagaram madrugada adentro em busca de um matagal mais privativo.
uma casa em um condomínio. um dos moradores acorda mais cedo e entra na cozinha para fazer o café. dá de cara com um rato que por sua vez dá de cara com um humano. o rato, em um ato de diplomacia e boa vontade, pula e entra dentro de um baú com a tampa aberta. o morador corre fechar a tampa do baú, coloca o baú no carro e solta o rato em um matagal perto de casa. uma linda história de colaboração interespécies. homem e rato trabalhando lado a lado em prol do rato.
duas aposentadas
Existe uma piada que me faz rir descontroladamente, e ela envolve um papagaio. Um papagaio, um bolo e um crucifixo na parede. 
Eu tenho minhas questões com piadas de bicho. Parece que, se na piada o bicho se fode, tem alguma validação moral dentro de mim que julga minha risada. 
Fico com um misto de culpa e dó, como se o pintinho sem cu tivesse mesmo explodido, a minhoca tivesse mesmo sido demitida por fazer corpo mole, ou que o jacaré realmente colocou o filho de castigo porque ele réptil de ano.
Mas a piada do papagaio é uma licença humorística ao reino animal. E cruel. E ofensiva às debutantes e ao cristianismo. Mas por isso é non-sense, completamente e desde a premissa, o bastante pra gente rir sem culpa. Ou quase. 
Certa vez na minha vida eu namorei um cara mágico.
Mágico mesmo, ilusionista. A primeira vez que fui na casa dele tinha um livro na cama “How to levitate” e imediatamente pensei “teremos brigas interessantes”.
Mas bom, não demorou muito do relacionamento para que eu me deparasse com o enigma ético do mágico que vê seu coelho engordar demais a ponto de não caber na cartola, ou o seu pombo quebrar uma asa. Ele disse que ia “dar um fim” nos animais. E para que eu não desse um fim no relacionamento, minha casa virou o que chamei carinhosamente de “Le Merveilleux Asile des Anciennes Célébrités” (O Maravilhoso Asilo das Ex-Celebridades).
Adotei para cuidar até o fim dos dias duas estrelas aposentadas de palco: a Tutu e a Cocó. 
Tutu era uma coelha que segundo o vendedor da Cobasi se categorizava como “mini”, mas ficou maior que meu gato de 4kg. Cocó era uma pombinha branca com a asa quebrada.
Cuidei com amor até o fim de seus dias para que não precisassem ir para o corredor da morte só por não ter mais como vender seus corpos para entretenimento humano. Paguei a elas com juros o INSS animal de todos os anos de abracadabra.
Daí volto pra piada do papagaio. Eu tenho quase certeza que 1. não faz me mim uma pessoa horrível rir dessa piada já que seria completamente impossível que ela acontecesse na vida real (vocês verão) e 2. eu certamente já paguei minha dívida com os animais empreendedores artísticos com Tutu e Cocó.
Então para ficar mais tranquila penso, com minha sensível e fértil imaginação (e pouca moral), que certamente num show de humor organizado pelos papagaios, pintinhos, minhocas e jacarés comediantes, eles atuam essas piadas como ilusionismo. O cu do pintinho explode com fumaça mágica, o público aplaude, e o papagaio é um dublê super bem treinado que depois da cena final fuma um cigarro no backstage com Jesus Cristo esperando a próxima sessão.
Certamente. Certamente.
Era uma vez um papagaio que cagava no bolo.
O dono dele se irritava muito e dizia “se você cagar no bolo de novo eu vou te pregar na parede”.
Então um belo dia o papagaio foi convidado para uma festa de 15 anos e cagou no bolo.
O dono ficou possesso e pregou ele na parede. 
Ao olhar pro lado ele viu um crucifixo e perguntou a Jesus: “você também cagou no bolo?”.
Fim.
uma dica
O documentário Gates of Heaven (Errol Morris, 1978). Um filme sobre humanos, pets e humanos que trabalham em cemitérios de pets. Para rir & e chorar ou permanecer apático todo o tempo. Vai de pessoa pra pessoa.
Nós não vamos botar o link aqui porque seria crime de pirataria mas um bem-te-vi nos disse que no site ao lado, aquele do tubo, tem o filme inteiro de graça. Assiste lá!
outra dica
Fantastic Planet (1973) trailer
Fantastic Planet (1973) trailer
A animação Fantastic Planet (René Laloux, 1973). Eu tenho esse filme baixado faz anos, sobreviveu a 3 trocas de notebooks e nunca foi assistido. Mas a premissa é ótima: humanos vivendo em um planeta de alienígenas que tratam eles como pets. Não tem como ser ruim. Assistam por mim.
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paula gomes e mya pacioni

REFRESCOS é como uma coquinha gelada num dia quente. Pequenos textos como goles refrescantes na sua semana de caos.
Twitter: @myapacioni e @paulagomesn

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Curadoria cuidadosa de paula gomes e mya pacioni via Revue.