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REFRESCOS - #5 Comida

REFRESCOS
REFRESCOS - #5 Comida
Por paula gomes e mya pacioni • Edição Nº5 • Ver na web

uma preocupação
entre 1998 e 2005 a cidade de limeira, no interior de são paulo, teve vários surtos de salmonelose. corria à boca pequena que era tudo culpa de uma granja cujo nome vou omitir porque se eu for processada acabou pra mim. segundo uma moradora da cidade, que pode ou não ser minha mãe, a granja “tanto vendia ovo contaminado que faliu logo depois dos surtos”. coincidência ou não, após a falência da granja a cidade nunca mais teve surtos graves da doença. mas os traumas gerados no cidadão limeirense perdurariam por anos. 
no ano de 2008, em uma belo fim de semana de calor e tédio, eu e uma companheira de república decidimos cozinhar “um prato diferente” pra passar o tempo. foi ventilada a ideia de um pavê. meus conhecimentos sobre a iguaria estacionavam na piada, mas ela disse que sabia fazer, então me pareceu jogo ganho. lembro que fizemos um creme, outro creme, aí minha amiga abriu o pacote de maizena com um gesto grandioso e disse “agora é só montar”. arrebatadas pelas experiência de manipular aquelas unidades de bolacha na construção de uma obra sublime, maior que todas nós, mergulhamos no processo de corpo e alma. não havia dúvidas de que emergiríamos dali pessoas melhores. no fim da tarde, já acabando de montar, falei:
— vou ligar o forno pra pré-aquecer.
— mas não vai no forno. vai na geladeira agora.
— e depois vai para o forno?
— não, depois tá pronto. pavê não vai para o forno.
— mas vai ovo cru no creme branco.
— ???
— pode dar salmonelose.
— ???
— é uma doença grave. mata.
— eu comi pavê a vida inteira, nunca ouvi falar disso.
— é, acho que não vai dar nada — contemporizei.
passou um dia, dois, e o pavê intacto na geladeira. veio alguém em casa. avistou o elefante branco. 
— e esse pavê enorme aí, em?
— você quer? pode levar.
um manifesto
Se houvesse uma pílula que contivesse todas as calorias, proteínas, carboidratos, vitaminas etc que uma refeição deve conter, eu certamente seria público alvo garantido.
Não tem nada a ver com gostar ou não de comida. Eu adoro comida, adoro comer, adoro cozinhar, sou apaixonada por descobrir combinações de receitas. 
Porém quando eu quiser! Oras!
Tem gente que fica chocada quando comento isso, mas o fato é: essa imposição fisiológica de ter que comer pra se manter vivo é uma arbitrariedade horrorosa da natureza.
Foi erro do designer de produto que fez os seres vivos. 
“Chefe, o produto tá massa, mas vamos precisar de energia pra fazer funcionar”
“Precisa mesmo? Não tem com ser algo, sei lá, cinético?”
“Não, precisa ser com combustível mesmo.”
“Tá, então faz de um jeito bem autoritário, que comande a vida toda deles e que ainda gere lixo no final do processo.”
Tudo isso é detestável, pensando no contexto geral da humanidade.
Bom seria se todos tivessem o que comer e isso não fosse nem uma questão, se comeria por esporte, por hobby. Comer quando quer, quando tá inspirado. Fazer aquele prato maravilhoso receita da sua avózinha para servir aos seus amigos que vão jogar ketchup em cima e estragar tudo. Ou só cozinhar para experimentar como fica a mistura aleatória dos últimos ingredientes que tem na sua geladeira. 
Mas não. 
A gente precisa almoçar e jantar. Fazer um lanche no meio da tarde. Decidir na madrugada se dorme ou come algo (o dilema de quem tem insônia).
Deixo aqui então meu manifesto pela alimentação puramente hedonista, que sirva de roteiro para quando os alienígenas vierem dominar a Terra para criar uma versão 3.0 do ser humano:
  • Que não exista essa necessidade por comida e nossa energia venha de, sei lá, dança (tipo aqueles relógios que dá corda com o movimento do pulso)
  • Que possamos escolher qual quantidade de comida vai nos saciar
  • Que sopa seja sim considerada janta
uma matéria de uma revista famosa
Pense na lagosta
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paula gomes e mya pacioni

REFRESCOS é como uma coquinha gelada num dia quente. Pequenos textos como goles refrescantes na sua semana de caos.
Twitter: @myapacioni e @paulagomesn

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Curadoria cuidadosa de paula gomes e mya pacioni via Revue.