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REFRESCOS -#21 Personagens da Vida Real

REFRESCOS
REFRESCOS -#21 Personagens da Vida Real
Por paula gomes e mya pacioni • Edição Nº21 • Ver na web
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a dona da rua
na edição passada mencionei um barraco generalizado entre os moradores do meu bairro. talvez tenha passado a impressão de ter havido um único grande barraco que deu fim a uma convivência até então cidadã e pacífica. uma versão mais modesta da pax romana bem ali, no coração do interior paulistano. nada mais enganoso. o bairro vivia em constante tensão. tanto é que nem me lembro em detalhes deste último rebuliço, só que envolvia questões trabalhistas do guarda do bairro. agora se foi sobre as folgas, as férias, a gestão corrupta do caderninho de arrecadações, vai saber. a única constante nas brigas todas é que eram originadas pela mesma pessoa. vou chamá-la de D¹ porque, apesar das chances de ela entrar em contato com essa newsletter, ler e me processar serem microscópicas, o seguro morreu de velho. 
D morava em uma casa bem central do bairro. quase toda noite pegava a cadeira de praia dela e colocava na calçada. o pessoal da rua ia chegando com suas respectivas cadeiras e sentando, formando uma grande roda de conversa que comia a noite, enquanto as crianças brincavam em outro ponto da rua. a conversa sempre ia muito bem até que ia mal. D, de um instante para outro, decidia que já tinha sido simpática por tempo demais, que toda aquela gentileza a estava sufocando, e puxava uma briga com algum desafortunado da roda. digo desafortunado porque D não tinha adversários à altura no bairro, composto majoritariamente por pessoas pacatas, de pavio longo. esse tipo de gente, que tem pavor de brigas, quando se vê envolvida no olho do furacão de algum desconjunte social fica mortificada, aquela briga em replay em sua mente para o resto da vida. já pessoas como D não dão o mesmo peso para os entreveros. não costumam guardar mágoas. brigou, no segundo seguinte já esqueceu. 
um dos bafafás mais homéricos de D envolveu uma peça de picanha bassi. um amigo do marido de D foi pra são paulo e trouxe a tal picanha de presente. ela levou a peça para um churrasco da rua, que foi colocada na churrasqueira junto às asinhas de frango, linguiças… toda sorte de artigos menos nobres e sem sobrenome. nessa época ela tinha um bebê pequeno, então ficava indo e voltando da casa pra ver se ele ainda estava dormindo. numa dessas ausências rápidas, a picanha ficou pronta. alguém cortou a peça e passou oferecendo. quando ela voltou e viu sua picanha sendo socializada sem cerimônias, como se na união soviética estivessem, o caldo entornou. D brandia um paninho de prato no ar, gritando que a picanha era dela — fato incontestável — e que tinham comido tudo — mentira descarada. como sua fúria não era propositiva, apenas um berrar pelo leite derramado, os comensais, acuados, não sabiam o que fazer. pessoas com a picanha na boca hesitaram entre engolir e cuspir e mantiveram o pedaço na boca por um tempo indeterminado. algumas pessoas que estavam com o pedaço na mão, igualmente apavoradas, cogitaram devolver para o prato, mas o olhar sanguíneo de D parecia comunicar que tanto devolver quanto comer eram ações reprováveis. algum apalermado tentou uma terceira via, dizendo que o valor da picanha seria restituído, o que piorou ainda mais a situação porque deu munição para D continuar o escarcéu dizendo que não tinha como devolver o valor já que foi um presente. a festa acabou / a luz apagou / o povo sumiu / a noite esfriou.
o marido de D vira e mexe estava sentado na calçada na frente de casa, contrariado. fazia isso quando eles brigavam. se alguém ia perguntar o que aconteceu, ele falava “ah, a D…” com um gesto de braço evasivo, um olhar para o nada, e não concluía a frase. ele tinha um posto de gasolina chamado “vá ver”. eu sempre achei esse nome muito arrojado, porque veja, não é “venha ver” ou “vem ver”. o enunciador não é o posto, e sim um cliente satisfeito falando do posto para outra pessoa, o que garante bem mais credibilidade ao discurso. ele faleceu faz uns anos e ela se mudou do bairro. minha família também se mudou, mas às vezes a gente passa lá. hoje ele é tão pacato que chega até a ser sem graça.
¹o nome verdadeiro dela é a continuação dessa frase “nossa, beyoncé é uma …. mesmo!”
NPC
“- A praia é lá embaixo mas o assalto é aqui em cima!”
Com essa calorosa recepção que o senhor de bigode à la Sam Elliot, chapéu de cowboy texano e colete de pescador, recebe os turistas que chegam ao seu estacionamento na praia do Jabaquara em Ilhabela. 35 reais e cuidam do seu carro o dia todo, concorrendo apenas com as 7 vagas gratuitas ao longo da estradinha de terra antes da placa de proibido estacionar. 
Toda vez que vou lá escuto a mesma frase. E olha que não vou pouco.
Gosto de acreditar que o bigodão está lá desde sempre, como um eterno NPC* da minha vida, fazendo a mesma rotina e entrando em seu chalé (nem sei se ele mora lá) em horários bem específicos para que eu possa organizar direitinho as quests que preciso completar com ele (quem nunca jogou um videogame tipo Zelda pode se perder nessa parte).
Acontece que conhecemos NPCs na nossa vida o tempo. 
Por exemplo na loja de discos que gosto de ir na Mooca, um senhor também de bigode branco e colete (dessa vez jeans surrado, que ele deve ter usado em 1975 no festival de Iacanga), sempre me atende e tenta me convencer de NÃO levar nenhum disco bom que escolho.
“— PUTA QUE PARIU ESSE DISCO É MUITO BOM, não leva não, é meu xodó. Sai daqui!”
Em seguida tira o disco da capa, bota pra tocar e no fim acaba me dando esse e outros de presente.
Última vez perguntei se tinha o “Carlos, Erasmo” e quase me tirou da loja:
“— Mais fácil você encontrar libra esterlina nesse chão do que esse disco pra vender.” 
Às vezes me chama baixinho sussurrando, uma encenação para que nenhum outro cliente veja - apesar dele sempre se certificar que há platéia, e mostra algum disco que considera o maior achado de todos os tempos. Explica a história do disco. Se empolga. 
Outro NPC.
Meu prédio é repleto de NPCs também. Um professor aposentado de cabelos longos e brancos que passeia com sua cachorrinha e sempre que passa por alguém fala:
“— É amiiigo, Branquinha. Amiiiigo.”
Sempre me pergunto se ele homenageou pinga ou cocaína com o nome da canina, em vista que de “branquinha” ela não tem quase nada em sua pelagem cinza. O sentido me escapa.
Ou a minha favorita, a também professora aposentada e que está sempre cantando, dançando ou falando enquanto desce o elevador sozinha. Sim, sozinha. E não muda ao encontrar um vizinho, apenas feliz diz um “— Ah! Oi!!”, dá um pulinho e continua seu caminho, cantarolando. Uma vez conversando rapidamente quando saímos juntas do prédio ela atravessou a rua enquanto falava comigo, e continuou falando do outro lado, na outra calçada, uns 6 metros de distancia de mim, até entrar no mercado e a conversa se encerrar por quebra de alcance da minha audição.
NPC maravilhosa.
Pois bem, essas pessoas todas possuem características muito específicas. Em suas rotinas, suas falas, suas roupas. E todas tem longo tempo vivido nessa Terra. É isso que as torna NPC: traços excêntricos, idade e desprendimento com qualquer julgamento alheio. 
Eu ainda sou um tanto nova para me dar ao luxo de viver assim, mas penso que ao passar desses muitos anos que espero encontrar pela frente irei aos poucos investir em traços até transcender as sutilezas e virar caricata, uma certa liberdade em viver, até me tornar NPC da vida de alguém. 
“— Sabe aquela senhorinha figura de cabelo branco que sempre tá falando com o gato enquanto rega sua primavera e ouve uns discos estranhos?”
*Non Playable Character ou Personagem Não-Jogável. Termo usado para designar os personagens de jogos eletrônicos que não podem ser controlados pelo jogador, mas que interagem durante a aventura.
uma dica
O Youtuber Joel Harver fez algumas animações hilárias de cenas de vídeo games sob o ponto de vista dos NPC. Não conseguimos escolher uma só então vamos indicar duas:
  • Tailing Missions, aquelas missões onde precisamos seguir um NPC sem ser percebidos.
Tailing Missions from the NPC's Perspective
Tailing Missions from the NPC's Perspective
  • Quando o jogador morre pela perspectiva dos NPC.
When the Controller Dies from the NPC's Perspective
When the Controller Dies from the NPC's Perspective
E tem também um outro dividido em 2 partes, sobre aqueles jogadores (como eu, Mya), que tentam correr no jogo e pulam todas as falas dos NPC. Speedrunners da perspectiva NPC - Parte 1, e Parte 2. Engraçadíssimos.
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paula gomes e mya pacioni

REFRESCOS é como uma coquinha gelada num dia quente. Pequenos textos como goles refrescantes na sua semana de caos.
Twitter: @myapacioni e @paulagomesn

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Curadoria cuidadosa de paula gomes e mya pacioni via Revue.