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REFRESCOS - #20 Jogos

REFRESCOS
REFRESCOS - #20 Jogos
Por paula gomes e mya pacioni • Edição Nº20 • Ver na web

vai todo mundo perder
um pedaço da minha infância eu passei brincando na rua. queimada, vôlei, bandeirinha, esconde-esconde. mas não era um cenário lúdico ideal, já que todas as outras crianças da rua eram mais velhas, mais altas, mais atléticas. a imaturidade física e cognitiva me tornava um alvo tão fácil que nenhum time me queria. pra resolver o problema, o pessoal da rua me concedeu o honorável status de jogadora café-com-leite. 
a princípio fiquei feliz, isso significava que eu podia brincar junto, mas na prática foi confuso. sobrava só eu na queimada e o time adversário perguntava para o resto “mas acabou, então, né, já que ela é café-com-leite?”. às vezes uma alma misericordiosa do meu time falava “mas podem continuar jogando até acabar”, e o que se seguia era um jogo burocrático, desprovido de vida e de sentido. 
eu nutria a esperança de um dia as coisas se equilibrarem. cresceria e me tornaria mais ágil, ao passo que as outras crianças envelheceriam e se tornariam roliças, lentas, tropeçantes. as brincadeiras na rua acabaram antes do meu sonho (não) se concretizar. uma reforma da prefeitura escavou uma saída na rua, que era sem saída, trazendo um movimento inoportuno ao bairro. somado a isso, rolou uma briga generalizada entre os moradores (meus pais envolvidos) que acabou resvalando nas crianças. gradativamente o movimento foi minguando até ninguém mais sair na rua, decretando o fim de uma era. 
não sei se é por causa disso¹, mas me tornei uma pessoa que vive a sua vida em uma atmosfera ausente de competitividade. acho constrangedor quando estou assistindo a um reality e o participante fala “eu sou muito competitivo”. automaticamente já o coloco naquela categoria de homens que surgem com uma bola na festa infantil do sobrinho e passam a aterrorizar as crianças gritando “quero ver quem consegue roubar a bola do tio” e não deixam ninguém, nem mesmo o aniversariante, roubar a bola do tio.
até entendo o showzinho do atleta competitivo quando as coisas não estão rolando pra ele. um tenista socando a raquete no chão, um jogador de futebol gritando freneticamente “mão na bola” para o juiz depois de um gol do seu adversário, o famigerado saltador francês que ousou reclamar da plateia brasileira nas olimpíadas. acho embaraçoso e desrespeitoso com o adversário, mas pra ele o esporte é trabalho e trabalho é irritante mesmo. agora o chilique do não atleta, da pessoa que inventa de ser competitiva em um programa da globo chamado “zig zag arena”, esse é enervante.
o pior cenário que pode te acontecer em vida é você se perceber enredado no papinho mole de uma pessoa competitiva. tudo se passa mais ou menos dessa forma: ele propõe um jogo, uma singela competição de quem acerta não sei o quê não sei onde. você, cortês, aceita. lá pelas tantas, percebendo que a brincadeira rapidamente se desvirtuou para um festival de hostilidades, você começa a perder a boa. nesse estágio, há duas opções: (1) relevar, ser a pessoa magnânima que continua não levando a sério a brincadeira, ou (2) se enveredar pelos tortuosos caminhos da competição. o primeiro caminho não existe, é uma abstração teórica. o segundo é uma luta inglória. o competitivo sempre vai ganhar, porque ele levou aquilo a sério desde o princípio (entendeu a aerodinâmica do objeto lançado, traçou estratégias, forçou seu corpo a interiorizar os movimentos certos de cotovelo e pulso), enquanto você desperdiçou um bom tempo tacando de qualquer jeito, “com o olho fechado agora, em, pessoal”.
eu gostaria de terminar esse texto com alguma luz no fim do túnel, mas seria irresponsável de minha parte sugerir que, tal como a garotada de The Mighty Ducks, é possível reverter esse tipo de situação desfavorável com disciplina, dedicação e sorte. eu, quando era a última a sobrar na queimada e meu status de café-com-leite era suspenso, sempre tive o sonho de escapar de todos os golpes e queimar um por um, impondo uma derrota acachapante. era sempre queimada na primeira tentativa.
¹provavelmente não é, mas pra que serve a memória se não para atribuir relações causa-consequência equivocadas entre passado e presente.
A vida é um jogo
Pedro achava que a vida era um jogo.
Desde o primeiro adoletá aos 4 anos de idade se encantou pelas possibilidades e aleatoriedades de um mundo lúdico. Sentia que a realidade era muito chata, pelo menos do jeito que errôneamente contavam pra ele que era, e então começou, sem muito perceber, a viver seus dias como um jogo.
07:00, o despertador toca. Não é um despertador qualquer, mas um app que não para de tocar enquanto você não encontrar os 7 erros nas imagens.
Contava pontos mentais pra cada conquista no caminho pro trabalho: o ônibus chegou a tempo, +10. Tinha lugar pra sentar, +30. Foi assaltado, -1000.
No trabalho ele brilhava. Foi quem melhor entendeu todo o gamification meritocrata do mundo corporativo. Comparecia a reuniões com afinco, sabia tudo na ponta da língua, escreveu as regras pro povo todo da firma seguir.
Mas Pedro era também, por isso, um tanto insuportável. 
Qualquer coisa banal que atravessasse a vida de Pedro ele imediatamente propunha um desenfado. Como se a tragédia do tédio diário não pudesse o alcançar jamais.
“Senhor, são 10 reais e 25 centavos” disse a garçonete ao Pedro com apenas 10 reais na carteira. Não era um problema.
“Tira comigo no jokenpô, se eu ganhar pago só 10 reais”.
Pedro conhecia os macetes e regras de quase todo jogo. Da velha, batalha naval, STOP (pra alguns adedonha mas me recuso), dois ou um, resta um…
Infelizmente por seu imenso repertório praticamente ninguém conseguia fugir da proposta com “não sei jogar isso”. Ele esgotava as possibilidades.
Há quem nesse ponto da história pense que Pedro não tinha sorte no amor, afinal, “sorte no jogo azar no amor e vice versa”, mas pasmem: o amor tem um tanto de jogo, e se tem jogo, tem Pedro. Pedro sabia jogar até nesse campo, chutava a bola certa pra conquistar corações. Testava a medida certa do tempo pra responder um whatsapp, quando curtir o stories, quando chamar pra dançar, que piadoca fazer sobre a roupa do parceiro que parecia Agostinho Carrara. 
Ele dificilmente errava.
Mas ele perdia, sim, Pedro perdia muito. Mas isso não é errar. Ele sabia que perder faz parte do jogo e as derrotas só o faziam querer jogar mais. Era melhor de três, melhor de cinco, mata-mata. 
Pedro uma vez resolveu ir fazer terapia. Só pra sacar o jogo do terapeuta. Foram 3 meses e o coitado mudou de carreira. (o coitado do terapeuta, não Pedro. Pedro não tinha carreira, tinha canastra. De Às a Às.)
Pra não dizer que era insuportável a todos essa existência de recreio, qualquer momento que ele se sentisse um pouco de lado era só correr pra praça mais próxima. Era o melhor amigo de todos idosos, taxistas e bicheiros da região. No Bingo deixava algumas tias ganharem, pelo prazer de vê-las jogar as mãos pro alto e berrarem com voz de cigarro “BINGO!!! SE FODEU PEDRO! HAHAHA - cof cof - HAHA”.
Olhando de perto, não acho que ninguém reprovaria esse Jogo da Vida que Pedro jogava. Ele tinha encontrado uma forma de andar por esse tabuleiro cotidiano. 
O tempo foi passando, ampulhetas virando, cronômetros de xadrez tintilando, apitos marcando fim de jogo. Passaram mais de 80 anos de Pedro virando dados pra cada novidade, baixando apps incontáveis até onde sua vista permitiu, colecionando baralhos coloridos de toda cidade que passou.
Diziam que ele desafiaria pro carteado até mesmo a Morte quando esta viesse lhe encontrar. 
Mas mal sabiam que ele tinha pra esse momento seu gol de ouro reservado. 
Num domingo qualquer, sentado em seu sofá e com a paz de um cardíaco fulminante, finalmente a morte súbita lhe pegou. Não teve replay da vida, não teve Continue, os cogumelos que comeu na juventude não deram 1UP. Era mesmo o game over de Pedro, o único homem que de fato entendeu que se a vida é um jogo a gente inevitavelmente perde.
uma dica
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dica bônus
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Deve fazer um tempo já que você não assiste a clássica esquete do Monty Python “Futebol de filósofos”. Aproveite essa oportunidade para rever, e chegar à conclusão de que cada vez que você assiste, parece ainda mais engraçado.
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paula gomes e mya pacioni

REFRESCOS é como uma coquinha gelada num dia quente. Pequenos textos como goles refrescantes na sua semana de caos.
Twitter: @myapacioni e @paulagomesn

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Curadoria cuidadosa de paula gomes e mya pacioni via Revue.