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REFRESCOS - #18 Conselhos

REFRESCOS
REFRESCOS - #18 Conselhos
Por paula gomes e mya pacioni • Edição Nº18 • Ver na web

por que você não...
deborah blando quem lembra? com as respostas dará para traçar a faixa etária do assinante da refrescos, uma vez que deborah blando foi queimada a ferro na memória de todos que acompanharam a mal-escrita personagem de deborah secco¹ na novela laços de família. ísis ia tomar um banho de cachoeira e já vinha a deborah blando “cuide do seu nariz / você fala demais / não foi eu que pedi / se conselho fosse bom tu vendia.” 
eu tinha 12 anos na época. desde então, quando alguém vem me dar um conselho, deborah blando começa a tocar no fundinho da minha mente. o que não me parece uma reação madura, adotar o leitmotif de uma personagem obtusa. mas eu tinha 12 anos e as coisas que você vê nessa época ou te traumatizam ou forjam seu caráter. foi assim com essa música.
por conta disso, eu tendo a ser muito reativa quando algum desavisado acha por bem me dar um conselho. mas não pense você que a reação é externa. que eu produzo algum som gutural ou dou uma resposta atravessada. não. é interna. e é exatamente essa que eu disse acima, a música da déborah blando tocando na minha cabeça. como bônus track, vem uma imagem da isis tomando banho de cachoeira, rodopiando e rindo de forma ensandecida. toda. santa. vez. essa idiossincrasia (pra não dizer pane) mental é algo que eu não costumo compartilhar com ninguém, porque tenho medo de contaminar a pisquê alheia, a pessoa involuntariamente começar a ouvir deborah blando ao se ver diante de uma situação de conselho. por que eu resolvi contar isso logo de uma vez para quase 400 desconhecidos nessa edição da newsletter? me escapa. 
dito isso, tenho outra coisa a dizer. um conselho, vejam só. um conselho para padres e freiras que nasceram providos de beleza. entendo que vocês acreditam em algum tipo de atividade além-vida, mas na eventualidade de estarem errados, tornar-se padre ou freira é uma escolha desastrosa. porque vejam, as pessoas geralmente nascem com apenas uma grande qualidade e se viram com o resto. renegar isso é recusar seu papel no grande esquema das coisas. é não pensar no coletivo. em última análise, é ser anticristão. meu conselho, então, é pra vocês repensarem todas as suas escolhas de vida, já que observa-se uma tendência a tomar decisões erradas. o “chamado” que vocês costumam alegar ter recebido para a vida pastoral pode não ter sido enviado por aquele sujeito tripartite e sim por outro ser nem bom nem mau, apenas uma criatura celestial voluntariosa que sempre bate a meta mensal de chamados mas se equivoca com frequência.
¹esse h no final do nome das duas deborahs me leva a acreditar que as duas nasceram predestinadas a trabalharem juntas. tudo que ocorreu antes de laços de família sendo uma perfeita cadeia de eventos arquitetada para desaguar em ísis tomando banho de cachoeira ao som de próprias mentiras. pode ser numerologia também, mas a primeira hipótese é mais provável.
uma questão ácida
“— …bota batata!
— Batata?
— Batata.
— Por que?
— Batata tem ácido.
— Batata não tem ácido, limão que tem ácido.”
E foi até aí que consegui ouvir o diálogo dos pedreiros que estão reformando o banheiro do vizinho de cima, antes que as vozes fossem de novo abafadas pelo som de picaretas, furadeiras e o insuportável martelete.
O que estava por trás desse conselho nunca vou conseguir descobrir e isso me atormenta profundamente desde então. Pensei em subir até o 6º andar só pra saber o que é que se resolve com batata, mas minha curiosidade ainda é menor que minha noção de ridículo. Pouco, mas é.
Então resolvi sozinha tentar descobrir o contexto desse ensinamento: se for um palpite culinário, apesar de parecer que o do limão que está correto - pois quando pensamos em ácido já vem o cítrico na cabeça - a batata tem ácido ascórbico, a tal vitamina C. Mas eu jamais pensaria em colocar um tubérculo num molho que eu quisesse acidificar. Pesquisei e foi assim que descobri que o pH da batata é 5,5 e talvez eu tente misturar com gin na próxima vez que me faltar limão em casa.
Já indo pro lado de que eles podem estar falando de maromba, a discussão seria metabólica. Resgatei da memória profunda dos livros do cursinho que batata é carboidrato, carboidrato é aminoácido, e aminoácido tem ácido no nome, bingo, ele tá certo na dica de novo.
Mas pensando que estavam reformando um banheiro e a recomendação podia ser de trabalho, talvez encontraram um fungo super potente na parede e precisavam de uma solução caseira pra impressionar o mestre de obras eco-friendly vegano, “passa batata que o rejunte fica limpinho” pode ter sido o resto do pitaco. Batata ao funghi de azulejo. 
Outra hipótese é a estética. O rapaz está enfrentando manchas terríveis, melasma, e o amigo sabe que uma máscara de batata por 25 minutos ajuda a clarear a pele. Espero que seja coerente em ouvir o colega nesse caso e não a própria intuição, e não passe limão na cara. Eu já fiz isso quando era novinha e não foi nada esperto.
Última e improvável - mas não impossível - alternativa seria que estivessem tentando descobrir uma forma de potencializar os efeitos de um LSD há muito tempo guardado na carteira. “Passa batata no quadradinho que reativa esse ácido e tua viagem vai ser salva, amigão.” 
Talvez.
Fato é, não vou conseguir descobrir nunca a qual finalidade se basta o conselho de que batata tem ácido. Será meu destino passar meus próximos anos lembrando desse diálogo todas as vezes que me deparar em circunstâncias que necessitem de acidulação.
Ou de batatas.
aquela ideia errada
Desenhei isso num desespero no início do isolamento em março de 2020.
A franja já cresceu de volta, felizmente. - Mya
agora sim, de fato, nossa dica
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Nessa esquete da série Key & Peele (Comedy Central, 2012-2015) um homem tenta avisar seu amigo do conteúdo horripilante por trás das letras das suas músicas country favoritas, mas ele tem o tempo dele.
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paula gomes e mya pacioni

REFRESCOS é como uma coquinha gelada num dia quente. Pequenos textos como goles refrescantes na sua semana de caos.
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Curadoria cuidadosa de paula gomes e mya pacioni via Revue.