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REFRESCOS - #14 Academia

REFRESCOS
REFRESCOS - #14 Academia
Por paula gomes e mya pacioni • Edição Nº15 • Ver na web

uma alegria
na época em que eu dava aulas à noite, ia pra academia às três da tarde (quase) todo dia. eu e as mesmas 10, 15 pessoas.
tinha uma japonesa muito simpática que começou a engatar um flerte com um dos instrutores. nunca entendi como ela conseguiu tal proeza, já que o cara era extremamente lacônico. eu, por exemplo, nunca tinha passado da barreira “boa tarde, tudo bom? / tudo sim e você? / também” com ele. imagino que devia ser exaustivo ficar pensando em assuntos elaborados no dia anterior para chegar na hora e o instrutor assassiná-lo com um monossílabo, forçando-a a recorrer ao próximo assunto mais rápido do que esperava.
tinha uma mulher que sempre ia junto com o filho e acho que não preciso dizer mais nada. mas vou dizer: ele devia ter uns bons trinta anos mas se comportava e agia como um adolescente de 15, e a mãe com as amigas achando lindo. as amigas da mãe, uma loira bem magra e uma morena não tão magra quanto ela, viviam às turras. isso porque a loira era uma incansável máquina de abdominais e exercícios com pesinhos, todos desempenhados com fúria & vigor. já a morena era do tipo reclamona. um tipo pelo qual me compadeço, pois sou igual. tudo ela reclamava que estava excessivo: a carga, o número de repetições, o deslocamento entre uma máquina e outra. estava sempre pedindo pra trocar o exercício ou fazendo só metade com má vontade e cara de profundo dissabor. a loira, vendo o coro da descontente, não perdia uma oportunidade de espezinhar a amiga, como se o natural, o desejável, o bom era a dedicação espartana e a gana enérgica que ela aplicava à menos nobre de todas as atividades físicas existentes, futebol de sabão incluso.
tinha também uma mulher com um rosto que não me era estranho e sempre me cumprimentava efusivamente. era desconcertante porque eu não sabia se conhecia ela de algum lugar ou se era só mais um caso de Pessoa Com Um Rosto Parecido Com O De Muitos Outros, Excessivamente Simpática. 
tinha os caras também, e esses eu guardei para o final do texto porque quero terminar ele com o graça lá no alto e nada é mais fácil de rir do que homens na academia.
tinha um cara que chegou um dia acompanhado de uma menina com a metade da idade dele, os dois fortemente investidos na fantasia de ginástica. tinham os apetrechos todos. a luvinha, a garrafinha de plástico duro transparente com um substância amarelada em temperatura ambiente dentro e, se não me falha a memória, um deles usava uma faixinha no cabelo. ele fazendo os exercícios e ela do lado, como se fosse uma assistente pessoal performando trabalho mesmo ociosa. ou o que deu pra fazer em matéria de plateia para as incríveis habilidades do cara na cadeira adutora. enfim, uma presença espectral sempre ao seu lado. vieram uma semana depois sumiram. uns meses depois, quem volta? sim, o cara. acompanhado igual, fantasiado igual, mas a moça era outra.
a cereja do bolo pra mim era um jovenzinho nem fraco nem forte. mediano, que ficava alugando os instrutores, falando de competições de força que ele ia disputar naquele mês. claro que ele fazia muitos “uhhh” e “ahhh” nos exercícios e só fazia exercício de braço mas arranjava um jeito de sempre estar à espreita, desejoso da sua máquina, te amolando. era evidente que colocava mais peso do que conseguia aguentar. eu podia ver as hérnias de disco se formando na lombar dele a cada “uhh” e “ahh”. um belo dia, ele estava fazendo aquele exercício deitado empurrando a barra pra cima (supino?) e começou a berrar para o instrutor, que estava do outro lado do salão, pra acudir ele. tinha colocado mais peso do que aguentava e agora não conseguia subir a barra. o instrutor, o lacônico, irritado que o cara estava atrapalhando seu flerte desajeitado com a japonesa, foi acudir o cara andando l e n t a m e n t e em sua direção. os minutos passando, o cara sofrendo em silêncio esperando o socorro, meus olhos cruzam com os do instrutor lacônico. uma risadinha de cumplicidade e ele segue seu rumo, mais lento ainda. enfim chega, sobe a barra, não fala nada, vira as costas e volta para a japonesa. são realmente poucas as alegrias que se pode ter dentro de uma academia, essa foi uma delas.
dois colegas
— Eu acho que a academia não é lugar pra mim.
— hum… Passa o peso de 5kg, por favor?
— Aqui. Então, é um ambiente muito insalubre, cheio de informação e movimento. As pessoas estão todas tão focadas em seus próprios crescimentos, metas, ganhos, perdas, que mal conseguem compartilhar, considerar quem está do lado, alternar com o colega. Ninguém tá nem aí pro que você tá fazendo.
— Você se sente sozinho?
— Muito! É uma jornada solitária. Você e você mesmo. Poucas vezes nos deparamos com atividades de real troca mas no fim é sempre aquele individualismo mesmo… Já terminou?
— É a última série.
— Tá.
— Mas então, o nosso objetivo nem sempre é coletivo.
— Nem sempre. Mas eu sinto que poderíamos nos esforçar pra ser, sabe? Poderiam estar todos juntos usando esse gás pra construir algo maior.
— Às vezes fortalecer o indivíduo pode trazer benefícios pra todos. 
— Ah, mas não sei se desse jeito egoísta. Talvez no passado era assim, mas hoje com a internet eu acho muito narcísico. Muito eu, eu, eu, meu, meu, meu. E mostrar pros outros, sempre atrás de aprovação.
— Entendo.
— E competitivo né. Perna?
— Perna. Você acha competitivo ruim?
— Ah, sempre estamos olhando pro lado pra ver quem faz mais, quem chegou mais longe, quem fez melhor a prática toda.
— Tem que valer pra tar pago.
— É, mas começa ali na demanda por melhoria do ser humano e finaliza pro lado das premiações, reconhecimentos, campeonatos. Só pelo holofote.
— Mas nem todos tem essa oportunidade.
— Nem objetivo! Quer água?
— Claro. Nossa, esse ferro aqui tá zoado demais.
— Uhum… E a máquina tá toda sucateada. São raros que de fato podem usufruir de estrutura boa, e custa caro demais, só os privilegiados.
— Tem que trabalhar com o que tem…. uuuuhhn pfff… 
— Boa, essa foi pesada!! Mas fora isso, o que me incomoda mesmo é que acho que não consigo ter esse foco, essa força, essa fé. Eu sou muito distraído, indisciplinado. É muita coisa pra ler, muito texto, livro… 
— Não só ler, tem que produzir, escrever sempre. 
— Sim, só é notado quem publica artigo, quem escreve livro, termina pesquisa, quem dá aula. E quem não é notado não ganha mais dinheiro. O governo matou todo o incentivo de pesquisa científica. Precisou mercantilizar.
— Tem que se dedicar demais e amar muito o que tá fazendo. Liberou a bike.
— É um peso grande demais pra levantar e sozinho não tô conseguindo. Muita pressão.
— Tudo bem desistir. Às vezes melhor jogar a toalha. Fala com a reitoria.
— Vai ser o jeito.
— 20 minutos no modo subida?
— Duvido você bater minha velocidade.
— Vai magrelo, quero ver.
— Valendo! CORRE!
uma dica
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Na série Nathan for you (Comedy Central, 2013-2018), Nathan é um guru-mentor que ajuda pequenos empresários a prosperarem Nesse episódio, ele guia o dono de uma empresa de mudanças a diminuir seus gastos com funcionários promovendo o trabalho de mudança como uma nova modalidade esportiva.
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paula gomes e mya pacioni

REFRESCOS é como uma coquinha gelada num dia quente. Pequenos textos como goles refrescantes na sua semana de caos.
Twitter: @myapacioni e @paulagomesn

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Curadoria cuidadosa de paula gomes e mya pacioni via Revue.