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REFRESCOS - #10 Trânsito

REFRESCOS
REFRESCOS - #10 Trânsito
Por paula gomes e mya pacioni • Edição Nº11 • Ver na web
Devido ao retorno das atividades normais na região metropolitana de São Paulo e Campinas, a nossa van de Refrescos ficou parada no trânsito da Anhanguera e se atrasou.

uma medida educativa
sinto que o tamanho dos carrinhos e a largura dos corredores de supermercado não reduziram na mesma proporção. em algum momento os carrinhos pararam de encolher enquanto os corredores, que antes comportavam tranquilamente dois carrinhos (idealmente um indo e outro voltando), agora acomodam um carrinho e meio. ou um carrinho e uma pessoa oferecendo degustação de algo que no valor promocional já é caro.
minha mente, treinada para farejar gente querendo roubar meu dinheiro, suspeita que os carrinhos pararam de encolher seguindo o mesmo raciocínio mercadológico dos restaurantes por quilo que te oferecem pratos confeccionados para gigantes: pra te induzir a colocar mais comida dentro dele.
fosse só esse problema, eu relevava (minto). mas claro que as rodinhas de dois terços da frota de carrinhos de supermercado também estão todas escangalhadas. das duas uma (ou duas mesmo): ou seu carrinho anda em diagonal, ou ele desliza a duras penas, quase arrastado, porque um das rodinhas está travada. e tomar um tempo ali no estacionamento de carrinhos para escolher um bom é desperdício de energia e tempo. você misteriosamente não consegue desenganchar os melhores e, mesmo que à primeira vista o carrinho pareça ok, nada garante que no meio da compra ele não vai começar a dar algum problema. é o mesmo erro de ficar escolhendo ônibus ou vagão de metrô. todos vão estar ruins, pegue o primeiro que aparecer na sua frente.
por estar operando um veículo avariado, eu tenho uma direção extremamente defensiva no supermercado. sou a única. assisto estupefata pessoas voando pelos corredores como se estivessem em um episódio do saudoso programa SuperMarket (Rede Bandeirantes, 1993-1998), com apenas 60 segundos para pegar tudo. já fui vítima de tantas colisões (frontais, laterais) e acidentes envolvendo meu calcanhar e a rodinha do carrinho de trás, que se os supermercados passassem a distribuir multas por condução perigosa de carrinho, eu seria uma ferrenha apoiadora. 
para o supermercado não custa nada. a infraestrutura de vigilância já está instalada. as mesmas câmeras utilizadas para checar roubos poderiam acumular a função de flagrar movimentações imprudentes com o carrinho. excesso de velocidade; varar o pare (todo cruzamento do supermercado é pare); deixar crianças operarem o carrinho sem dar instruções claras; furto de carrinho alheio, tudo isso seria passível de punição. a punição? não, sei, não parei ainda para pensar muito sobre o assunto… mas talvez um carrinho mini, que mal cabe as duas mãos na barra de segurar, de cor diferente, uma cor bem berrante, com uma placa na frente e outras duas placas nas laterais escrito “curso de reciclagem”. talvez ele tenha um mecanismo de redução de velocidade. talvez eu tenha rabiscado um protótipo em algum lugar, deixa eu procurar.
dois carros parados
Quando eu estava aprendendo a dirigir me disseram “o perigo no trânsito não está na alta velocidade, mas nos carros parados”. 
Suspeito que essa frase carregava uma certa maldição. Eu tenho problemas com carros parados. A maioria das histórias de carro que tenho envolvem o carro parado como grande protagonista, nunca em alta velocidade.
Como por exemplo quando eu tinha 18 anos e ainda não dirigia. Estava no banco do passageiro do Corcel-83-queridinho-do-pai-do-meu-ex (atual à época), cheia de livros do cursinho no colo (saudosos Intocáveis do Objetivo), quando o carro dele travou em uma descida. Travou. Parado. Na saída do estacionamento.
Ele, acostumado com isso e sem dizer nada, desceu do carro pra “chacoalhar” o possante e “soltar” seja lá que rebimboca estivesse travando tudo. Problema que soltou mesmo. Lembra que era uma descida? O carro começou a ir na direção dele, que berrou assustado “O FREIO! O FREIO!” pra namorada desatenta cheia de livros no banco do passageiro. Essa namorada (nesse ponto da história recuso assumir que era eu) apavoradíssima num reflexo de pensar rápido pra não vivenciar um atropelamento tentou parar o carro EMPURRANDO O PEDAL DE FREIO COM A MÃO E SE APOIANDO NO VOLANTE. 
É, eu não sei se vocês visualizaram a cena, mas obviamente não deu nada certo. Era pra ela (eu) puxar o freio de mão, que tava ali do lado, mas sequer lembrava da existência dele. Não só não parou o carro como enfiei ele na parede da rampa do estacionamento amassando farol, lataria, porta e roda.
Vou pular a parte do inferno que foram as semanas seguintes nessa relação mas bem, o carro passou bem, foi levado ao funileiro que acabou por recuperar toda a lataria, pintou com aquele preto lindo, detalhes em dourado, CARRÃO. Ele ficou lindo. No dia que saiu da pintura estava um tempo bom, então deixaram parado na rua para secar bem aquele poderoso Corcel-83. Parecia carro de colecionador, estacionado ali na praça.
E neste mesmo dia, enquanto estava ali… parado… Foi roubado.
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Outro momento icônico foi quando, já anos mais tarde, fui dirigindo o carro de minha mãe até uma festa. Festa estranha com gente esquisita como toda festa deve ser, passei da linha de substâncias que alteram a percepção, e lá pras altas da madrugada resolvi ir embora.
Desci para rua acompanhada de um amigo uruguaio e entrei em completo desespero: o carro não estava mais onde eu havia parado. 
Subimos e descemos a rua, eu tremendo, ele falando rápido algo que parecia “el coche? Dónde está el coche?” E eu “NÃO SEI NÃO SEI”.
Assustada voltei na festa para ligar pra polícia. Reportei o furto, expliquei como era o carro, pedi que não avisassem minha mãe coitada e em seguida solicitei carona do meu namorado na época, um herói que foi ao meu resgate às 3:30 da madrugada.
Quando ele chegou eu estava já resignada, totalmente sóbria e sentada na calçada. Um casal de amigos esperava comigo e ele ofereceu dar carona pra eles também. Entramos os 3 no carro e comecei a contar o que houve choramingando enquanto ele dobrava a primeira esquina, no que meu amigo no banco de trás grita “AQUELE NAO É SEU CARRO?” 
“PARA! PARA! ENCOSTA!”
“PUTA QUE PARIU O CARRO!!”
“AAAAAAH!!”
“OLHA SE LEVARAM ALGO? O SOM TA AÍ? BATERIA?”
“TA INTEIRO!!!”
“ARROMBARAM?”
“…não arrombaram”
“Mas quebraram a porta? Fizeram ligação direta?”
“ele parece normal”
“Como pegaram então?”
“Eu… eu acho que estacionei aqui.”
Todos se olhando.
“A POLÍCIA TÁ VINDO, CORRE, VÃO ACHAR QUE FOI A GENTE”
Ao gritarem essa última frase a amiga que estava quieta no carona até então se debruçou na janela e vomitou uma garrafa inteira de catuaba nos nossos pés, enquanto entramos correndo em ambos carros e fugimos da polícia para não ter que explicar o vexame.
Carros parados são um perigo.
uma dica
Relatos Selvagens - Trailer Oficial (leg) [HD]
Relatos Selvagens - Trailer Oficial (leg) [HD]
O filme Relatos Selvagens (Damián Szifron, 2014) tem 6 histórias curtas. Duas delas são sobre trânsito. Eu poderia indicar as duas, mas eu lembro mesmo só de uma: Bombita. É sobre um homem que estaciona o carro em local proibido e tem seu carro guinchado. Acontece que no momento em que ele parou o carro não tinha sinalização nenhuma de proibido estacionar. A história inteira é ele tentando explicar isso para duzentos mil funcionários que lamentam mas não podem fazer nada. Falando assim, não parece muito divertido de assistir, mas é, e tem um final feliz, eu juro.
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paula gomes e mya pacioni

REFRESCOS é como uma coquinha gelada num dia quente. Pequenos textos como goles refrescantes na sua semana de caos.
Twitter: @myapacioni e @paulagomesn

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Curadoria cuidadosa de paula gomes e mya pacioni via Revue.