Quando foi que eu parei de escrever ficção?

Quando foi que eu parei de escrever ficção?
Por Arthur Freitas • Edição Nº25 • Ver na web
Esses dias um amigo meu veio comentar um post que eu escrevi lá no Pão no ano passado. Ele queria saber exatamente o que eu queria dizer no terceiro parágrafo, em que eu indico que eu tinha desistido de escrever ficção. Como assim, eu desisti de fazer filmes? Depois de passar quatro anos estudando sobre isso??
A resposta curta pra essa pergunta é sim. Eu não me vejo escrevendo ou fazendo filmes no futuro. Por um tempo essa realização foi uma espécie de fantasma, mas eu acho que quando eu escrevi o post no ano passado foi quando eu finalmente consegui me sentir em paz com ela.
Existem dois motivos principais para eu ter “desistido” de escrever ficção. A primeira é que, quando eu decidi que queria experimentar isso, eu tinha uma ideia de que eu tinha algo novo pra falar, um ponto de vista diferente que eu gostaria de ver em tela.
E eu tenho certeza de que isso não é verdade: de 2014 — quando eu comecei a investir nessa ideia de fato — pra cá eu me deparei com a obra de diretores como Kelly Reichardt e Andrew Haigh, que são diretores que contam o tipo de história que eu imaginava que eu queria contar. E eu também tive a sorte de cruzar meu caminho com o Leo, um amigão que tem um histórico semelhante ao meu, e ele tá usando uma voz única e maravilhosa para abordar alguns temas que eu sempre quis ver nos filmes. Eu amo como ele filma o confronto entre a cidade e o ambiente ao redor, e a voz única que ele têm é linda e precisa ser vista.
O segundo motivo, e o que eu tive que trabalhar mais para entender, é que eu confundi meus sentimentos em relação ao cinema, e até hoje tô lidando com as cicatrizes desse desentendimento. Eu sempre fui um espectador, e eu me considero um bom espectador. Mas em algum momento desde que eu comecei a mostrar um interesse maior pelos filmes e o momento que eu decidi fazer uma faculdade de cinema, eu comecei a confundir a minha capacidade de ver com a de fazer. E são coisas bem diferentes, e ser bom em um não é necessariamente um indicativo que eu vou ser bom no outro. Mais do que isso, em nenhum momento da minha experiência trabalhando com o cinema eu me senti tão feliz quanto como eu me sinto quando estou entrando em uma sala de cinema.
Demorou um tempo até eu organizar meu pensamento sobre isso. Por um tempo, nos últimos anos, eu achava que isso era sinal de fracasso — eu não consegui entrar num mercado, etc. —, mas com o tempo eu fui observando como meu pé atrás tinha sido plantado muito antes de começar a faculdade. No ensino médio, quando eu encontrei um grupo de pessoas que compartilhavam o mesmo interesse que eu por filmes, a gente montou um cineclube e começou a assistir filmes no auditório juntos. Com o tempo, grande parte desse grupo começou a mostrar interesse em fazer curtas, e o cineclube foi lentamente se transformando em uma pequena produção de um curta. No fim das contas, o cineclube acabou morrendo por um tempo, até que eu e outros antigos membros que não tinham muito interesse de fazer os curtas voltamos a nos reunir no auditório e a assistir filmes e conversar sobre eles de novo.
De um jeito ou de outro, isso aconteceu na faculdade também. Meu interesse maior foi em entender como a gente senta e pensa naquilo que a gente assistiu, qual o nosso ímpeto em interpretar as coisas na nossa cabeça. Foi quando eu comecei a olhar pro Pão — um fruto daquele cineclube lá atrás — com mais carinho de novo. Esse sempre foi o espaço que eu gostava de vir para comentar algo que eu tinha assistido ou lido, porque essa é a forma que eu me relaciono com a arte. A de sentar, seja na frente do editor de texto que eu uso pra escrever os posts, seja ao lado dos meus amigos tomando café, e de discutir e pensar e me divertir enquanto tento interpretar a cultura que tá ao nosso redor. Foi um processo longo até chegar aqui e, e as vezes foi triste. Mas hoje é especial como aquela paz que a gente sente quando termina um bom livro, ou de ouvir um novo disco favorito: a gente se sente compreendido e a gente sente que compreendeu um pouco do mundo.
Dá uma paz saber que eu encontrei esse lugarzinho pra mim, e que eu finalmente entendi o quanto ele é especial.

“Guildlings” (Sirvo Studios)
“Guildlings” (Sirvo Studios)
Minha dieta cultural nas últimas semanas
Eu continuo vendo Barry (1ª temporada, HBO) e The Americans (4ª temporada, Prime Video) e terminei de ver Snoopy e Sua Turma (1ª temporada, Apple). Eu nunca vi tão poucas séries quanto nesse último mês, e não sei o que assistir. Tem tanta série por aí que anda difícil de encontrar aquelas que são especiais.
Eu voltei a jogar Burnout Paradise (Switch) depois do trabalho. É muito bom! Eu amo jogos de corrida nesse estilo arcade, que é mais dedicado à sensação de velocidade do que pela simulação do veículo em si. Eu também tô jogando Guildlings (Apple Arcade), um RPG de conversas. Eu também tô seguindo minhas rotinas em New Leaf (3DS) e New Horizons (Switch), o que eu acho que nunca vai acabar.
E eu terminei todos os filmes indicados a Melhor Filme no Oscar esse ano, vamos pro meu ranking:
  1. Minari
  2. Meu Pai
  3. O Som do Silêncio
  4. Nomadland
  5. Judas e o Messias Negro
  6. Mank
  7. Bela Vingança
  8. Os 7 de Chicago
Eu também continuo tentando vencer minha watchlist, o que nunca vai acontecer mas é a esperança que nos leva nessa vida! Eu finalmente vi A Malvada (All About Eve, perfeito), o Godzilla original (uma obra-prima), Alien: A Ressurreição (Alien Ressurection, uma bosta). Eu loguei a maioria no meu Letterboxd.
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Arthur Freitas
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