O que muda na forma em que eu aprecio a arte

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O que muda na forma em que eu aprecio a arte
Por Arthur Freitas • Edição Nº24 • Ver na web
Antes de começar, me desculpem pela brevidade do último email. Eu não estava muito bem dentro da minha própria cabeça.
Um dos traços do envelhecimento que eu estou aprendendo a sentir ultimamente é o de que, conforme a gente segue a nossa vida, a nossa vida vai se especificando. Vai ficando mais e mais difícil de ver a minha vida sob os olhos da arte ou de algum princípio, porque conforme minha vida vai passando ela vai se tornando mais específica. Os rumos que ela toma são mais únicos, as formas que eu aprendo a reagir à esses rumos também.
Uma dessas coisas que eu nunca imaginei que ia me impactar, e que eu nunca vi em nenhuma obra de arte ou em um texto até hoje, e que me pegou de surpresa quando eu percebi que tava me afetando: a vizinhança na qual eu cresci tá mudando. Eu tô deixando de conhecer meus vizinhos, as casas tão deixando de ser aquelas que eu conheço desde que eu nasci, a geografia do lugar que eu conheço desde sempre não é mais a mesma.
É um sentimento poderoso e importante, mas é extremamente específico. Não é algo que eu aprendo a lidar com um filme ou um livro que menciona isso, porque nem todo o mundo pode crescer e viver em um lugar por tanto tempo como eu pude.
Uma vez uma professora da pré-escola nos disse um lance que eu nunca esqueci, e que eu acredito até hoje: absolutamente tudo o que tu imaginar, alguém deve estar fazendo nesse exato momento. O mundo é grande demais, e as pessoas vivem vidas específicas demais. Alguém nesse mundo tá esperando a água do café esquentar pra poder aguentar mais um dia. Alguém tá pensando em pular na frente de um trem.
A gente cresce e a vida começa a nos impedir de ficar pensando nessas coisas, mas elas continuam acontecendo mesmo quando a gente não pensa. A gente para de pensar porque a gente gradualmente se transforma em uma delas.
Uma dessas vidas específicas, que ninguém tem igual, mas que todo o mundo consegue entender um pouco. É um emaranhado gigante, e nos melhores dias eu acho ele lindo.
Eu acho que meu afastamento da cultura nos últimos dois anos se deu por isso. Eu gostava de ver filmes como pequenas miniaturas da existência, que traduziam nossa existência ali na nossa frente, em poucas horas.
Observando os filmes que eu mais gostei nesses últimos tempos, e dos livros que eu gostei de ler (e que meu amigo Leo me ajudou a encontrar), eu comecei a perceber: é limitador demais pensar na cultura — e nos nossos ideais — como resumos da humanidade. Eles parecem ser muito melhores como recortes da existência. É ingênuo pensar que algo resolve todos os problemas, ou que algo resume a existência, porque isso nos faz olhar apenas para o geral.
Mas o que é bonito na nossa vida é aquilo que é específico, aquilo que é único e que a gente gosta de compartilhar com o outro: de ouvir o que só a outra pessoa pode experimentar, e de falar o que só nós conseguimos sentir. Acho que é aí que se cria a conexão com a arte — e com as pessoas — que eu perdi com o passar do tempo.

Amor à Flor da Pele, de Wong Kar Wai.
Amor à Flor da Pele, de Wong Kar Wai.
Minha dieta cultural nas últimas semanas
Eu parei de assistir The Leftovers (HBO). Eu estava indo para o meu episódio favorito da série (2x06: “Lens”), mas os motivos são os mesmos que eu escrevi ano passado. Essa é uma série definitivamente esperançosa, mas eu não sei se eu consigo sentir essa esperança agora. Eu espero que, no futuro, eu volte pra ela e sinta o caos que ela exibe sem me afetar tanto. Se você precisa se sentir esperançoso, eu não poderia recomendar uma série melhor.
Eu não lembro se falei nas últimas edições da newsletter, mas eu estou adorando Peanuts e Sua Turma (Apple). Eu assisto de um jeito bem específico: durante o meu almoço, no meu computador. Cada episódio tem vinte e tantos minutos, mas é dividido em três historinhas curtinhas. Eu assisto uma delas, porque é exatamente o tempo em que eu como minha cumbuca de arroz e feijão diária. É charmosa e captura o espírito das tirinhas que têm o Snoopy como protagonista muito bem: ele é sonhador, e inconsequente, e as vezes um pouco chato. É exatamente o que eu amo em meus cachorros.
Eu voltei a assistir The Americans (Amazon) semanalmente. Eu adoraria dizer que é porque essa é a melhor forma de assistir a série (e é!!), mas na verdade foi porque eu precisava estudar muito para o trabalho nas últimas semanas e o tempo para maratonar a quarta temporada, a minha favorita, foi pouco. Eu assisti por último o episódio com o salto temporal, o meu episódio favorito da série, e eu preciso arranjar um jeito de falar de The Americans lá no blog. por favor, me ajudem.
Eu comecei a ver Barry (HBO) de novo! Eu tinha começado a ver essa série quando ela estreou em 2017/2018, e lembro ter adorado, mas algo me fez perder alguns episódios e eu nunca fiz questão de voltar. É ótima: uma dramédia sobre um assassino de aluguel que quer largar o emprego para ser ator. É um charme, e eu tava precisando de uma série nova e charmosa assim.
Eu voltei a ler Exhalation (Ted Chiang). Dessa vez vou até o fim. Eu terminei o conto gigante sobre animais em uma espécie de Second Life que tem num futuro não muito distante. É um ótimo conto, mas é gigante, e eu não tô na mentalidade pra ler um romance ainda, mas o próximo conto tem vinte e poucas páginas, então tá melhor.
Eu ando jogando apenas Animal Crossing: New Horizons e Ring Fit Adventure (ambos pro Switch). Eu queria começar a jogar Kentucky Route Zero no videogame de novo, mas eu sempre acho esse jogo conceitualmente perfeito pra jogar no computador, então quem sabe eu jogo quando voltar pra casa na semana que vem? Eu também quero jogar jogos novos! Não quero nada muito grande, mas se você conhece uns indies legais, me dá um grito. Se eu não encontrar um, talvez volte a jogar Spore, como sempre.
Meu plano pra esse ano é finalmente assistir filmes da minha watchlist do Letterboxd, uma lista que eu fui alimentando desde 2013 e nunca fiz um esforço de realmente assistir os filmes que eu colocava lá. Agora não mais! Eu vi Amor à Flor da Pele e Asas do Desejo (ambos no MUBI), filmes que todo o mundo considera como alguns dos melhores filmes já feitos. Eles realmente são.
Eu também vi Nunca, Raramente, As Vezes, Sempre (Telecine) e é belíssimo. E um dos filmes que inspirou a introdução de hoje.
Nessa última semana eu me dediquei ao MonsterVerse, algo que definitivamente existe. Eu vi Godzilla vs. Kong (no Popcorn Time), e é bem divertido! Mas me fez querer rever os filmes anteriores. Eu fui burro e não chequei Godzilla de 2014, mas tá na Netflix e vou ver hoje de noite, mas vi Godzilla 2: Rei dos Monstros na HBO. O novo filme meio que me fez gostar mais do 2, pra falar a real. Tá aí algo que eu nunca imaginei que ia acontecer.
P.S.: o Godzilla original tá na minha watchlist desde sempre. Eu espero ver ele essa semana também!
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Arthur Freitas
Por Arthur Freitas

Um textinho logo de manhã.
Links legais e leituras bacanas.
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