O que assistir no inverno

O que assistir no inverno
Por Arthur Freitas • Edição Nº28 • Ver na web
Obrigado a todos por me ajudarem a definir o novo rumo para A Baguete. A partir dessa edição, a newsletter assume um novo formato: sugestões temáticas escolhidas pelos leitores (e a clássica dieta cultural das últimas semanas). Para começar, boas dicas do que assistir no inverno.
Eu tenho dois modos no inverno: em um, eu gosto de curtir coisas que me deixem confortável, aproveitando que choveu no sábado pra ficar abafado na cama; em outro, eu gosto de curtir o frio, de botar uma cadeira na sacada na quinta-feira de manhã enquanto tomo um café.
Isso é fruto de que minhas memórias mais queridas aconteceram em dias e noites frias, e a sensação de frio — ou de estar quentinho no meio do frio — me faz lembrar desses momentos e de criar momentos assim. Então é normal que alguns dos meus filmes e séries favoritos satisfaçam esses dois modos.
Eu maratono algumas séries todos os anos. The Wire, Community, Hannibal. Mas nenhuma série é mais perfeita pra assistir no inverno e te deixar confortável do que Gilmore Girls (Netflix). Stars Hollow, cidade em que as protagonistas Lorelai e Rory Gilmore moram, é um desses vilarejos bucólicos cheios de personalidades estranhas, mas muito acolhedoras. No meio da temporada você já conhece todos os vizinhos de cor, e é um prazer ir visitar Stars Hollow de vez em quando. Ajuda que a série, que narra a saga de uma mãe e filha extremamente diferentes mas que se amam demais por anos a fio, é fenomenal e até hoje me impressiona em como desenvolve dinâmicas familiares profundas e complexas.
Agora, quando eu quero sentir frio, eu lembro de um dos meus momentos favoritos. Era 2010, e eu ia no cinema pela primeira vez com uma pessoa que acabou se transformando no meu melhor amigo. A gente combinou de ir assistir O Profeta (HBO), que só tinha uma seção às 21h. Tava um frio do cão. E O Profeta é o filme mais frio que eu já vi. Se passa em (alguns) invernos pesados, em uma prisão onde o frio quase um fantasma, gelando as celas onde os personagens passam grande parte do filme. É uma excelente jornada de sobrevivência de Malik, um jovem de 19 anos que é sentenciado a seis anos em uma prisão no meio de um confronto entre duas corporações mafiosas, mas é de se assistir e sentir a espinha gelar.
E tem aqueles que fazem os dois ao mesmo tempo. Esses são meus favoritos. Desde o primeiro segundo de Certas Mulheres (iTunes), um dos meus filmes favoritos dos últimos anos, você sabe que a pequena cidade onde se passa a história é fria. É onde três mulheres passam seus dias. Suas histórias não se cruzam, mas a vida delas está sob o mesmo céu cinzento e o chão nevado de Montana, e mesmo não se conhecendo elas compartilham uma experiência de vida única. Você sente o frio que elas sentem quando saem para trabalhar ou precisam esperar o banco abrir. Mas você também sente como o quarto é confortável no final do dia, ou como o café da sala de espera é simplesmente perfeito.
Também tem aquilo que eu experimentei quando eu caía de febre. Eu lembro que eu completei Half-Life 2: Episode Two (Steam) em um final de semana que eu não conseguia dormir de tanta febre, mas também tava morto de sono. O jogo se passa em uma floresta no meio do outono, e minhas memórias dele são meio doidas por causa do meu estado alterado. Mesmo assim, acho que ele acerta em cheio naquela sensação que é você sentir a serração levantar numa manhã de inverno, o ar gelado fazendo você sentir sua pele esquentar pra te proteger. É mágico.
Espero que tenham gostado dessa primeira nova Baguete! Se sim, respondam essa edição ou mandem uma mensagem pra mesa@paomortadela.com.br com sugestões pros próximos temas. Até a próxima!

The Underground Railroad (Prime Video)
The Underground Railroad (Prime Video)
Minha dieta cultural nas últimas semanas
Se minha dieta cultural possui pratos principais, o das últimas semanas com certeza foi a minissérie The Underground Railroad (Prime Video), um épico do diretor Barry Jenkins — o diretor de Sob a Luz do Luar e Se A Rua Beale Falasse. Com dez episódios, que vão de 20 a 70 minutos, a minissérie conta a jornada de Cora, que foge de foge de uma plantação do sul dos Estados Unidos por uma rota subterrânea. As linhas de fuga de escravos do sul dos EUA é real, mas na minissérie o “trilho subterrâneo” é uma via férrea, com paradas e maquinistas. A cada parada, Cora nos leva a um novo ponto dos EUA, e a série nos mostra como escravidão não é passado nem cicatriz.
É uma minissérie monumental, e alguns episódios são especialmente difíceis de assistir (se você conseguir assistir o primeiro, que é de longe o mais violento, vai ter passado pelo pior), mas diferente de outras narrativas sobre a escravidão americana, Jenkins não filma os escravos como criaturas submissas à violência, mas como seres humanos que vivem, amam, sofrem. Como Small Axe no ano passado, essa é um clássico instantâneo. Nunca foi feito algo como The Underground Railroad, e eu não sei se um dia algo assim vai ser feito novamente.
De resto, eu continuo avançando pouco à pouco em Paper Mario (N64, no Virtual Console do Wii). Eu amo o texto desse jogo — é divertidíssimo e cheio de segundas intenções. A Nintendo não faz mais tantos jogos palavreados como esse, mas é bom ver a equipe do Treehouse em ação.
Eu estou no meio da quinta temporada de The Americans (Prime Video), e todas as minhas lembranças de que essa é uma temporada menor são mentira. Ela realmente parou de crescer (a escadinha de qualidade e tensão da segunda à quarta temporada são inigualáveis na TV pra mim), mas atingiu um patamar incrível em que a narrativa se estende: a tensão é tão insuportável que os protagonistas sofrem de viver dentro dela. É realmente incrível.
Além de The Americans, eu continuo assistindo a segunda temporada de Barry e a minissérie Mare of Easttown (ambas da HBO), que são excelentes.
Eu aproveitei pra rever a Trilogia Matrix (em blu-ray, mas está disponível no Netflix). A minha lembrança era de que o primeiro filme era muito bom, e os outros dois eram uma bobagem. Eu estava completamente enganado. O primeiro filme é incrível, mas Matrix Reloaded e Matrix Revolutions são igualmente fantásticos, e são pequenos milagres no cinema blockbuster americano que realmente fazem a mensagem — de que amor e união são as únicas coisas capazes de vencer a destruição e o cinismo sistêmico da sociedade — ressoar.
São excelentes filmes de ação, mas também são grandes filmes queer sobre a experiência trans, em que as pessoas assumem suas verdadeiras identidades no mundo virtual, e o confronto existencial quando elas decidem assumir essas identidades fora dele, tanto interno quanto externo. O primeiro Matrix é um clássico por trazer essa questão existencial tão forte no personagem Neo, mas são suas continuações que sugerem que para vivermos em uma comunidade é necessário uma revolução contra o sistema. É incrível.
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Arthur Freitas
Por Arthur Freitas

Um textinho logo de manhã.
Links legais e leituras bacanas.
Um sábado sim, um sábado não.

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