A perenidade da internet

A perenidade da internet
Por Arthur Freitas • Edição Nº26 • Ver na web
Tem um ditado na internet que é algo como “a melhor época pra criar um blog foi há vinte anos, a segunda melhor época é agora”. Eu amo ele.
Quando eu e meus amigos criamos o Pão, a gente tinha um plano ambicioso pra ele. A gente ia escrever todos os dias nele, a gente ia fazer reviews dos filmes mais novos, das séries mais legais, estaríamos estar na frente da conversa.
Isso nunca aconteceu. Ou melhor, não aconteceu da maneira planejada. O formato de blog se impõe na internet, mas diferente das redes sociais, ele se impõe e se revela devagar, gradualmente. Quando você menos espera, você está colhendo os frutos do seu trabalho, mas você nem percebeu que tinha plantado algo em primeiro lugar.
Eu nunca consegui atualizar o Pão todos os dias, nem nunca consegui “estar à frente da conversa”. Tinha uma época que eu tentava, eu ia ver filmes na estreia e fazia reviews no mesmo dia sobre eles.
Olhando hoje, esses são os posts mais mal escritos de todos. Não porque eu estava iniciando nessa história (eu não estava), e sim porque são posts que só funcionavam por um dia. Hoje eles estão completamente defasados. Uma boa crítica sobrevive a época de lançamento de um filme e vira uma referência para a sua recepção. Eu não sou um bom crítico de arte — requer muita leitura e muita referência histórica e cultural pra isso.
Mas eu me considero um bom observador. E, pra isso, o formato de blog é ideal: você pode fazer longas ruminações sobre o seu cotidiano ou uma observação passageira sobre alguma descoberta, e nenhum dos dois casos vai parecer fora de lugar em um blog. Embora ele seja escrito de maneira cronológica e esteja “preso” ao tempo de publicação de seus posts, seu significado muda conforme ele vai envelhecendo e vai se complementando com outros posts através das tags. É o formato perfeito da internet.
Quando o Pão começou, a gente queria que ele fosse um lugar para você descobrir coisas boas. Essa era a nossa voz adolescente, que achava que sabia o que era bom™ e tinha autoridade para falar. Esses posts? Eles morrem cedo, até pra mim. Eu não sei o que faz Uma Aventura LEGO ser bom™, e não sabia em 2014. Eu sei o que eu gosto nesse filme, e o que ele me faz sentir. E sobre isso, eu sei escrever. Em 2014, quando a gente tava começando, eu achava que isso não era suficiente. Mas isso é tudo o que você precisa para começar um blog.
Eu digo isso agora porque o Pão, com seus oito (!!) aninhos de idade, já tem uma certa movimentação. Eu não rastreio visitas, mas eu recebo um relatório do meu servidor sobre o número geral de acessos e buscas no fim do mês, e os posts de 2013 e 2014 nunca são os mais acessados. Não, são posts como esse e esse ou esse, sobre coisas que eu estou sentindo no momento, que sobrevivem e sempre estão sendo acessados pelas pessoas.
O formato de blog é esse belo paradoxo, ele é invariavelmente relacionado ao momento em que você está escrevendo ele, mas ele se transforma em algo “perene” com a passagem do tempo: nem todo o mundo sente tudo no mesmo tempo que você. Ou melhor, todo o mundo sente coisas diferentes em momentos diferentes da vida, e se você escreve sobre elas as pessoas vão encontrar o que você escreveu sempre. Sempre tem alguém triste ou feliz, ou cansado ou com dúvida. E o que você escreveu sobre o momento em que você estava sentindo isso pode servir como um ponto de referência.
Quando eu percebi que era isso que o Pão estava se transformando, eu lutei um pouco contra. Mas com o passar do tempo eu acabei aceitando, e eu acho que eu nunca escrevi tão bem (eu ainda preciso melhorar muito, mas ei!). Eu demorei pra aceitar que essa era a minha voz e esse era o meu formato, mesmo ele se impondo na minha frente.
O Pão “só” tem oito anos, fico curioso pra saber como ele vai estar quando tiver vinte.

Ted Lasso (Apple TV)
Ted Lasso (Apple TV)
Minha dieta cultural nas últimas semanas
Eu não vi muitos filmes nas últimas semanas. Eu vi pela primeira vez Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos (Telecine) e Velocidade Máxima (Telecine também). Gostei muito dos dois! Mulheres… talvez seja o meu segundo filme favorito do Almodóvar (o meu favorito continua sendo Volver).
Mas eu tô jogando várias coisas: eu continuo jogando Paper Mario: The Origami King (Switch), que é um jogo fantástico. Não é tão RPG quanto os clássicos do N64 e do GameCube, mas é muito bem humorado (e muitíssimo bem escrito). Eu comecei a jogar Mother 3 (GBA no Virtual Console do 3DS), a continuação de EarthBound que nunca saiu do Japão. Eu tô bem no comecinho (e o jogo é gigante), então ainda não sei muito como ele é, mas tô adorando a escrita também. Eu continuo visitando a minha ilha de Animal Crossing: New Horizons (Switch) e minha vila de New Leaf (3DS) quase diariamente. Hoje é dia do trabalhador, então tenho eventos pra comparecer por lá. Eu tô jogando mais um jogo no Apple Arcade, mas eu esqueci qual é e o celular tá longe.
Eu cheguei no final da quarta temporada de The Americans (Prime Video), e essa série não consegue parar de ficar ainda melhor. Minha memória da quinta temporada não é tão boa (ela ainda é uma das melhores coisas da TV, mas não é tão perfeita quanto as três temporadas anteriores), vamos ver como vai ser a revisão. Eu vou começar a segunda temporada de Berry (HBO) nesse domingo e estou muito empolgado! Eu não sei porque eu parei de assistir ela quando ela tava dando na TV, porque eu caí de amores por essa série de novo. Eu tô revendo Ted Lasso (Apple TV) durante meu horário de almoço e é tudo de bom. Eu passo todos os episódios com um sorriso no rosto, como é bom ver uma série que te conforta sem te sufocar em fofura. Com o fim da segunda temporada de For All Mankind (Apple TV) na semana passada (a melhor temporada do ano por enquanto), eu achei que ia ficar sem séries pra acompanhar semanalmente. Me enganei: já tô gamado em Mare of Easttown (HBO), a nova minissérie de suspense com a Kate Winslet.
Eu tô lendo Ask Iwata, o livro em que o lendário presidente da Nintendo, Satoru Iwata, recontou sua carreira. Iwata era uma pessoa fantástica, e seu livro tem muito da sua humildade e inteligência. É a primeira vez que eu leio um livro desse estilo (não-ficção e auto-bibliográfico), então tá sendo bem interessante. Eu acho que não ia gostar se o estilo de escrita do autor fosse mais rebuscado, mas Iwata escrevia de uma forma bem simples e direta, mas com um tom bem divertido. Condiz muito com o que ele fez durante a vida.
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Arthur Freitas
Por Arthur Freitas

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Links legais e leituras bacanas.
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Curadoria cuidadosa de Arthur Freitas via Revue.