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[OutraCozinha #41] Saborear o processo

[OutraCozinha #41] Saborear o processo
Por Carla Soares • Edição Nº1 • Ver na web

Minha máquina de costura foi uma coisa herdada, e que eu não tinha a menor expectativa de que um dia fosse acontecer. Era uma dessas máquinas antigas, pesadas, toda de ferro, que vem presa a uma mesinha de madeira, com um pedal que você tem continuamente que ficar virando pra frente e pra trás se quiser que a agulha da máquina suba e desça.
Quando chegou até mim, já tinha uma adaptação feita pra que ela tivesse um pedal motorizado em vez desse manual da mesa, mas ela era uma máquina muito básica. Como outras máquinas desse tempo, não faz zigzag ou overloque, que é esse tipo de ponto nas bordas que impedem o tecido de desfiar, e facilitam na hora de fazer acabamento. E não acompanhava nenhum pezinho além daquele que faz costura reta.
A verdade é que ela ser assim mais simples, pra mim, não fazia muita diferença. Apesar de admirar muito o trabalho têxtil e ter um bom interesse por manualidades, eu não sabia como costurar à máquina.
Comecei gastando um tempo enorme tentando desvendar como se passava a linha pelas várias roldanas e buracos, num manualzinho original bastante surrado que estava perdido numa das gavetinhas da mesa. Era tão velho que eu tinha também que decifrar o jeito estranho como ele explicava as coisas: “A justa tensão das linhas, superior e inferior, é de máxima importância”. Carreguei a carretilha, fiz o fio romper algumas vezes com a tensão errada, até que conseguisse ficar pronta pra costurar.
Costurar, ao contrário do que se possa esperar, não começa com você tentando fazer uma peça. Antes de tudo, você precisa arrumar uma diversidade de retalhos aleatórios pra jogar debaixo da agulha e aprender como fazer pra controlar a cadência do pedal do motor e manter uma linha reta no tecido. Fiz isso por dias, é mais difícil do que parece. Foi só depois que comecei a inventar pequenos projetos simples.
Já tinha alguma experiência - inclusive a de costurar uma cortina - quando resolvi fazer uma bolsa pra guardar um deque de Tarô. Eu tinha um comprado e isso a princípio pareceu ser útil porque poderia observar ele como um modelo e fazer algo parecido. Mas a minha máquina não tinha os recursos de acabamento que essa bolsa usava. O problema era que sem poder fazer um overloque nas bordas as emendas iam ficar aparentes dentro da bolsa. E isso não era interessante porque você sempre ia tirar o tarô e ver um acabamento mal feito na parte interna. Também não queria criar um forro, queria que ele tivesse uma única camada e ainda assim pudesse ter um acabamento decente. Então em pouco tempo entendi que precisava mesmo era criar um jeito de fazer algo próprio.
Fiquei um bom tempo pensando em como fazer uma bolsa bem acabada. Fiz alguns protótipos tentando usar viés e outros tipos de acabamento, mas nada que eu gostasse muito. Estava achando que nem tinha solução, até me dar conta de que um dia realmente não existiram máquinas que faziam overloque e as pessoas realmente costuravam só com o que estava na minha frente. O que eu precisava era pensar como uma pessoa daquela época.
Foi então que me lembrei de três livros de costura que também tinha herdado. Eram livros antigos que falavam sobre diversas técnicas têxteis, e lá acabei encontrando uma forma de fazer exatamente o que eu queria usando dobras.
Costurei, e depois fiz um acabamento de crochê por fora unindo 22 pequenas mandalas rendadas como os 22 arcanos do tarô. Fiquei realmente feliz com o que eu tinha produzido. Não era algo muito convencional, mas eu tinha encontrado soluções interessantes pra fazer o que queria. Resolvi então mostrar o resultado, e especialmente, sentia vontade de mostrar a solução, encantada de como eu tinha realmente encontrado um caminho.
A primeira pessoa que viu riu um pouco enquanto eu mostrava e explicava o malabarismo de fazer o acabamento e o número de moldes e protótipos anteriores até achar o jeito dessa solução. Ela me disse depois de ver tudo aquilo que já que estava gostando de costurar eu precisava comprar logo uma máquina direito pra fazer o trem certo em vez de ficar pensando em gambiarras.
Mas a segunda pessoa que viu me disse algo que nunca vou conseguir esquecer. Não porque ela tivesse sido generosa em elogiar o meu trabalho – ela na verdade nem parecia muito preocupada em me dizer que aquilo era bom –, mas porque me disse que era encantador ver que como eu descobria outros jeitos de fazer as coisas, qualquer coisa. Que aquela era a minha arte.
Prato Principal
Pra algumas pessoas fazer uma bolsa bonita e usável, de um jeito rápido, é a melhor parte de ter uma máquina de costura. Mas talvez pra mim a graça esteja em fazer outras coisas, como resgatar formas perdidas de costurar. Isso me diverte, e fiquei genuinamente investida em achar um caminho pra criar. Essa pessoa conseguiu perceber exatamente sobre o que aquela bolsinha se tratava.
Fiquei pensando muito sobre o que ela me disse porque achei que aquilo iluminava uma coisa sobre mim que nem eu mesma estava consciente. Não tinha percebido como faço isso em várias outras coisas que crio. Faço o mesmo tipo de movimento quando observo alguma coisa cotidiana, como essa ideia de “direto de produtor” que aparece em tantos lugares nos grandes centros sem significar absolutamente nada, e que tem me assombrado ultimamente. E então transformo a ideia num pequeno ensaio. Quando escrevo sobre o que observo é pra tentar cultivar meu próprio olhar. Também faço a mesma coisa quando desejo entender como cada elemento do pão de queijo age, pra então poder criar minha própria receita. Ou ainda quando tento inventar uma forma de fazer sabão, que me faz sentir que posso criar coisas em vez de ficar só comprando o que existe, e posso compartilhar esse sentimento de me sentir capaz mesmo num mundo em que cada vez mais isso é dificultado pela falta de tempo e pela falta de espaço. Mas não é fácil se dar conta do que exatamente une essas coisas tão diferentes que estou sempre tentando criar.
A artista plástica Louise Bourgeois gostava de dizer que pra que as pessoas possam entender sobre o que é mesmo que a gente está falando, a gente precisa fazer muitas e muitas vezes a mesma coisa. Criar não é exatamente ter um monte de ideias e fazer um monte de coisas diferentes. Também pode ser dizer de vários jeitos uma mesma coisa.
Bourgeois é conhecida pela repetição de temas ao longo da sua vida, e também pelas muitas esculturas gigantescas onde ela retratava aranhas. As aranhas apareceram pela primeira vez no seu trabalho em um desenho que ela fez 1946, mas foi só depois de 1990, quando Louise já tinha mais de 70 anos, que essas esculturas icônicas, que hoje estão espalhadas em vários museus pelo mundo, começaram a ser criadas. A arte de Louise não só é cheia de temas repetitivos, como ela também fazia e muitas vezes destruía esses objetos porque pra ela importava menos o que era feito e sim o fazer – que incluia também o desfazer e o refazer. Essas coisas que Louise criava falavam sobre a sua vida, sobre as coisas que ela tinha experimentado e como ela continuava as experimentando ao longo do tempo, e as emoções que essas coisas causavam nela, que frequentemente ela achava desproporcionais pro seu tamanho.
Estar na frente de uma dessas esculturas de aranha gigantescas com mais de 9m de altura que Louise criou deve ser algo assustador. Pra muita gente a aranha é uma coisa ameaçadora, que a gente aprende a temer e ficar longe com medo de ser picado. Mas como acontece com quase qualquer obra que retrate uma coisa horrorosa, o pavor experimentado tem uma função: elas permitem que a gente se aproxime dos nossos medos de um jeito seguro. Estar diante de uma aranha assim tão ampliada é um jeito de prestar atenção em detalhes do que a gente sente quando está perto de uma.
Talvez por isso a aranha pra Bourgeois não seja somente ameaçadora: a aranha também é uma habilidosa protetora. Ao tecer uma teia, ela nos resguarda de outros insetos indesejados, que ficam presos na sua rede. Com a sua inteligência, a aranha pacientemente constrói algo delicado. Ela é uma tecelã – como também era a mãe de Bourgeois, que trabalhou com restauro de tapeçaria. A aranha, pra ela, é esse misto de segurança e perigo, que ela reconhecia na própria maternagem recebida.
Louise demorou muito pra alcançar algum tipo de reconhecimento. Em parte porque Louise era uma mulher. Mas também foi assim porque era difícil pra algumas pessoas reconhecerem que o que ela estava criando com um monte de objetos cotidianos e confessionais era arte – esse não era o tipo de trabalho valorizado naquela época. Os materiais e a destreza pra criar um objeto nunca eram o foco do que ela fazia: “Tudo que eu faço não tem nada a ver com habilidade, não tem nada a ver com ser capaz de manejar bem materiais. Materiais não são o objeto do artista. O objeto do artista são emoções e ideias”, conta Louise.
Ainda que existam outras formas de representações artísticas, nossas criações, das mais ordinárias às mais complexas, estão sempre dizendo da forma como nós vivemos e das coisas que experimentamos. Mas essa clareza pessoal sobre o que estamos tentando comunicar, mostrar ou restabelecer não é instantanea: só vem depois de nós mesmos fazermos e observamos muitas vezes as nossas próprias criações.
Nas coisas que fazemos no nosso cotidiano há várias oportunidades pra reconhecermos o que nos faz criar. Aliás, é por isso também que gosto tanto de olhar pra comida e pras relações que estabelecemos com ela. Comer é algo que vai ser necessário e repetido inúmeras vezes pela vida afora. Essa constância e o fato de que ela é uma experiência comum que dividimos faz com que o comer seja algo extraordinário pra produzir insights sobre nossas vivências. Ela ajuda a perceber certas coisas que só a repetição nos consegue fazer ver.
Apesar de às vezes ser frustrante, não fico muito preocupada que fazer e investigar sobre a minha relação com a comida não seja visto como uma coisa especial que ultrapassa o ordinário – e na verdade muitos terão dificuldade em reconhecer algo nisso que eu faço como realmente artístico. Eu só preciso fazer. Preciso procurar outras formas de me relacionar com a comida porque é uma forma de encarar minhas próprias dificuldades que estão amarradas em coisas muito pessoais mas que também são dores de humanidade compartilhada.
Enxergar o que é feito além da costura malabarística feita com uma máquina antiga, das aranhas gigantes ou da forma como estamos cozinhando e comendo exige um pouco de sensibilidade. Mas isso não é algo reservado às pessoas sensíveis, que são capazes de perceber coisas não ditas a partir daquilo que se apresenta. Enxergar o que está sendo feito pede mesmo é que a gente desmonte um pouco essa lógica em que importa mais o que é produzido do que o momento da produção. Criar não é aprender a fazer a coisa mais bonita ou perfeita, e sim aprender a saborear o processo. E principalmente, criar é fazer, e seguir fazendo.
Sobremesa
Pra continuar a conversa sobre repetição e processo, a edição Comece pelo corpo, da newsletter da Luisa Gonçalves é uma boa pedida. Luísa partiu de uma observação sobre gêmeos, uma figura repetida, pra pensar como diferenças são cultivadas a partir da experimentação de diferentes corpos nas cidades. Ela escreve sobre algumas coisas que observou a partir da leitura de Cidade Feminista, livro de Leslie Kern sobre como os espaços urbanos são pensados por e para homens. As nossas experiências corporais, no entanto - como ser mulher, ter ou não uma deficiência, ser branco ou negro - são experimentados de uma maneira muito marcada numa cidade. Quais são os caminhos que essas marcas nos fazem tomar?
O texto Inventando o fim de semana, traduzido e publicado pela revista Jacobin Brasil, discute como foi construído esse formato estruturado que a gente conhece como tempo de trabalho e tempo de lazer, que é diferente de não fazer nada. O ociosidade nesse modelo é visto como um tempo perdido, e portanto, um tempo que não é muito bem visto. A diversão passou por um processo de racionalização em que pra ser válido é preciso ver propósito ou cultivo de si - uma trajetória cultural tão bem formatada que impacta até na pré-definição de formatos aceitáveis, como uma música ter cerca de três minutos ou um programa de TV durar meia hora. Muito válido pra pensar e reconhecer em nós mesmos como incorporamos essa ideia de que fazer por fazer, sem muito propósito ou entendimento prévio do que está sendo feito é constantemente desestimulado e visto como inútil ou nocivo.
A edição Epistemologia preta, da newsletter da Flavia Schiochet traz uma entrevista com Lourence Alvez, historiadora, gastrônoma e doutora em nutrição. Lourence tem trazido uma leitura interdisciplinar, construída a partir de “teóricos pretos, de epistemologia preta”, e crítica aos cânones, para onde ela olha com sobriedade. Na entrevista, ela fala sobre o reconhecimento de saberes que fogem de uma visão eurocêntrica. Essa valorização de quintais, de uma proximidade com a terra que a hoje a gente chama de farm to table, e o reconhecimento de plantas autóctones (originais do Brasil) sempre foram práticas da afrobrasilidade: “A gente sempre foi colocado pela literatura canônica como quem faz, mas pra saber fazer, precisa ter conhecimento de como fazer, como continuar fazendo e como transmitir esse conhecimento.
Valorizar o processo e não somente o resultado. Foi pensando nisso que montei três oficinas online sobre o fazer na cozinha:
Na oficina de Fermentação de sucos, vou mostrar como acontece o processo de fermentação, pra você entender como fazer suco fermentado gaseificado naturalmente usando qualquer fruta que você quiser. Na oficina de Conservação de alimentos, a ideia é desenvolver um olhar curioso a partir da microbiologia e de botânica pra te ajudar a fazer escolhas intuitivas sobre métodos de conservação de alimentos. E na oficina de Germinação de grãos, se envolver com o que acontece na semente no processo de germinação é a base pra entender as técnicas, materiais e grãos que podem ser utilizados.
Vou dividir as aulas com a minha amiga bióloga Lorena Uceli, que compatilha comigo essa simpatia por olhar processos com gentileza. São oficinas práticas, em que espero que você saia conseguindo ter autonomia pra fazer essas coisas mas principalmente, que você saia envolvido e entendendo o que você está fazendo e sendo capaz de criar o seu jeito de fazer.
Antes de sair, um cafezinho
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Obrigada por me fazer companhia, do seu jeito.
Um abraço,
Carla SoaresOutraCozinha
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As imagens que ilustram essa newsletter são de obras da artista Louise Bourgeois. A obra dela é imensa e emocional, e inclui desenho, escultura e arte têxtil.
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Carla Soares

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Curadoria cuidadosa de Carla Soares via Revue.
OutraCozinha é um projeto artístico que pensa sobre nossa relação com o mundo a partir da comida.