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Caderno de Recortes #9 - paradigmas/IR/Norman Rockwell

Zé Oliboni
Zé Oliboni
Olá pessoal, como estamos?
Antes de mais nada, obrigado aos que sempre me mandam uma mensagem e comentam esse aglomerado de ideias que mando para o email de vocês.
Pensei em comentar a falta de dignidade que chegamos como nação ao ter um presidente que é constantemente exposto em fotos deprimentes de procedimentos cirúrgicos. Mas isso para mim é tão absurdo que não tenho nem palavras.
Então vamos direto para a edição da semana.

Ideias roubadas
Frase de Ana Carolina G. O. Ferreira - FSP 12/06/21
Frase de Ana Carolina G. O. Ferreira - FSP 12/06/21
Um mundo sem paradigmas
Em A Estrutura das Revoluções Cientificas, Thomas Kuhn define o conceito dos paradigmas e a importância deles para ciências. Muito a grosso modo, o paradigma é um conceito que é aceito por um ramo da ciência como verdade e as demais teorias são escritas partindo da premissa que esses paradigmas estão certos. Nas ciência exatas isso é muito claro, tanto que é atribuída a Newton a frase “se eu vi mais longe, foi por estar sobre ombros de gigantes”. Apesar de parecer poética, tem uma aspecto prático importante na frase. Newton não começa as teorias dele do zero, nem conceitos inovadores como a lei da gravidade ou o cálculo. Ele partiu de mecanismos da física e da matemática que já haviam sido desenvolvidos e provados e que eram tidos como inquestionáveis.
Voltando a Kuhn, algo que ele aponta é que, algumas vezes, os paradigmas param de funcionar. Conforme as previsões ou explicações falhas se acumulam, um acúmulo este chamado de “anomalias”, a ciência natural entra em um estado de crise. Quando algo assim acontece, o esperado é que surja um cientista revolucionário com um novo paradigma para substituir o anterior. Só assim, a ciência pode voltar para um estado paradigmático.
Meu ponto aqui é o seguinte, muito se fala das crises que vivemos, que temos a sanitária, a moral, a estética e tudo mais, mas, para mim, o maior problema é a crise paradigmática.
Chegamos em uma uma situação em que não temos mais certezas, absolutamente tudo é uma narrativa e todo fato é uma mera tese.
A facada foi uma fraude? Aécio ganhou a eleição? A vacina implanta um chip? Cloroquina funciona? O PT distribuiu mamadeira de piroca? A terra é redonda?
A credibilidade e a confiabilidade chegaram a um patamar crítico por um motivo básico: se tornaram atributos seletivos. As pessoas passaram a escolher se algo é um fato de acordo com os interesses. Notícia publicada em jornal com dados que eu não concordo? É mentira. Vídeo de um suposto médico que ninguém ouviu falar enviado frequentemente no whatsapp com uma opinião que eu concordo? É verdade.
Mesmo pessoas mais sensatas ficaram sem um lugar para se agarrar.
E, vamos combinar, boa parte das notícias se baseiam em algo que alguém “importante” falou e muita gente está se aproveitando da falta de paradigmas para transformar fatos em narrativas e mentiras em certezas. Daí como ficamos? Acende a luzinha da paranoia e achamos que tudo é um plano para nos manipular?
Não tenho respostas para nada disso, se tivesse, a veracidade delas, talvez seria contestada .
O que sei, baseado em uma lógica de como se aprende matemática é que, você pode ver a demonstração do teorema de Pitágoras uma vez, mas, refazer todo o cálculo que demonstra que ele funciona a cada vez que precisa fazer algo que envolva trigonometria, é algo insano.
A vida em sociedade não é uma ciência exata, é óbvio. Mas essa realidade em que alguns querem nos convencer que são gigantes sobre ombros de anões não leva ninguém a lugar algum.
Seleção antinatural
Um exemplo interessante dessa realidade seletiva é esse processo de reabertura que está acontecendo.
Antes de mais nada, um dado:
FSP 16/07/21
FSP 16/07/21
Eu sei que parece que tudo está melhorando, que a vacinação está andando e que, principalmente, as pessoas não aguentam mais ficar em casa e o comércio não tem mais caixa para sobreviver com as pessoas em casa.
Mesmo assim, são mais de MIL E QUINHENTOS MORTOS em um dia, quase 53 MIL novos casos (lembrando que testamos pouquíssimo, então deve ser muito mais).
Novas variantes surgem todos os dias por conta desse contágio descontrolado. Mas, mesmo assim, Dória, que vendeu a imagem do sujeito que estava lutando pelas vidas e pela ciência, acha que esses números são baixos.
FSP 14/07/21
FSP 14/07/21
Nem vou entrar no mérito de sobre colocar em risco desnecessário as vidas justamente dos funcionários que ficaram em casa, não pegaram Covid e não sabem se seriam da turma dos assintomáticos ou dos que precisam de UTI. Essa questão é pequena perto da mensagem que isso passa.
Quando o governador fala que quer que os funcionários voltem a circular ele quer dizer que quer que todos no estado voltem a circular, que todas as empresas tragam seus funcionários para o presencial. Os restaurantes e comércios próximos a repartições e escritórios devem contratar mais pessoas, os bares devem se preparar para o happy hour merecido depois de uma semana de trabalho, todos voltam a comprar, a economia volta a girar e vida volta ao normal. Um normal que, a cada dia, tem 1.500 pessoas a menos.
Por um lado isso é ótimo. Temos que aprender a conviver com o Covid e, caso não existissem vacinas, a vida teria que ser assim, como quer o Dória, uma seleção natural em que só os assintomáticos sobrevivem.
A questão aqui é o momento escolhido. Estávamos meio que vendo uma luz no fim do túnel, mais um mês e a população adulta teria recebido pelo menos a primeira dose. Algumas semanas depois disso os casos devem cair vertiginosamente.
Mas não, aqui é acelera, São Paulo! Voltem todos a circular nas ruas. Quer evento? Estamos programando a CCXP - Com Covid Experience.
Curiosamente, um dia depois de dizer que está tudo bem, o próprio governador demonstrou que nada está bem.
FSP 15/07/21
FSP 15/07/21
Ou seja, é possível que aquela luz no fim do túnel tenha sido apenas um letreiro alertando que esse túnel não tem fim.
Ideias roubadas
Frase de Esper Kallás - FSP 22/06/21
Frase de Esper Kallás - FSP 22/06/21
Educated guess
Eu adoro essa expressão da língua inglesa. Ela se refere a um palpite que você dá baseado no seu conhecimento e na sua experiência. Não deixa de ser um achismo, mas é a melhor suposição que você pode fazer no momento com tudo que tem a sua disposição.
Na edição passada eu falei do Imposto de Renda. Disse que o pessoal que estava afiando a língua para defender os interesses de poucos ricaços que pagam pouco tributo acabariam pagando a conta.
O camarada Paulo Guedes, concorda:
Infomoney 07//07/21
Infomoney 07//07/21
Mas, como já tinha dito, para os nossos nobres deputados, 20 mil ultrarricos são bem mais importantes que 30 milhões de brasileiros. O relator começou a mexer e, veja só, achou uma conta em que reduz tanto os imposto das empresas que esses 20 mil, no fim do dia, receberão mais em dividendos do que quando não pagavam nenhum imposto.
É claro que alguns paradigmas da matemática ainda se aplicam, então, se os ricos vão pagar, na soma da pessoa jurídica e da pessoa física, menos impostos ainda, quem paga a conta?
Sim, como eu disse na edição anterior, o famoso PJotinha
FSP 14/07/21
FSP 14/07/21
Nessa modalidade da reforma, toda empresa, inclusive aquelas que são “bandas de um homem só”, que renderem mais de 2.500 por mês para seus sócios, darão sua justa contribuição para que os 20 mil mais ricos, citados pelo camarada Guedes, possam manter o processo de ficarem ainda mais ricos.
É claro que, como já foi dito, Imposto de Renda é coisa de elite. Pouca gente paga Imposto de Renda no Brasil, porque as pessoas recebem salários miseráveis.
Então, nosso nobre relator, deputado Celso Sabino (PSDB-PA), se esforçou muito e viu que os milhões de brasileiros mais pobres poderiam sim dar sua justa contribuição para que os mais ricos possam continuar acumulando capital.
FSP 14/07/21
FSP 14/07/21
Essa novela está longe de terminar, mas é bom já ir separando um trocado aí, porque a qualquer hora, o relator pode terminar o projeto, aprová-lo e está claro que a ideia é que, se milhares pagaram um pouquinho, 20 mil pessoas podem ter uma vida ainda mais TOP.
Angela Alonso na FSP/16/07/21
Angela Alonso na FSP/16/07/21
Pintores
Como falei sobre Leyendecker na edição passada, nada mais justo do que falar sobre Norman Rockwell, o pintor que, de certa forma, o sucedeu como “queridinho” do mercado editorial e publicitário dos EUA.
Eu já tinha um vídeo no canal sobre o Rockwell, mas, como sempre, quero analisar algumas obras em específico.
Norman Rockwell e a era de ouro da ilustração
Norman Rockwell e a era de ouro da ilustração
Esse é um quadro antigo de Rockwell, trouxe ele porque é justamente o tipo de pintura que não vem a mente quando pensamos nesse artista. Note como esse estilo de contraste calcado em tons terrosos escuros é muito comuns nas pinturas a óleo dos artistas que antecederam Rockwell. A questão dessa pintura, além do contraste é a técnica das pinceladas e como na parede do fundo fica clara a construção por meio de uma sobreposição de manchas. O quadro não chega a ser impressionista, mas, ainda assim, tem elementos gráficos o suficiente para ser reconhecido de imediato como um pintura.
Esse outro quadro já está mais próximo do que ficou conhecido como o estilo do Rockwell. Apesar de pegar mais leve no contraste, ainda mantém elementos interessantes de pintura. As pessoas na festa são feitas com tinta óleo bem diluída, criando um efeito de transparência que lembra muito pinturas em aquarela. As sombras na roupa da garota também têm uma construção interessante por meio de manchas. Ou seja, de longe, ainda é fácil dizer que estamos diante de uma pintura.
Aqui eu diria que temos um ponto quase de tangência com o Leyendecker. É uma arte limpa, com cara bem editorial. O desenho tem algumas estilizações sutis. Os personagens estão trabalhados de forma bem realista mas são recortados por um fundo que tem informações visuais que remetem de forma evidente à pintura (apesar de não serem recortes tão ousados quanto os do Leyendecker) e a grama tem uma textura linda de tinta opaca (algum tom de verde bem misturado com branco) que gera esse efeito que passamos a chamar de “tom pastel” ao mesmo tempo que passa uma suavidade, quase como se fosse uma massa de modelar que podemos apertar.
Por fim, uma obra clássica do Rockwell. É uma escolha meio óbvia mas ela está aqui porque fecha um raciocínio que se iniciou na edição passada.
Na fase em que Rockwell cria seus trabalhos mais lembrados (aqueles que aparecem em qualquer pesquisa do google), ele se aperfeiçoou tanto na técnica, esterilizou tanto seus trabalhos daquelas informações gráficas que deixavam evidentes que o que ele produzia eram pinturas, que muitas pessoas passaram a achar que as capas de revistas feitas por ele eram, na verdade, fotos.
Esse autorretrato é um exemplo um pouco triste disso, diz a lenda que ele fez essa pintura para que as pessoas se lembrassem que aquilo que viam impressos nas capas de revistas e anúncios publicitários eram, antes de mais nada, o trabalho de um pintor.
Acho que nunca saberemos se Rockwell seguiu para esse caminho por gosto ou por demanda comercial. Os relatos sobre ele indicam que era obsessivo pelo trabalho, então talvez tenha um misto dos dois.
P.S.
Obrigado a quem se inscreveu e leu.
Agradeço imensamente quem quiser compartilhar esse email ou divulgar nas redes sociais.
Os links para me encontrar e ler as edições anteriores do caderno de recortes estão aqui https://linktr.ee/diletante
No linktr.ee você encontra, também, meu link para amazon, se puder clicar nele antes de fazer suas compras, já me ajuda muito.
Abraços.
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Zé Oliboni
Zé Oliboni @oliboni

Durante a semana eu junto uma série de notícias que me chamam atenção, comento e mando para você. Falo também de pintura, literatura, cultura pop e mais alguns temas que surgem no caminho.

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