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Caderno de Recortes #6 - Jozz/vetores/Bill Sienkiewicz

Zé Oliboni
Zé Oliboni
É curioso que a maioria das empreitadas que eu faço tenho em mente o Liniers que, quando começou a tira Macanudo, no auge de uma das crises argentinas, disse que tinha a intenção de oferecer um certo alívio para toda aquela situação que o país passava. E ele fez e faz isso com uma maestria ímpar. Uma série infinita de tiras profundas, poéticas e lindas que dão sempre um acalento em ver.
Infelizmente não sou Liniers e, mesmo que comece com a melhor das intenções, me falta poética e sobra melancolia. Nas últimas edições foquei muito em comentar notícias da nossa realidade deprimente e é difícil ser animador nesse contexto atual. Mas eu tento, então vem comigo.

Ideias roubadas
Em algum momento embrulhou-se o peixe no jornal. Então fiz esse aí em homenagem ao Jozz
Em algum momento embrulhou-se o peixe no jornal. Então fiz esse aí em homenagem ao Jozz
A vida que flui no interior
Esses dias eu comprei o livro novo do Jozz. Para quem não conhece ele, é um artista, professor e pesquisador fantástico e, por coincidência, nasceu na mesma cidade que eu, no interior de São Paulo. Por coincidência, também, mas favorecido pela probabilidade, fui aluno do pai do Jozz, um dos professores mais queridos do extinto curso técnico de contabilidade. Curiosamente, apesar de descobrir depois que tivemos colegas em comum, só conheci Jozz em São Paulo quando ele começou a se destacar como quadrinhista.
Sobre o livro, (que é ótimo e você pode comprar no site do Jozz https://www.ateliergarabato.com.br/ ) eu falei nesse vídeo.
A cidade submersa - dica de leitura
A cidade submersa - dica de leitura
De uma forma poética o livro trata da relação do Jozz com essa cidade do interior onde ele cresceu, saiu e depois voltou.
Eu tenho várias questões com a vida no interior, ainda mais com uma certa visão idílica que as pessoas da capital tem em relação a ela.
Hoje eu já passei mais tempo da minha vida em São Paulo do que em Jaú e, mesmo na pandemia, em que seguimos para um ano e meio trancados em casa, ainda prefiro morar em São Paulo.
Temos que levar em conta que eu vivi no interior em uma época em que o mundo ainda era bem isolado. Não é só que não tinha livraria, não tinha a possibilidade de comprar livro de forma alguma a não ser indo para outra cidade. Hoje, se eu gosto de ler é por causa das bancas, que eram um dos poucos canais culturais capilarizados a ponto de chegar no interior (mesmo assim parte das publicações ou chegavam em número muito reduzido ou nem chegavam, até mesmo um jornal trivial de domingo às vezes dependia de reserva prévia para não perder). Por isso, inclusive, eu tive uma relação forte com os quadrinhos por muitos anos, era praticamente a única porta de acesso disponível para alguém que não tinha uma família que viajava direto para cidades maiores.
Eu imagino que hoje seja mais fácil ter acesso a produtos mais específicos graças ao comércio eletrônico, contudo as opções presenciais tendem a seguir limitadas. Cursos, teatro, gastronomia, museus, exposições, eventos, tudo isso é muito restrito no interior.
Outra questão que me incomoda no interior e que, em certa medida, acontece em São Paulo, pois estamos longe de ter uma urbanização inclusiva é a divisão de áreas comerciais e áreas residenciais. Todos os lugares em que eu morei em São Paulo são áreas mistas, inclusive, exceto pelo primeiro prédio em que morei, todos os outros tinham algum tipo de comércio ou prestação de serviço encravado neles.
A urbanização mista é algo que muitos subestimam a importância. Um lugar que tem muito movimento de comércio durante o dia e não “morre” a noite e aos fins de semana, porque há o movimento residencial, cria uma simbiose importante que aumenta a segurança e aumenta a resiliência financeira dos pequenos comércios locais.
Áreas mistas tendem a ter mais acesso a transporte público, aliás outro ponto em que o interior e periferia de São Paulo se assemelham. Quando olhamos para o interior parece inevitável a pessoa ter um carro, moto ou, pelo menos, uma bicicleta, pois o transporte público é limitado, demorado e, muitas vezes, caro demais, fora que, em muitas cidades, viagens intermunicipais para questões triviais como ir ao médico ou revisar o carro são rotina. A periferia de São Paulo também carrega essa chaga histórica de tentar limitar o acesso “bairro/centro” aos fins de semana. Melhorou muito com o tempo, mas ainda é um problema dessa urbanização que cria bairros dormitórios.
Algumas pessoas se incomodam com a questão de que “todo mundo” conhece você e a sua família no interior. Como disse Jozz no seu livro, Jaú, o peixe (ou talvez a cidade), tem boca grande porque fala muito. Não vejo isso exatamente como um problema, mas, mesmo assim, é bizarro o fato de que é inevitável para mim pensar no Jozz primeiro pela ligação da família dele com uma indústria pequena local, do que pelo grande artista que ele se tornou. Mas a vida no interior tem essas peculiaridades.
De tudo isso, acho que um dos maiores problemas é como essas questões urbanas acabam moldando a mente dos moradores. Como a limitação ao acesso a uma produção cultural, como a falta de restaurantes e espaços de convivência faz as pessoas se fecharem em muitos sentidos.
Pode ser uma interpretação minha, uma projeção, como diriam os psicólogos, mas senti uma certa melancolia no livro do Jozz ao mostrar esse processo dos anos em que ele vive lá e tenta, dentro do espaço dele, dentro da área dele, promover alguma mudança.
Em uma certa medida eu concordo com a ideia de que “todo militante é, antes de tudo, um chato”; mas agradeço demais a existência dos militantes que têm esse desejo que me falta de mudar o mundo. Admiro muito as pessoas que gostam de um estilo de vida, como morar no interior, por exemplo, com ressalvas e que olham para essas questões como uma realidade a ser sempre aprimorada. Eu que sempre recomendo os cursos de desenho da Quanta, fico feliz em saber que em outras cidades existem pessoas como o Jozz, ensinando com qualidade e competência, mesmo que existam adversidades.
Vetores inversos
Comecemos por essa foto. Alguns operários de uma barragem fizeram um gesto que certas pessoas consideraram como sendo um L de Lula, o que levou as famílias deles a sofrerem ameaças, ao mesmo tempo que o governo disse que eles apenas atenderam um pedido do presidente para apontar para o céu. É bem provável que o governo esteja correto, nesse caso muito específico, até porque, devem ter atendido outro pedido do presidente de ficarem sem máscara na foto. Ainda assim, essa confusão besta colocou a família deles em risco, ou seja, independente da direção do vetor, ele aponta para um futuro próximo muito tenso.
E vemos sinais trocados por todos os lados, principalmente quando lemos as notícias organizadas pelos jornais.
Capa da FSP 23/06/21
Capa da FSP 23/06/21
Capa da FSP 24/06/21
Capa da FSP 24/06/21
O primeiro espanto é: por que Arthur Lira, atual presidente da câmara e leão de chácara dos pedidos de impeachment do presidente da república, deu essa declaração que caberia ao presidente ou seu ministro nessa área?
Acho que essa questão é pertinente, contudo o jornal demorou um dia para conversar com quem realmente importa na questão, o ministro que prontamente desmentiu.
Na faculdade de Direito aprendemos que qualquer um pode entrar com uma ação. Um exemplo clássico é a sogra que pede o divórcio do filho e da nora. Ela pode protocolar a ação, contudo, o processo será barrado na primeira análise de um juiz, pois ela não é parte naquele caso.
Lira não é parte na execução da política energética, quanto muito pode dar início a um projeto de lei para instituir um mecanismo de racionamento que o executivo será obrigado a seguir depois de todo o trâmite.
Ainda assim, Lira fala como presidente do país e não de uma casa legislativa, provavelmente porque ele está bem acomodado como fiador do presidente eleito.
Isso indica algo preocupante: o presidente é fraco, mas ainda é um laranja (ou poste, ou boneco de posto) interessante para o chamado “centrão” que nos mantém reféns.
Outras notícias curiosa que seguem por vias inversas são essas:
FSP 24/06/2021
FSP 24/06/2021
FSP 24/06/2021
FSP 24/06/2021
Já tem mais de uma semana que a Folha e outras mídias estão alardeando essa história sobre uma quadrilha irrefreável que rouba celulares e, independente de terem senhas, conseguem burlar todas as medidas e fazer saques gigantes nas contas bancárias dos clientes.
A questão que fica é: não seria o caso do STF mandar o celular do Salles para essa quadrilha, pedir para desbloquearem e já recuperarem qualquer dinheiro que eventualmente tenha sido produto de crime?
Ainda paira o caso do superfaturamento da vacina em que a primeira atitude do governo foi investigar e atacar quem fez a denúncia, deixando o crime em si para depois. Mas nesse caso nem vale a pena entrar porque dado os elementos envolvidos, pode ser algum aliado que vai cair atirando como pode ser algo bem mais elaborado que ainda precisamos de tempo para ver.
Por fim, vetores inversos se anulam, ou seja, não produzem nenhum resultado prático. Então não há nada a comemorar na saída do ex-Sinistro do Meio Ambiente Ricardo Salles. Primeiro porque isso é uma estratégica para ele tentar escapar das garras da justiça e, segundo, porque para o meio ambiente não muda nada, pelo menos não até o final de 2022.
Fabiano Maisonnave - FSP 24/06/2021
Fabiano Maisonnave - FSP 24/06/2021
José Simão/FSP 26/06/21
José Simão/FSP 26/06/21
Pintores
Semana passada eu postei um vídeo sobre o Bill Sienkiewicz. Esse pintor que se consolidou como uma artista alternativo dentro do mainstream da indústria de quadrinhos é uma das grandes referência que eu tenho. Sou fascinado pelo casamento que ele faz entre pintura, design e narrativa visual.
O vídeo é esse, mas separei algumas pinturas para comentar aqui.
Conheça a arte de Bill Sienkiewicz
Conheça a arte de Bill Sienkiewicz
Apesar de a base do trabalho do Bill Sienkiewicz ser a aquarela e as técnicas da aquarela se sobressaírem no conjunto do que ele cria, uma das características mais marcantes da arte dele é ser “mix midia”, ou seja, ele não se limita a uma técnica, um tipo de tinta, ele trabalha com tudo que achar que é necessário para chegar no resultado visual final que precisa. Nesse retrato do falecido Chadwick Boseman, tem aquarela, lápis de cor e aerógrafo e tudo está presente nos seus devidos lugares valorizando a qualidade de cada material, a expansão das manchas da aquarela, a definição do lápis de cor e essa difusão esfumada do aerógrafo.
Se não fosse por uns respingos de tinta no canto inferior esquerdo, essa seria uma pintura quase tradicional de tão bem comportada. Eu trouxe ela porque mostra um personagem, o Cavaleiro da Lua, que é basicamente um Batman de branco e, na prática ele trabalha o personagem principal quase na mesma cor do Batman da época do Neal Adams, cinza, no caso do Batman mais para um cinza escuro/neutro e aqui mais para um cinza cromático claro quente, com o azul para contrastar.
Chama atenção também como ele faz uma técnica de pintura clássica, com um desenho estilizado, mas ainda realista, típico dos super-heróis, com uma composição bem contemporânea, cheia de “dicas visuais” para montar um design que conta uma história.
Eu simplesmente amo essa versão do Rei do Crime. Esse conceito em que ele mal cabe no quadro, mas com a cabecinha pequena, cheia de pensamentos, quase perdida nesse triângulo central com uma estampa padronizada e o desenho do lado em que ele aparece encaixado como uma esfera perfeita em um momento bem mais feliz com a esposa e o filho. Note como as manchas da aquarela sempre se fazem bem presentes, mesmo nos quadros internos das HQs.
Por fim, o melhor de três mundos. Uma composição no estilo de Frank Frazetta (lembra que eu falei dele na edição passada?), com a estilização característica de Albert Uderzo (criador do Asterix) e acabamento e cor típicos do Sienkiewicz, as manchas da base (underpaint) feitas com aquarela e as técnicas diversas opacas que vão enchendo a arte com as interferências gráficas que a fazem funcionar.
Ideias roubadas
Frase do Pondé
Frase do Pondé
P.S.
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Zé Oliboni
Zé Oliboni @oliboni

Durante a semana eu junto uma série de notícias que me chamam atenção, comento e mando para você. Falo também de pintura, literatura, cultura pop e mais alguns temas que surgem no caminho.

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