Caderno de Recortes #14 - divergências/James Lins/Marcos Beccari

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Zé Oliboni
Zé Oliboni
Sempre começo o jornal pelo caderno que a Folha costumava chamar de Cotidiano. Adoro o noticiário local e, mesmo que sinta uma falta imensa do Cotidiano Imaginário do Moacyr Scliar, ainda é o meu caderno preferido. Depois vou para a parte de cultura, política e por último economia. É engraçado que na maioria das edições dessa newsletter falei mais sobre economia do que qualquer outro tema. É um misto de zona de conforto, pois tenho um conhecimento mínimo que me permite falar com mais segurança, com uma pitada de revolta. A economia rege nossa vida, não tem como fugir dela. Mas, pelo menos essa semana, vou diversificar.

Ideias roubadas
Frase de Maria Homem - FSP 04/07/2021
Frase de Maria Homem - FSP 04/07/2021
Vozes múltiplas
Esses dias a Folha resgatou do limbo o tal Leandro Narloch. Ele deveria ficar relegado ao site, talvez com uma função de polemista caça-clique. Desse modo, quem lê a edição impressa ou mesmo a cópia digital da versão impressa, poderia seguir a vida sem acompanhar o sujeito. Contudo, com uma única postagem ele se tornou a figura central de 3 colunas da edição impressa e ganhou direito a uma réplica também impressa. Thiago Amparo começou os trabalhos de rebater o novo contratado e, depois, veio o ombudsman e o Antônio Prata, que aproveitou para mirar em bem mais gente e fechou com o seguinte recado:
Antônio Prata - FSP 14/08/21
Antônio Prata - FSP 14/08/21
Confesso que eu me divido um pouco nesse assunto. Por um lado, eu não quero ler um jornal que seja monotemático nas opiniões do seu corpo de colunistas. Sou a favor de tentar entender o argumento e a lógica de quem pensa diferente, de quem é contrário ao que eu penso. Até porque, se a maioria da população é racista, machista, homofóbica e essas condições são estruturais, acho que é preciso demonstrar a essa maioria que todos devem estar abertos ao diálogo. Como eu posso querer que a pessoa que é contra cotas ouça meu argumento a favor se me recuso sequer a publicar o raciocínio oposto dela?
Quando fechamos as portas para o contraditório, o grupo que ficou do lado de fora pensa: não preciso de vocês também, vou só ouvir esse canal que me dá espaço e que diz só o que eu concordo.
A Jovem Pan (Jovem Klan, Jovem Panzer) é um exemplo categórico. Ela começou a “abrir espaço para todos” e deu voz a quem não tinha palanque em lugar nenhum. Essas pessoas foram se aglomerando lá e até que a rádio ficasse monotemática no seu conjunto de opiniões extrema-direita/pró-governo. É claro, tem mais fatores envolvidos, tem muito dinheiro rolando, mas o fato é que aquelas pessoas que não tinham espaço formaram seus próprios espaços e se tornaram um veículo para institucionalizar o absurdo.
No exemplo da Pan, o programa Pânico é muito significativo. Dava palco tanto para o MBL quanto para a ala jovem do PSOL, mas a esquerda não quis mais dialogar e o programa foi se afunilando em uma direção até chegar a um fundo de poço em que se trata como algo razoável as teorias de terraplanistas.
E é aí que chegamos em uma encruzilhada. Existem questões que não estão abertas a debate, fatos que são incontestáveis, fundamentos científicos que não são passíveis de interpretação.
O grande dilema da era da informação é como mediar o debate de forma que se permita o pensamento contraditório, que haja espaço para o raciocínio divergente, mas sem cair no abismo da desinformação.
A proposta da Folha de que as opiniões divergentes se equilibrariam é interessante, mas tem uma falha fundamental. Mesmo se tratando de uma opinião, um veículo de mídia que se diz sério tem a obrigação de, no próprio texto, vetar informações erradas ou apontar que esse ou aquele ponto está pacificado como falso.
Se um colunista defende que a terra é plana, não basta esperar que outros se animem a rebatê-lo. É óbvio que em termos comerciais é muito interessante, o jornal conseguiu “audiência” pelo texto polêmico inicial e audiência pelo debate que só impulsionou mais o texto polêmico com erros crassos.
A mídia tradicional está em frangalhos, não sei qual é o futuro do jornalismo e insisto que não podemos nos fechar em nossas bolhas, mas se os poucos meios oficiais de comunicação optarem por abrir espaço para a legitimação de mentiras, chegaremos em um ponto sem volta em que nada mais é certo e em que a terra plana passa a ser algo a se pensar.
Para ler
Falar do Antônio Prata sempre me faz lembrar do pai dele, Mario Prata. Tem um livro em particular que eu adoro, uma coletânea de crônicas geniais que formam a história bizarra de James Lins, o playboy que não deu certo.
Esses textos foram publicados no Estadão, neles Mario Prata simula uma cobertura jornalística sobre esse personagem excêntrico rodeado de um elenco bizarro.
A história vai se construindo aos poucos até um determinado momento em que o personagem James Lins assume a coluna e Mario Prata se torna uma nota de rodapé no texto.
É uma coletânea fantástica com uma trama que faz sentido até hoje. Recomendo muito. Você pode comprar aqui https://amzn.to/3syQtCR ou em sebos.
Diversidade
Uma questão bem mais séria que a diversidade de opiniões é a diversidade social. Uma pauta que ao mesmo tempo que parece avançar segue em um atravancamento inaceitável.
Jairo Marques - FSP 17/08/21
Jairo Marques - FSP 17/08/21
Só esses dias dois casos graves de racismo em supermercados ganharam destaque na mídia. É importante lembrar que esses casos não são isolados e que são exceção não na sua ocorrência, mas no destaque que ganharam. Situações assim, infelizmente, são frequentes e a maioria dos casos não ganham a devida atenção.
Marta Machado - FSP 14/08/2021
Marta Machado - FSP 14/08/2021
Para esse tópico, o único debate que cabe é: como acabar mais rápido com esse problema.
Pintores
Em uma edição anterior (essa aqui), falei sobre o Cárcamo, um aquarelista que foi meu professor. Hoje gostaria de falar sobre Marcos Beccari, outro aquarelista nacional e professor fantástico. Tive a oportunidade de fazer uma oficina virtual com o Beccari para entender melhor o processo dele. Foi uma experiência muito interessante. Infelizmente o Beccari não dá tantas oficinas devido ao trabalho dele como docente da UFPR, mas quem tiver a oportunidade recomendo muito.
Antes de comentar as pinturas, acho importante citar um trecho do livro dele, Antirrealismo, que diz muito sobre o trabalho dele.
Pintar uma cortina é pintar o que se espera ver ali. A questão, portanto, é que o “poder” do realismo depende tanto da habilidade do pintor quanto de certa disposição do observador em reconhecer a ilusão e deixar-se enganar por ela.
De todas as técnicas de pintura, a aquarela é a que tem o processo que mais me impressiona. Assistir a alguém como o Beccari fazer um retrato desses é, ao mesmo tempo, aflitivo e maravilhoso. Um retrato como esse é construído quase que todo ao mesmo tempo, com as manchas se integrando e uma série de tons improváveis que entram logo no começo da pintura. É interessante como tudo parece muito definido, sendo que, na verdade, ele trabalha com mais detalhes apenas na faixa do olho e do nariz, esse esmero nessa área cria a ilusão do realismo. Outra ilusão poderosa é a da tridimensionalidade dessa figura. São tantos níveis de profundidade que é quase impossível quebrar essa ilusão.
Eu gosto muito de várias escolhas nessa pintura, em particular essa borda inferior que simula uma câmera desfocada. Ela cria uma perspectiva única para a imagem, nosso olhar fica em um ciclo constante que vai da areia para o mar e é jogado de volta para a areia pela onda.
Aqui temos uma imagem mais típica do trabalho do Beccari, a figura humana e a água. É interessante notar como a intensidade do pigmento nas partes escuras da água dão o realismo da imagem.
Outra obsessão do Beccari é a distorção da figura humana pela água e por superfícies como essa máscara de mergulho. De novo, se olhar com muita atenção ele define bem menos elementos do que parece, o “truque” é a escolha precisa dos pontos em que ele aumenta a intensidade.
Acho hipnótico como essas duas manchas que formam a água nas laterais da pintura geram toda a ilusão de transparência.
É importante dizer que esse tipo de resultado que o Beccari chega é fruto não só de muita técnica e prática, mas, também, de uma série de estudos prévios. Ele estuda exaustivamente o desenho, depois faz estudos mais simples e rápidos de cor e ainda mais uns dois estudos menores antes de ter tudo resolvido na cabeça dele para a pintura final que normalmente é um um papel grande.
Por mais que o processo dessa pintura final seja “rápido” o estudo e o planejamento que a antecede é intenso.
Por fim, uma pintura que é realista ao mesmo tempo que as figuras estão tão distorcidas que é quase difícil montar esse quebra-cabeças humano.
P.S.
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Zé Oliboni
Zé Oliboni @oliboni

Durante a semana eu junto uma série de notícias que me chamam atenção, comento e mando para você. Falo também de pintura, literatura, cultura pop e mais alguns temas que surgem no caminho.

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