Caderno de Recortes #10 - astronautas/golpe/Gonzalo Cárcamo

#10・
21

edições

Zé Oliboni
Zé Oliboni
Olá pessoal, seguimos para mais uma semana. Espero que estejam bem, todos vacinados ou, pelo menos, em vias de se vacinar muito em breve.
Essa semana achei que ia faltar noticia, mas, no fim, temos temas de sobra.

Ideias roubadas
Frase de Ronaldo Lemos - FSP 11/07/21
Frase de Ronaldo Lemos - FSP 11/07/21
Eram os milionários astronautas
Não vou me estender sobre o caso dos milionários que estão indo para o espaço porque eu não gosto dessa retórica que quer ditar com que a pessoa pode gastar o dinheiro, porque, se for seguir esse caminho, todos teríamos que abrir mão de tudo diante da necessidade de tantos. Para mim a questão não é o que a pessoa faz com o dinheiro dela, mas sim o sistema que permitiu que ela acumulasse desenfreadamente esse capital na expectativa de que a bondade do coração dela fizesse a distribuição da riqueza.
Por mais que exista bons exemplos de ricos que dedicam a vida a filantropia, o que temos, na média, são pensadores como o Flávio Rocha (já citado extensivamente nas edições anteriores).
Folha de S. Paulo 17/07/2021
Folha de S. Paulo 17/07/2021
Pelo menos, os cosmonautas do bilhão estão desenvolvendo a ciência.
Seleção
Esses dias o Uol soltou essa manchete
Já havia falado na edição passada sobre como João Dória abandonou na prática a ideia de combater a pandemia ao mandar todos acelerarem a circulação, principalmente quem ficou em casa até agora e não se expôs ao vírus ainda. Segundo o governador, a hora de testar se você morre ou não, é agora, mesmo que falte algumas poucas semanas para as pessoas se imunizarem.
Mas isso não é novidade da parte do governador, que sempre foi bom só no discurso e na publicidade.
O que me preocupa no momento é que esse conceito não está restrito a necropolítica local.
Lembram daquele momento incrível em que achamos que uma consciência tinha brotado como uma flor na Seleção Brasileira de Futebol que ameaçou não jogar a Copa América? No fim era, mais uma vez, o mofo do jogo de poder que domina todas as áreas da vida. A Seleção derrubou um figurão da CBF e bola para frente, perdeu mais uma competição em casa.
A questão interessante é que no transcorrer da Copa América, aquela indignação inicial, supostamente, fez com que os jornais abafassem a importância do evento esportivo internacional que ocorria aqui. Jornais como a Folha de S. Paulo dedicaram poucas matérias aos jogos e quase nenhum destaque de capa.
Com a transmissão em um canal aberto de segunda linha, o SBT, a Copa América foi ignorada com sucesso.
De novo, achamos que a preocupação era com o COVID e a pandemia e não uma mera pirraça com o presidente que quis trazer comitivas internacionais com novas variantes do vírus para se espalhar pelo país.
Mas, logo na sequência, chega a olimpíada para mostrar que a nossa mídia é tão gourmet no negacionismo quanto João Dória.
O principal canal aberto de TV no Brasil, a Globo, está se dedicando à cobertura sem as mesmas preocupações que teve com a Copa América. A Folha de S. Paulo tem dedicado capa ao evento e caderno exclusivo. Tudo bem que falou bastante sobre o rigor do protocolo do evento (tão rigoroso que já teve atleta que deu perdido pelo país).
É claro que podemos tentar passar um pano dizendo que o Japão é um país desenvolvido que já controlou a pandemia, mas não é o que mostram os dados públicos de 19/07/21:
Ah, mas a vacinação deve estar rápido lá, afinal o país não rejeitou vacina em busca de propina, né? De novo, os dados de 19/07 mostram que o país está longe de uma cobertura vacinal razoável:
Podemos dizer, ainda, que estamos pensando nos atletas, afinal as olimpíadas são o auge da carreira deles e, para muitos, atrasar um ano pode significar estar velho demais para participar. Se pensarmos que o famoso “histórico de atleta” protege eles, então podemos justificar por aí, não?
Site https://aprovataf.com.br/, mas vale dizer que esse tipo de informação é citada na maioria dos livros para atletas de alta performance
Site https://aprovataf.com.br/, mas vale dizer que esse tipo de informação é citada na maioria dos livros para atletas de alta performance
Nem vou lançar a ideia que demos um passe livre para a olimpíada porque está acontecendo do outro lado do mundo, uma vez que a pandemia começou justamente do outro lado do mundo e se espalhou como um furacão pelo planeta em instantes. Então, se toda essa movimentação internacional de atletas, equipes, jornalistas em um país com a pandemia descontrolada e com baixa vacinação gerar novas variantes mais mortais ou, até mesmo, resistentes as vacinas que temos, é certo que essa variante olímpica varrerá os quatro cantos do mundo.
O ideal era que a olimpíada não ocorresse, ainda mais se pensar que esses países reunidos pela união dos continentes poderiam se esforçar por mais um ano para vacinar todo o planeta em vez de disputar quem arremessa um martelo mais longe.
Já que isso não ocorreu e nem vai ocorrer, pelo menos a mídia poderia estender às olimpíadas a mesma cortesia com que tratou a Copa América e relegar o evento a uma nota de rodapé, destacando mais a situação da pandemia no país do sol nascente do que os pódios. Infelizmente não há indicação disso e sim de que João Dória teve sucesso novamente e implantou o negacionismo gourmet.
Ideias roubadas
O pior é que o segredo todo não deve ter sido por furar a fila e sim por medo do presidente descobrir
O pior é que o segredo todo não deve ter sido por furar a fila e sim por medo do presidente descobrir
O golpe está aí mesmo
Folha de S. Paulo 22/07/21
Folha de S. Paulo 22/07/21
Sim, antes de mais nada, todos desmentiram. Mas não é segredo nenhum que o presidente, e por consequência aqueles que ainda estão agregados a ele, vêm fazendo sugestões sistemáticas de que o TSE manipula a eleição e que, se não tiver o tal voto impresso, não tem eleição e ele não entrega a faixa.
Não vou entrar no mérito do voto eletrônico, já tem muita matéria sobre isso, inclusive já houve um teste por amostragem do voto impresso e se viu que ele causa distorções, em partes pelo medo que o eleitor tem de que alguém descubra que ele talvez não tenha votado em quem o pagou ou o ameaçou.
A questão aqui é mais séria.
Primeiro que todo dia se fala em eventos oficiais em dar um golpe. É tudo dito abertamente, sem vergonha e, mais preocupante ainda, sem nenhuma penalização.
Salvo meia dúzia de notas de repúdio, nem o legislativo, nem o judiciário se moveram para mostrar que não se deve falar em golpe em nenhum momento. Para piorar deixa-se no ar, como o odor de um cadáver morto na sala, essa ideia de que, no Brasil, o povo só tem direito a voto se a casta militar permitir.
Impedir que se propague esses discursos não é uma mera questão de censura ou liberdade de opinião, se existe a hipótese de os militares decidirem se tem eleição ou não, o país deixa de ser uma democracia e se torna uma ditadura de conveniência.
Esse caso tem um lado positivo e um negativo.
O lado positivo que é vimos nesse governo o quanto a competência do exercito é limitada, duvido muito que sejam capazes de nos proteger se o Paraguai quiser se vingar pela guerra que perdeu no passado, duvido mais ainda que, sozinhos, sejam capazes de dar o golpe e conduzir o país.
O lado negativo é que a tranquilidade com que o famoso “centrão”, do qual o presidente agora diz que sempre foi membro, trata o tema pode indicar que, se os militares derem o golpe, essa massa amorfa da pior espécie política está mais do que a postos para cuidar da parte administrativa que falta aos homens de farda.
Pintores
Quero falar essa semana sobre um pintor nacional, vivo e atuante: Gonzalo Cárcamo.
Cárcamo é um pintor chileno radicado no Brasil que se dedica ao trabalho como ilustrador e como professor de aquarela.
Os cursos do Cárcamo são disputados, só de ver as imagens abaixo fica claro o motivo. Quando ele dava aulas presencias era normal ter alunos que vinham do Brasil inteiro. Hoje ele tem dado aulas on-line, o que facilita muito o acesso das pessoas aos cursos dele.
Tem muita gente que dá aula de aquarela, vende cursos pela internet, é claro que cada abordagem é diferente, mas, na minha opinião como ex-aluno, nenhum curso de aquarela é melhor do que o do Cárcamo. (saiba mais sobre o curso dele aqui)
Algo que sempre impressiona as pessoas é a virtuose da técnica e o Cárcamo é um artista que, quando quer, atinge esse nível de realismo. Mais do que isso, dentro de um tema frequente como a água e seus efeitos visuais, Cárcamo é capaz de criar uma pintura diferente, com vida, e movimento não só da água, mas dos pés tensionados. Pra mim, nada é mais impressionante do que esse efeito de profundidade que ele cria com a pedra cheia de detalhes sob a água.
Esse é um outro exemplo de trabalho virtuoso e de efeitos de água. Note como o contraste das intensidades de cores cria uma luz impressionante na água, como o reflexo dos flamingos na água são lindos e formados por manchas sutis que se expandem por dentro mas são bem recortadas na silhueta. Tudo é uma grande ilusão, um conjunto de manchas bem posicionadas que funcionam pelo domínio e o controle de alguém que sabe usar todos os recursos que a técnica pode oferecer.
Eu trouxe essa imagem porque ela representa bem a temática principal do trabalho do Cárcamo. Além de pintor, Cárcamo é um fotógrafo excelente e ele tem uma coleção imensa de fotos da vida no interior e no litoral que ele usa como referência de estudo para os alunos.
Além da temática o que é importante notar aqui é a diferença entre esse primeiro plano (composto pela charrete, o cavalo, a rua de pedras e a lateral do prédio) e o cenário no fundo da imagem. É nesse ponto que o Cárcamo trabalha muito bem. Ele mostra uma imagem realista, com cores quentes e intensas e recortes precisos, mas, deixa claro que é tudo uma ilusão ao trabalhar o fundo muito mais solto, com baixa intensidade e pouca definição.
Eu tenho uma paixão em particular por essa imagem por vários motivos. Quando estudei com o Cárcamo, um dia ele estava vendendo algumas réplicas de ilustrações e alguns originais dele. Quis comprar justamente essa réplica por um motivo bem simples: do conjunto que ele estava ofertando era a que mais mostrava o trabalho dele como ilustrador. O desenho é bem estilizado, esses búfalos são muito expressivos e bem vivos. Você olha para essa figura e, pela estilização do desenho, sabe que é uma pintura.
Um certo dia, minha sogra estava em casa e viu essa réplica na parede. Ela perguntou: como que tiraram essa foto?
Eu sei que nessa imagem que eu achei na internet as cores estão um pouco menos intensas do que a eu tenho impressa aqui, mas, ainda assim, dá para entender a questão. O cenário é tão realista e o trabalho dele com a água e as árvores é tão cuidadoso que é possível esquecer que os búfalos são desenhados em um formato tão estilizado que parecem um animal inventado pela imaginação do Cárcamo.
Cárcamo é um mestre na aquarela e, mais do que isso, é um mestre na ilusão de criar uma imagem que tem vida e profundidade, um desenho que parece a melhor foto que alguém já tirou na vida.
P.S.
Obrigado a quem se inscreveu e leu.
Agradeço imensamente quem quiser compartilhar esse email ou divulgar nas redes sociais.
Os links para me encontrar e ler as edições anteriores do caderno de recortes estão aqui https://linktr.ee/diletante
No linktr.ee você encontra, também, meu link para amazon, se puder clicar nele antes de fazer suas compras, já me ajuda muito.
Abraços.
Curtiu essa edição? Sim Não
Zé Oliboni
Zé Oliboni @oliboni

Durante a semana eu junto uma série de notícias que me chamam atenção, comento e mando para você. Falo também de pintura, literatura, cultura pop e mais alguns temas que surgem no caminho.

Se você não quer mais receber essa newsletter, por favor cancele sua assinatura aqui.
Se você recebeu essa newsletter de alguém e curtiu, você pode assinar aqui.
Created with Revue by Twitter.