Caderno de Recortes #50 - universidades públicas/Egon Schiele

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Caderno de Recortes #50 - universidades públicas/Egon Schiele
Por Zé Oliboni • Edição Nº50 • Ver na web
Wow! 50 edições dessa newsletter compartilhando minhas obsessões e vocês continuam aqui e ainda fazem a gentileza de compartilhar meus textos por aí. Obrigado mesmo a todos.

Ideias roubadas
Bia Braune FSP 30/05/22
Bia Braune FSP 30/05/22
Bruno Boghossian FSP - 01/06/22
Bruno Boghossian FSP - 01/06/22
Universidades públicas
Esses dias foi enterrado o projeto que viabilizaria a cobrança de mensalidade nas universidades públicas. Mas temos que ficar atentos que o fato de algo polêmico não ter passado nesse momento decorre muito mais do período eleitoral do que o mérito em si.
Tanto o assunto não está morto que os formadores de opinião correram para atacar os deputados que barraram mais essa investida contra a educação do país.
Eu tinha separado um artigo tosco e mofado do Hélio Beltrão sobre o tema, (in)felizmente a própria Folha de S. Paulo resolveu fazer um editorial demandando o ensino pago, então posso cotejar esse texto para a nossa conversa.
A começar por esse que é sempre o primeiro argumento:
Editorial da FSP - 02/06/22
Editorial da FSP - 02/06/22
Esse é um raciocínio tacanho que confunde causa e efeito e ignora por completo a revolução implantada pelo sistema de cotas.
Se o problema é que a população mais pobre paga impostos pesados que sustentam as universidade sem nunca ter acesso a elas, há dois caminhos a se seguir que não passam por cobranças de mensalidade.
Primeiro é preciso inverter a lógica tributária que pesa sobre o consumo e os salários e começar a cobrar de fato sobre o patrimônio e rendas. Nada é mais razoável do que cobrar proporcionalmente menos imposto de quem tem menos e mais de quem tem mais.
É claro que, quando falamos isso, o discurso salta com rapidez para a saúde pública e é dito que os ricos pagam muito imposto e são forçados a custear um sistema de saúde que eles não querem usar. (A lógica e a coerência mandaram um abraço.)
Além disso, é preciso fazer com que o aluno carente tenha condições de competir em pé de igualdade por uma vaga. Isso se faz por meio da melhoria da educação fundamental, um processo longo e penoso, mas que gera um benefício enorme para a sociedade que vai muito além de ampliar habilidades para passar em vestibulares. E, ao mesmo tempo, pelo sistema de cotas, enquanto perdurar a disparidade de condições entre os alunos do ensino público e do privado.
Aliás, hoje, após muitos anos da implantação das cotas, as universidades públicas já possuem tantos egressos da rede pública de ensino quanto da privada em todos os seus cursos e o resultado desses alunos nos cursos, graças as políticas de permanência estudantil, só melhoram, como mostra a própria Folha.
FSP - 06/08/21
FSP - 06/08/21
FSP - 15/05/22
FSP - 15/05/22
É claro que a ladainha de quem defende o fim das universidades públicas não para aí, pois, como tudo que é público no Brasil, as universidades são consideradas cara e ineficientes.
Editorial da FSP - 02/06/22
Editorial da FSP - 02/06/22
Temos duas questões muito sérias a tratar sobre isso.
Primeiro que não é possível fazer uma conta fria somando o quanto as universidades gastam e dividindo por quantos diplomas imprime e dizer que qualquer mensalidade da rede privada é mais barata.
A universidade pública se sustenta em um tripé de ensino, pesquisa e extensão. Isso quer dizer que essas instituições não são meras fábricas de produzir profissionais. Ainda que se reduzisse a função ao ensino, a universidade investe muito em permanência estudantil que nada mais é do que dar condições financeiras para que os alunos de baixa renda possam se dedicar de fato ao ensino. Parece mais do que óbvio que não basta abrir as portas da universidade se os alunos, por não terem nascido em famílias com condições financeiras favoráveis, não têm como como se dedicar ao aprendizado.
Além disso, no Brasil não temos a cultura de investimento privado em pesquisa e ciência, ou seja, sem as universidades ficaríamos mais ainda a mercê da importação de tecnologia.
Por fim, assim como a pesquisa e o ensino beneficiam a sociedade como um todo, há a prestação de serviços públicos à comunidade por meio dos programas de extensão universitárias (tratamentos de saúde, assistência jurídica, melhoria de plantio, planejamento urbano, entre outras milhares de atividades).
Ou seja, mesmo quem nunca nem visitou uma universidade pública já foi beneficiado indiretamente por ela.
Ainda é importante considerar a questão filosófica que envolve a conversão da universidade pública em uma prestadora de serviços educacionais pagos.
Se por um lado não faz sentido a ideia do aumento da cobrança por qualidade, até porque já existe uma cobrança imensa, mudar a relação de pública para comercial destrói toda a concepção de ensino como um mecanismo de formação de transformação.
Sim, as pessoas vão para as universidade para se formarem médicos, advogados, etc e ter ascensão social. Mas esse não pode ser o centro da conversa. Elas vão para passar por um processo de imersão e transformação dentro de uma área acadêmica e, com sorte, participar da evolução contínua da ciência que decidiram se dedicar.
Por isso que ideias como a da deputada Tabata Amaral (PSB), endossadas pela Folha, por mais que parecem tentadoras, criam essa expectativa errônea de uma ligação direta entre aprendizado e dinheiro.
Editorial da FSP - 02/06/22
Editorial da FSP - 02/06/22
Sim, as universidade públicas tem problemas infinitos e conseguiram cristalizar uma má fama, poderia passar semanas detalhando tudo que há de errado, mas a questão central é que esses problemas não passam pelo fato de ela ser pública.
Fora isso, se há o desejo da sociedade de engordar o orçamento das Universidades para que elas sigam melhorando, já existem mecanismos que não passam pela cobrança de boletos, como os Fundos Patrimoniais, blocos de dinheiro doados às universidade cujos apenas os rendimentos podem ser usados de forma a ter um crescimento perpétuo do fundo. Se os ricos estão tão afoitos para recompensar as universidades pelo trabalho prestado ao país, o caminho da doação está cada vez mais profissionalizado.
Mas e o Marx
Só para concluir, a Folha (puta que pariu Folha, aliás eu pago para ler isso e vocês não melhoram, o que já refuta a ideia de que basta algo ser pago que ele será excelente) meteu um:
Editorial da FSP - 02/06/22
Editorial da FSP - 02/06/22
Vou ter que recorrer a um artigo científico escrito por uma egressa da universidade pública para não deixar essa bobagem no ar. (Carolina de Roig Catini - A Crítica à Educação em Marx: discussões sobre a Educação e Trabalho na teoria marxiana)
Se você olhar bem, o que Marx defende é, na verdade, o modelo que temos hoje de autonomia didática, científica e financeira das universidades, algo que muita gente saliva tanto de desejo para por fim que acaba falando besteira.
Enquanto isso, o jovem
Ronaldo Lemos FSP 30/05/22
Ronaldo Lemos FSP 30/05/22
Ou seja, o mundo já está tão errado, para quem está chegando nele todo tipo de estrutura é importante, mesmo conceitos etéreos como não mercantilizar a cultura e a educação.
Ideias roubadas
Ronaldo Lemos FSP 30/05/22
Ronaldo Lemos FSP 30/05/22
Pintores
Vamos ao que interessa: Egon Schiele. Se você só viu as imagens que eu separei nas edições #48 e #49 não deve ter ainda a dimensão dos trabalhos que tornaram Schiele um dos grandes expoentes do expressionismo. Então essa semana trouxe obras mais no estilo do que as pessoas lembram quando falamos desse artista.
Esse é um trabalho interessante para mostrar que a arte figurativa não necessariamente é realista. Tudo que está aí são figuras reconhecíveis, tem uma estrutura anatômica com uma distorção própria, mas um enfoque direto na função estética dos elementos. Em particular eu gosto do como esses recortes brancos, que são puramente gráficos, se destacam em contraste com o predomínio do vermelho.
É fantástico ver, também, como o Schiele raramente abandona um enfoque no desenho. Por mais que ele crie distorções, ele sempre está buscando uma construção de planos visuais e volume.
Separei essa imagem por que pouco se fala em paisagens no trabalho de Schiele e porque é muito curiosa a escolha dele de cores e pinceladas. Ele não se preocupa em criar nenhum efeito visual que faça com que esse meio remeta a água, mas, ao mesmo tempo, ele respeita muitas regras de luz, sombra, perspectiva.
Precisava incluir uma pornografia na seleção, porque o nome de Schiele sempre é muito ligado a erotização tanto na obra quanto na vida polêmica.
Por fim, esse quadro fantástico. A profundidade emocional gerada pela postura do personagem é linda e esse desenho sugerido pelas duas linhas “abandonadas” na parte de baixo da imagem cria uma força visual muito interessante.
P.S.
Obrigado a quem se inscreveu e leu.
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Abraços e até a próxima.
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Zé Oliboni

Durante a semana eu junto uma série de notícias que me chamam atenção, comento e mando para você. Falo também de pintura, literatura, cultura pop e mais alguns temas que surgem no caminho.

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