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Caderno de Recortes #49 - padrão americano de qualidade/Egon Schiele

Caderno de Recortes #49 - padrão americano de qualidade/Egon Schiele
Por Zé Oliboni • Edição Nº49 • Ver na web
Tudo certo por aí?

Tudo menos salário
Eu sei que esse é um tema recorrente nessa newsletter (edição #48 e edição #36) e veja, não é um problema pessoal, porque eu nem posso reclamar do meu salário, mas o fato é que as grandes empresas tem um hábito peculiar de nunca ter orçamento quando se trata de pagar algo decente para quem trabalha para eles.
FSP 24/05/22
FSP 24/05/22
E por que salários são tão importantes? Simplesmente porque a nossa sociedade capitalista foi estruturada em conceitos jurídicos e filosóficos que giram em torno do direito inviolável a propriedade. Ou seja, você só faz parte do jogo de verdade se possui algo e você só possui algo se ganha o suficiente para suprir suas necessidades básicas e para ter um valor “excedente” que lhe dá a real liberdade de decidir o que fazer com ele. Infelizmente nesse momento quem é obrigado a gastar tudo que ganha apenas na sobrevivência mais elementar está em um grupo paradoxal que, ao mesmo tempo, tem sorte de pelo menos não passar necessidade, mas não tem direito a decidir nada sobre sua evolução patrimonial.
Ideias roubadas
Joaquim Falcão - FSP 22/05/22
Joaquim Falcão - FSP 22/05/22
Ideias roubadas
"Lugares que eu posso frequentar e ainda me sentir seguro na América" - Tira de Stephan Pastis
"Lugares que eu posso frequentar e ainda me sentir seguro na América" - Tira de Stephan Pastis
Nem lá nos EUA
Esses dias foi feita uma análise sobre a qualidade do ar em SP e a nota da Cetesb sobre os parâmetros da OMS para níveis de poluição trazia esse argumento primoroso:
G1 26/05/22
G1 26/05/22
Essa obsessão dos brasileiros pelos EUA como ápice da sociedade moderna e como parâmetro para absolutamente tudo muitas vezes beira ao ridículo.
A situação fica ainda mais pitoresca por usarmos as piores ideias dos “americanos”.
Porque veja, estamos falando de um país que, por exemplo, cria teorias absurdas da conspiração como o QAnon.
Wikipedia
Wikipedia
Daí você pode dizer: que mal tem alguém acreditar que a terra é plana ou há uma rede de tráfico infantil comandada por Satanás nos porões de uma pizzaria?
De fato, algo tão absurdo pode parecer inofensivo, até uma ferramenta para separar da sociedade um pessoal que precisa urgente de um tratamento psiquiátrico.
Mas a situação complica quando pegam essas ideias completamente bizarras e as validam em rede nacional sob o olhar de jornalistas passivos.
Paul Krugman - FSP - 19/05/22
Paul Krugman - FSP - 19/05/22
Lúcia Guimarães - FSP 18/05/22
Lúcia Guimarães - FSP 18/05/22
Nem vou tratar sobre essas consequências diretas dessa teoria em um país em que os lunáticos tem acesso facilitado a todo tipo de arma, pois os massacres sucessivos falam por si só.
O que eu gostaria de chamar a atenção é que os EUA sempre foi tratado na sua formação cultural como um país construído por imigrantes para imigrantes. Na própria estátua da liberdade, símbolo máximo das lojas Havan, está esse texto:
Texto na estátua da liberdade
Texto na estátua da liberdade
O que mudou? Não dá para cravar uma única razão em uma situação tão complexo, mas olhem como era o perfil antigo dos imigrantes dos EUA e como é hoje:
Site da BBC https://www.bbc.com/portuguese/internacional-46385212
Site da BBC https://www.bbc.com/portuguese/internacional-46385212
No começo do século passado, a maior parte dos imigrantes vinha de países com predomínio de brancos, hoje a maioria esmagadora vem de países com um povo tradicionalmente não caucasiano.
Ou seja, supostamente fica mais fácil de escolher na multidão seus alvos e, com isso, a “grande substituição” está em perfeita sintonia com o racismo que já é muito forte no país.
E, se temos pessoas com uma presunção de credibilidade espalhando isso em vídeos com a chancela de uma rede tradicional de TV, a loucura vira ciência e o racismo e o genocídio passa a ser plenamente justificado e socialmente aceitável.
Nenhum americano precisa ter vergonha de xingar qualquer pessoa que não seja branca se o jornalismo em rede nacional não tem vergonha de dizer que essas mesmas pessoas fazem parte de um plano nefasto contra o país.
Sim, esse é o país que é o nosso parâmetro e sim, já temos veículos nacionais de comunicação como a Jovem Pan que espalham e validam teorias absurdas para todo o país.
Se é para conspirar
Maria Clara Abaurre - Jornal do Campus 19/12/21 http://www.jornaldocampus.usp.br/index.php/2021/12/parece-maluquice/
Maria Clara Abaurre - Jornal do Campus 19/12/21 http://www.jornaldocampus.usp.br/index.php/2021/12/parece-maluquice/
Já que gostamos tanto de copiar as ideias, quero propor uma teoria da conspiração para espalhar por aí:
Que as urnas eletrônicas estão fraudadas, todo mundo sabe. Nosso exército, com a tecnologia mais avançada do mundo, já provou isso.
O que ninguém quer que você saiba é que tem um jeito de vencer a urna eletrônica, reeleger o nosso capitão e provar que o povo está do lado bem. Preste atenção e corra avisar a todos, o número do Bolsonaro é e sempre foi 17. Então é hora de apertar 17/confirma de novo.
A urna está programada para enganar o povo e vai dizer que seu voto será anulado. Não acredite. Aperte 17 e confirma que deus fará o resto.
Pintores
Essa semana seguimos com imagens de Egon Schiele. Se por acaso esse é o primeiro contato seu com esse artista, é bem possível que você perceba uma diferença significativa entre as imagens da semana passada e essa. Vale dizer que essa semana ainda não chegamos no “auge” do estilo pelo qual Schiele ficou conhecido.
Esse é um ponto de transição do artista, ainda remete muito à estética do Klimt, mas já começa a dar sinais de uma anatomia mais estilizada e bem alongada que marca o trabalho do Schiele.
É interessante dizer sobre essas duas imagens que são aquarelas. Hoje construiu-se essa ideia da aquarela sempre transparente e ocupando a arte toda com suas fusões complexas, mas a técnica não se limita a isso e pode ser usada de forma mais opaca e quase sem as fusões e expansões de tinta.
Eu gosto muito dessa imagem. Primeiro a cor é linda, segundo tem essa jogadinha de contraste e recortes que forma uma iluminação absurda por trás da cabeça da menina e, por fim, temos as mãos bem distorcidas que marcam o trabalho do artista.
Eu gosto muito dessa linha de pensamento importado da pintura oriental com uma tendência a planificação da imagem que se mistura com a conceito mais europeu de tridimensionalidade e forma uma imagens que confunde o nosso olhar por parecer plana e ter volume ao mesmo tempo.
Esse é um autorretrato do Schiele, um dos que eu acho mais bonitos, aliás. De novo, há a questão das mãos e escolha de estilização anatômica e essa mistura do plano com o tridimensional. Algo que eu gosto muito aqui é essa marcação clara das linhas dando uma ênfase enorme na importância que o Schiele dava para o desenho.
P.S.
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Zé Oliboni

Durante a semana eu junto uma série de notícias que me chamam atenção, comento e mando para você. Falo também de pintura, literatura, cultura pop e mais alguns temas que surgem no caminho.

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Curadoria cuidadosa de Zé Oliboni via Revue.