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Caderno de Recortes #46 - 1/4 de vida/Antoon van Dyck

Caderno de Recortes #46 - 1/4 de vida/Antoon van Dyck
Por Zé Oliboni • Edição Nº46 • Ver na web
E aí pessoal? Tudo certo por aí? Espero que sim.

Ideias roubadas
Pedro Mairal - FSP 24/05/22
Pedro Mairal - FSP 24/05/22
1/4 de vida
Já tem pelo menos 20 anos que as pessoas passaram a falar muito sobre a chamada “crise de ¼ de vida” (em referência ao meio do caminho que ruma inexoravelmente para a “crise de meia idade”).
Esse é um tema que é muitas vezes relacionado aos “millenials” ou “geração Y” que entraram para a vida adulta nos futurísticos anos 2000. Inclusive, essa crise precoce é mais um dos elementos que passou a compor o imaginário de que essa é uma geração mais fraca, frágil, infantilizada e sem futuro.
Usando a cultura pop como termômetro é fácil lembrar como nos míticos anos 80/90 (cultuados a exaustão até hoje) havia uma série de filmes, livros e narrativas sobre a ruptura do trabalho como obrigação e uma cristalização da utopia de uma vida que só funcionava perfeitamente quando a pessoa fazia aquilo que gostava.
“Trabalhe com o que você ama”. “Quando se faz o que gosta tudo fica bom”.
E, de fato, uma conjuntura muito particular permitiu o surgimento de estilos de vida alternativos, novos tipos de trabalho, modelos de negócios de microescala, etc. O cenário parecia promissor para um retrofuturismo que abraçava tanto profissionais envolvidos em atividades quase ficcionais quanto um retorno às artesanais e as produções que nunca poderiam se converter para a larga escala.
O mito propagado até hoje é de que há espaço para tudo e que tudo pode funcionar.
É claro que logo ficou claro que a vida não era bem assim e a cultura pop começou a reproduzir uma versão mais depressiva e irônica dessa busca cheia de frustrações e fracassos.
Um exemplo curioso era o desenho Mission Hill do Adult Swim do Cartoon Network.
Mission Hill - Ep.1 - The Douchebag Aspect (HQ)
Mission Hill - Ep.1 - The Douchebag Aspect (HQ)
Quando uma parte considerável da Geração Y começou a encarar a realidade de que não era tão especial assim, de que poucas pessoas em condições muito específicas podiam de fato fazer o que gostavam ou mesmo trabalhar na área em que se formaram, a crise existencial se instalou como parte inerente do novo imaginário que contempla uma vida com os mais diversos tipos de medicações e vícios para ser tolerada.
É claro que a ideia da “busca da felicidade”, da recompensa pelo esforço, do “trabalhe pelo seu sonho para não trabalhar para o sonho dos outros” permanece no ar, mas, agora, tumultuada pela caricatura dos “coachs” e dos influenciadores.
Maria Homem - FSP 11/04/22
Maria Homem - FSP 11/04/22
E, agora, é a vez de uma geração nova enfrentar a mesma crise em uma versão potencializada.
FSP 29/04/22
FSP 29/04/22
O roteiro é o mesmo. A educação segue uma engrenagem perpétua em que se estuda para decorar conteúdos que permitirão marcar “X” nos locais corretos da prova que leva para a faculdade que entregará o certificado que suspostamente garantiria uma vida melhor aos 20 e poucos anos. Quando essa trajetória sai do prumo, a situação fica nebulosa e resta se entorpecer de vários modos para seguir a deriva enquanto algumas poucas pessoas nos iates gritam palavras de incentivo: eu consegui, se esforce que você também consegue. Ignorando o fato de que nunca haverá vagas para todos.
Só tem um ponto que é importante lembrar aqui. No geral, quando falamos de crise dos 25 anos partimos de uma visão bem de classe média, com uma família relativamente estruturada, o que permite que o jovem construa essa perspectiva de futuro.
O elemento central aqui é que a crise de um quarto de vida vem do esfarelamento dessa vida idealizada que o jovem construiu. Isso vale tanto para uma classe média alta, com a perspectiva de se manter nesse padrão de vida, quanto para a classe média baixa, que normalmente ambiciona subir a escada social.
O que pouco se fala na maioria dessas matérias é o ponto de vista da grande maioria pobre da sociedade.
No último mês tenho feito um estágio em uma escola pública. Não gosto de tirar conclusões observacionais porque elas tendem sempre a ser por demais limitadas. Mas, o que tenho visto são crianças que provavelmente não terão nem o luxo de viver uma crise existencial. São crianças de famílias desestruturadas, de poucos recursos que, antes mesmo do ensino médio já saem de casa às 6 horas para ir para a escola e voltam às 20h para dormir depois de passarem a tarde trabalhando. Pessoas sem perspectiva social alguma que não conseguem adquirir a menor base acadêmica. Têm dificuldade de compreensão de textos, não são capazes de fazer as multiplicações e divisões mais elementares e não tem a menor chance de formar um raciocínio abstrato.
É uma geração de crianças inteligentes e capazes que permanecerão na ignorância e terão poucas ou nenhuma chance de um emprego melhor.
Particularmente, dessa conversa toda, acho importante dizer que toda essa cultura de desmerecimento do trabalho como algo menor e do empreendedorismo como ápice da cultura capitalista, somado ao consumismo exacerbado e a invenção da necessidade de bens posicionais como medalhas de sucesso ajudam a compor esse cenário temeroso em que vivemos.
Isso faz parte desse caldo cultural que ajuda a sustentar o mito do bilhete premiado que permitiria a ascensão social enquanto a maioria esmagadora da população permanece sem chances de nem mesmo cultivar um sonho para ser destruído pela realidade.
Pintores
Vamos então para a última semana com Antoon van Dyck.
É muito interessante observar esse intercâmbio oriente x ocidente que faz parte da transformação da arte clássica europeia. Apesar de, em muitos casos, como esse, haver um lado meio fetichista, tempos depois os pintores europeus passam a integrar parte das técnicas orientais e começam a compor o caldo que formaria muito depois o design moderno. Ao mesmo tempo, a arte ocidental das academias se infiltraram e alteraram a pintura oriental. Sobre isso vale muito ler o romance Meu nome é vermelho.
Admiro muito a composição da cena desse retrato. Como a janela e a cortina ao fundo ajudam a construir a estrutura visual que sustenta o quadro.
De novo, dois estudos, um que foi até a parte da pintura e outro ainda no traço e na hachura para ajudar a entender como esses grandes mestres pensavam o desenho, a luz e as formas antes de chegar nos quadros que ficaram para a história.
Por fim uma dessas cenas fantásticas que mal dá para acreditar que é uma arte sacra. Dalila, por algum motivo deixou os peitos para fora enquanto cortavam o cabelo de Sansão. Piadas as parte, é interessante como Van Dyck tinha uma noção avançada de perspectiva e escorço que permitiam que ele montasse essas cenas com uma profundidade espacial bem interessante.
P.S.
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Zé Oliboni

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Curadoria cuidadosa de Zé Oliboni via Revue.