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Caderno de Recortes #44 - redes antissociais/Antoon van Dyck

Caderno de Recortes #44 - redes antissociais/Antoon van Dyck
Por Zé Oliboni • Edição Nº44 • Ver na web
E aí, pessoal? Como estamos na expectativa dessa não-semana espremida entre dois feriados? Aliás esse espaço antitemporal representa bem o não-ano que vem por aí. Um lapso de tempo em que temos que entender como voltar a vida pós-covid ao mesmo tempo que o mundo político-econômico está prendendo a respiração até o cenário eleitoral se definir.

Estudos monocromáticos/Ref. fotos do Daido Moriyama na exposição no IMS/SP
Estudos monocromáticos/Ref. fotos do Daido Moriyama na exposição no IMS/SP
Ideias roubadas
Deirdre McCloskey - FSP 13/04/22
Deirdre McCloskey - FSP 13/04/22
Redes antissociais
Um dia desses, o jornal NY Times deixou escapar um comunicado aos seus jornalistas em que sugere que reduzam o uso do Twitter.
Maurício Stycer - UOL 07/04/22
Maurício Stycer - UOL 07/04/22
Logo vários comentaristas brasileiros correram para falar sobre como estão se afastando das redes sociais, como o twitter virou um ambiente tóxico, etc.
É impossível falar de internet sem abordar redes sociais. Em tese, as redes são fantásticas para conectar pessoas que, de outra forma, nunca saberiam da existência umas das outras. São o espaço ideal para a consolidação de nichos de mercados.
Além disso, são um meio de comunicação instantânea em massa. E é justamente esse ponto em que passaram de “ferramenta” para instrumento de deterioração social.
A comunicação breve e urgente gera ruídos, demanda formas simplificadas de pensamento e é um terreno fértil para a propagação de mentiras.
A lógica é simples e bruta: a mensagem tem que ser rápida, direta e engajadora. Isso fortalece o empobrecimento do discurso na medida em que o objetivo passa a não ser elaborar um pensamento e sim dispará-lo com a maior intensidade possível.
Um exemplo dessa deterioração cultural é a propagação de exposições chamadas de “experience”.
A ideia é escolher um tema, ou um artista, extrair toda a parte “chata” do contexto, do sentido daquele trabalho e da forma como ele se encaixa na história humana e investir com tudo nos chamados “ambientes instagramáveis” (no geral, cenários toscos para as pessoas tirarem fotos para suas redes sociais).
Eu me sinto um pouco dividido nesse ponto, porque, por um lado, isso pode ser uma porta de entrada. Contudo, na prática, o resultado são réplicas de baixa qualidade que podem fazer com que a pessoa passe a achar que não faz sentido ir a um museu, já que pode ver uma réplica com uma qualidade melhor no celular dela ou que só faz sentido ver algo ligado a arte que estiver dentro de um espetáculo de luzes piscantes. Isso quebra a conexão de artes que se manifestam em objeto físico e reduz o sentido delas.
Ao mesmo tempo, artistas como Leandro Erlich, exposto no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo, que desde os anos 90 produz uma obra sólida que leva o expectador a vivenciar uma ilusão reflexiva passam a ser resumidas como um passeio vazio.
Aliás, eu fui na exposição do Erlich, tem obras geniais e muito instigantes, além de uma coleção fantástica de pinturas que imaginam cartazes de filmes imaginários que dialogam diretamente com a obra dele. Recomendaria muito a exposição, mas temo que a brigada de pessoas em busca de uma foto possa ser um entrave.
Imagens do instagram do Eduardo Nasi
Imagens do instagram do Eduardo Nasi
Voltando às redes sociais, a outra faceta do problema é que esse tipo de comunicação mostra seu pior lado ao fomentar a agressividade, pois descobriu-se que o confronto é a chave do engajamento. O objetivo não é mais uma conversa, um encontro, uma troca, é um nocaute certeiro.
Agora, se o problema das redes se esgotasse naqueles polemistas ocos desesperados por público, a situação seria até tolerável. Basta se afastar dessa esfera e deixar os influencers e seus fãs lá nas bolhas ódio deles.
Mas a situação é muito mais grave, pois esses mecanismos se tornaram armas de manipulação, como foi revelado sobre o trabalho de agências que atuaram para desmobilizar uma manifestação contra os abusos trabalhistas do Ifood.
Clarissa Levy Agência Pública - 04/04/22
Clarissa Levy Agência Pública - 04/04/22
E, é claro, a beligerância virtual é um fenômeno global.
FSP /13/04/22
FSP /13/04/22
Tudo isso acontece em um momento crítico em que a mídia tradicional está cada vez mais precária e se expõe a situações como o próprio vazamento da mensagem do NYT sobre o twitter ou casos ainda mais patéticos, como a publicação pela Folha do obituário já pronto para a morte da rainha da Inglaterra que segue viva.
Estamos no centro de uma tormenta em um momento crucial da história política, podemos até escolher observar de longe, mas tudo indica que cedo ou tarde todos seremos atingidos.
O lobby poderoso da cultura
Cecília Machado - FSP 12/04/22
Cecília Machado - FSP 12/04/22
Acho engraçado alguém falar sobre um lobby da cultura como se o setor artístico fosse capaz de aprovar com a força do querer leis que permitem envenenar a população como faz o lobby do agronegócio.
Mas isso não vem ao caso, meu ponto aqui é que Cecília Machado se deu ao trabalho de escrever sobre como o financiamento da cultura está afundando o país e chega no belíssimo argumento de: para que reformar as salas de cinema se o streaming está aí?
São tantos erros que nem sei por onde começar. Nem preciso ressaltar o fato de que a TV já existia e exibia filmes antes da Netflix, ou seja, esse argumento rançoso tem um cheiro de mofo.
Agora, o fato de uma economista/professora não entender que ir ao cinema gera uma experiência e uma apreciação diferente de assistir o filme em uma TV, por melhor que seja o aparelho, me faz repensar se as redes sociais de fato empobreceram o debate ou se apenas repercutem um processo inexorável.
Pintores
Seguimos com as imagens do nosso clássico Antoon van Dyck.
Separei essa pintura porque ela destoa muito do conjunto da obra de Van Dyck. É uma paisagem, em aquarela e bem iluminada. É interessante para observar que a maioria dos artistas não se limita àquilo que o canonizou na história da arte.
Acho que esse quadro é um exemplo excelente dos excessos do barroco. Tudo é cheio de curvas e detalhes abundantes. Esse quadro ao vivo deve ser espetacular para ver o trabalho intenso do pintor de criar algo que vai quase além da realidade de tantos meandros.
Você pode até não ser religioso, mas essas imagens sacras tem o seu charme, principalmente em termos narrativos com essa escolha de composição com áreas de trevas e de luz.
Esse é uma versão um pouco diferente de um quadro da edição passada. É legal ir lá dar uma olhada e comparar um com o outro.
Esse é um quadro típico que ajuda a entender porque esse tom marrom terroso que envolve toda a figura leva até hoje o nome de Van Dyck.
P.S.
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Zé Oliboni

Durante a semana eu junto uma série de notícias que me chamam atenção, comento e mando para você. Falo também de pintura, literatura, cultura pop e mais alguns temas que surgem no caminho.

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Curadoria cuidadosa de Zé Oliboni via Revue.