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Caderno de Recortes #43 - lula à provençal/Antoon van Dyck

Caderno de Recortes #43 - lula à provençal/Antoon van Dyck
Por Zé Oliboni • Edição Nº43 • Ver na web
Oi pessoal, como vocês passaram a semana?
Seguimos com os estudos de aquarela no lugar dos recortes, por enquanto.

Ideias roubadas
Lenio Luiz Streck - FSP 04/04/22
Lenio Luiz Streck - FSP 04/04/22
O herói que precisamos
Vários amigos estão engajados nas redes na empreitada para tirar Bolsonaro e, como mostram as pesquisas, a melhor chance do país nesse sentido é a volta do Lula.
Lula vinha exibindo uma postura “moderada”, com acenos ao centro e a política tradicional. O principal gesto nesse sentido foi a retirada de Geraldo Alckmin do ostracismo em que havia se metido após ter naufragado na eleição passada e de ter perdido a influência que exercia no PSDB ao ser traído por João Doria.
A esquerda mais radical torce o nariz para o conhecido picolé de chuchu, mas Alckmin tem o seu valor por transmitir uma aura de estabilidade institucional.
Só que então, de repente, para o desespero desses amigos, Lula lembrou de onde veio e soltou algumas declarações.
FSP - 08/04/22
FSP - 08/04/22
Uol 06/04//22
Uol 06/04//22
De pronto começaram a falar que Lula não queria mais ser presidente, que estava dando munição ao inimigo.
O que eu achei mais curioso é o tanto que se preocuparam com: como vou defender o ex-presidente agora?
Sei que esse ano vai ser muito difícil, que essa eleição vai ser bem pior que a anterior. Mesmo quando falaram que o Bolsonaro estava acabado, olhando por cima da cerca da bolha ficava claro que há todo um contingente que não pensaria muito ao se deparar com “a escolha difícil” (proclamada pelo Estadão em 2018) e voltaria correndo para os braços do mito.
Sei que é importante, inclusive para a manutenção das estruturas democráticas do país, que Bolsonaro saia na próxima eleição.
Mas, para reconstruir o país não basta sequestrar votos com memes e falas suaves. O Brasil precisa de um ponto de inflexão social em que se repense o caminho que temos seguido. É urgente que a sociedade como um todo tenha consciência das premissas que têm norteado nossa (falta de) política pública, desse nosso retrocesso em busca do autoritarismo e dos valores arcaicos que não tem mais espaço no debate público.
Sem esse momento de catarse, não importa quem ganhará, pois não há como mudar nada sem avaliar e ver se estamos no ponto em que já aceitamos de fato que os rumos dos últimos anos foram um erro de percurso.
Já falei outras vezes por aqui que não sou militante, admiro muito quem é, mas não é algo que eu tenho em mim.
Contudo, tem um discurso no final da fase do Peter Capaldi como Doctor Who (seriado de ficção científica da BBC) que considero ser necessário nesse momento para todos que desejam batalhar por uma causa.
Abaixo tem a íntegra e o vídeo, porque a atuação do Capaldi é sensacional.
Vencer? Acha que é sobre isso? Eu não tento vencer. Não faço isso porque quero vencer alguém, ou porque odeio alguém ou porque quero culpar alguém. Não é pela diversão, Deus sabe que não é fácil. Não é porque funciona, isso dificilmente acontece. Faço o que faço pois é certo. Porque é decente. E acima de tudo, é generoso. Apenas isso. Apenas generoso. Se eu fugir hoje… boas pessoas irão morrer. Se eu ficar e lutar, alguns podem viver. Talvez não muitos ou por muito tempo. Talvez nada disso faça sentido. Mas é o melhor que posso fazer, então farei isso. E ficarei aqui fazendo isso até morrer. E vocês também vão morrer. Algum dia. Como será? Já pensaram nisso? Pelo que vocês morreriam? Quem eu sou é onde eu estou. E onde estou… é onde eu caio. Fique comigo. Essas pessoas estão apavoradas. Talvez possamos ajudar um pouco. Por que não? Apenas no final. Seja generosa.
(Tradução da legenda da série)
Essa frase em negrito é a minha preferida em todo o Doctor Who, mas ela funciona melhor em inglês “Who I am is where I stand… Where I stand is where I fall”. Stand tem um sentido duplo de ficar parado em um lugar e de defender esse lugar ou opiniões. Fall também pode ser traduzido como cair ou morrer, no caso morrer lutando por esse lugar/opiniões que ele defende.
"Where I Fall" Speech | The Doctor Falls | Doctor Who | BBC
"Where I Fall" Speech | The Doctor Falls | Doctor Who | BBC
Chegamos em um ponto tão crítico da história que lutar para ganhar não basta, é preciso saber porque se luta e acreditar de fato que isso é o melhor, se a gente mesmo não acreditar… que chance temos de convencer alguém.
Pintores
Vamos então para a pintura, mais precisamente para a era do Barroco e nas próximas semanas trarei uma seleção de obras do mestre Antoon van Dyck. Van Dyck é muito lembrado por ter uma cor terrosa de tinta batizada em sua homengem (Van Dyck Brown) e por ter um estilo de barba que leva o nome dele.
É interessante ver como o estilo vigente na época do Barroco envelheceu mal. Por mais que o quadro seja lindo como um todo, principalmente na composição e na luz que, com certeza, inspirou muitos artistas, o excesso de precisão nas cores e no desenho (repare como tudo é muito arredondado, quase sem estilizações) é algo que não interessa mais aos artistas há várias décadas.
Eu adoro como o pessoal da época do Van Dyck se aproveitava desses mitos gregos redescobertos pelo Renascentismo para fugir da temática monótona católica. Olha como ele se solta aí e como essa cena é complexa e cheia de pontos interessantes. Como não amar aquele sujeito ali no fundo soprando com toda a força as duas flautas?
Essa é uma pintura em um formato bem clássico, separei porque mostra como Van Dyck era um mestre na composição. O que era para ser um simples retrato, graças aquele movimento furtivo da mão que esconde algum papel ou tecido, se torna uma imagem e conta uma história que poderia encher um romance.
Eu adoro esses estudos menos pretenciosos com poses diferentes.
Por fim eu acho esse quadro maravilhoso em particular por esse “caminho” vermelho que a roupa forma sob o casaco.
P.S.
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Zé Oliboni

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Curadoria cuidadosa de Zé Oliboni via Revue.