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Caderno de Recortes #40 - quem tem amigos pode afundar o país e colocar a mão onde não deve/Aaron Shikler

Caderno de Recortes #40 - quem tem amigos pode afundar o país e colocar a mão onde não deve/Aaron Shikler
Por Zé Oliboni • Edição Nº40 • Ver na web
Quarenta edições dessa newsletter, achava que não ia chegar a tanto, mas parece que assunto não falta. Como vocês devem ter percebido, eu gosto muito de pintura, apesar de ser um péssimo pintor. Durante boa parte do último ano não pintei nada, quase não desenhei nada, os motivos são muitos, mas nenhum vem ao caso. Já que amanhã eu vou fazer um curso de pintura, resolvi fazer um estudo muito rápido para não chegar lá sem lembrar de nada do que eu aprendi. Então essa semana não tem ideias roubadas, só esse bem-te-vi que não é o meme.

Diga-me com quem andas...
Teve uma fase nos seriados e filmes em que se popularizaram personagens autodestrutivos, que brigavam com todos a sua volta e só triunfavam porque, no final, estavam certos. É o caso do protagonista da série House e outros tantos que seguiam esse ciclo de destruição.
Na vida real, quem queima todas as pontes no geral não tem para onde voltar e essa fala do deputado Olim da ALESP exemplifica bem isso.
Painel - FSP 15/03/22
Painel - FSP 15/03/22
É possível que o infame “Mamãe falei” tecnicamente nem possa ser enquadrado em nenhum crime, diferente de Fernando Cury que, diante de todos e em um ambiente filmado apalpou uma colega deputada. “Mamãe falei” está errado, em absolutamente tudo, mas chega a ser irônico o fato de que os colegas deputados nem disfarçam o fato de que quem tem bons relacionamentos, como Fernando Cury, pode se safar de boa de qualquer tipo de violência, enquanto quem não é “boa praça” pode ser cassado pelo simples fato de ter ideias imbecis.
Ambos os casos deveriam ser motivo para sumir com essas figuras na vida pública, mas, infelizmente, na política a pessoa pode realizar qualquer crime, pode falar o que quiser, pode ter a ideologia mais torpe de todas, desde que, como Fernando Cury, seja querido por todos.
Discalculia
Os economistas tem falado muito sobre o gás e o gasolina, mas esse tema, apesar de central em muitos aspectos, não é um parâmetro bom para avaliar a economia como um todo. Basta ver que, em 2016, quando a Dilma era o grande problema do Brasil, o petróleo era tão barato que diziam que a exploração do pré-sal era inviável.
https://www.dw.com/pt-br/petróleo-a-us-30-lança-dúvidas-sobre-viabilidade-do-pré-sal/a-18999597
https://www.dw.com/pt-br/petróleo-a-us-30-lança-dúvidas-sobre-viabilidade-do-pré-sal/a-18999597
Gráficos que comparam a renda com o poder de compra em um dado momento sempre são bem mais ilustrativos pois nivelam o jogo de uma forma interessante. Ainda mais se deixarmos a questão do combustível de lado por um momento e focarmos em algo muito mais crítico: a alimentação.
Gráfico de Vinicius Torres - FSP 13/03/22
Gráfico de Vinicius Torres - FSP 13/03/22
Tem dois pontos curiosos que eu quero destacar sobre esses gráficos. Um deles é o fato de que o salário mínimo ainda está muito longe de atender as necessidades mínimas de uma família. No auge o salário mínimo comprava um pouco mais do que duas cestas básicas, hoje, apesar de não estar no menor índice das duas últimas décadas, o salário mínimo não chega a bancar duas cestas básicas. Ou seja, se a pessoa paga uma alimentação básica, sobra menos da metade do salário para todas as outras despesas possíveis no decorrer de um mês.
A título de curiosidade, essa é a composição da cesta básica pelo DIEESE:
É bem curioso o fato de que definiram que algumas regiões do país precisam comer mais que outras.
É bem curioso o fato de que definiram que algumas regiões do país precisam comer mais que outras.
Agora o ponto mais interessante dos gráficos acima é que bem ou mal, o salário mínimo oscila próximo dessa média de 2 cestas básicas, ou seja, para quem recebe salário mínimo, em tese, pouco mudou.
Com isso em mente o segundo gráfico fica mais interessante, pois, se com a renda média da população já foi possível comprar mais de 5 cestas básicas e hoje essa renda média compra apenas 3 cestas e sobra um troquinho, fica claro que o que estamos assistindo é uma corrosão absurda da renda e o empobrecimento generalizado da população do país.
Quando isso acontece, é óbvio, quem tem menos entra em uma situação crítica muito mais rápido, mas a comoção nacional, como sempre, não domina o debate por causa de quem tem menos e, sim, porque o aperto chegou em quem se encontrava em uma patamar um pouco mais elevado de renda.
Um último detalhe sobre esse gráfico é que mesmo no fundo da crise econômica de 2015/2016, que instigou os bravos legisladores a derrubarem a Dilma para salvar o país, a renda média da população comprava mais alimentos do que hoje.
Pelo visto o problema da Dilma não era econômico. Talvez a questão foi apenas que, nas palavras do deputado estadual Olim, ela “não era querida por todos na câmara”, pelo menos não tanto quanto Fernando “apalpador” Cury.
E, se hoje a situação está pior do que quando a Dilma caiu, fica a questão: o que torna Bolsonaro tão querido entre os deputados?
Dois exemplos
Sobre o tema da corrosão da renda, seguem dois exemplos, por caminhos diferentes, que tem dificultado a vida de quem trabalha no Brasil.
Por um lado os preços sobem porque o agronegócio pensa primeiro em faturar no exterior com o dólar alto e depois em alimentar o país.
https://ojoioeotrigo.com.br 17/03/22
https://ojoioeotrigo.com.br 17/03/22
Por outro, a renda cai porque há uma desvalorização generalizada do trabalho. A lógica do empregador é que sempre está sobrando gente desesperada o suficiente para trabalhar por menos e, quando essa pessoa mal paga causa um problema, basta demitir e procurar alguém que aceite receber menos ainda.
FSP 17/03/22
FSP 17/03/22
É claro que o tecido social vem dando sinais de que não aguenta muito tempo nesse ritmo, como falei nessa edição passada.
Pintores
Normalmente eu separo para vocês os quadros menos populares de um pintor, mas Aaron Shikler, um pintor americano, é um caso a parte por vários motivos. Primeiro porque eu tenho uma obsessão em particular pelo quadro mais famoso dele, segundo que, por mais que tenha vivido por muito tempo, a maioria das pinturas dele fazem parte de coleções particulares, no geral das famílias que as encomendaram e são raras as imagens dos quadros dele na internet. Infelizmente também não há nenhum livro catalogando a obra dele de forma mais completa. Ainda assim, nas próximas semanas trarei o material que eu coletei desse artista e, essa semana, temos os quadros mais icônicos dele.
Aaron Shikler ficou conhecido por fazer o retrato oficial de John F. Kennedy para a Casa Branca. A pintura é um retrato póstumo e, sem dúvida, é o retrato mais peculiar e, na minha opinião, o mais bonito de toda a galeria de presidentes dos EUA. Além da postura reflexiva, soturna e fechada, diferente da maioria dos quadros do gênero, principalmente dos focados em figuras públicas, a escolha de Shikler de compor essa atmosfera em meio tom, sem cenário e com pinceladas gestuais bem marcadas cria toda uma potência para a imagem. É interessante como Kennedy está praticamente todo na sombra e como a figura vai ficando menos definida na parte inferior.
Foi Jacqueline Kennedy quem escolheu o pintor para retratar o marido falecido e Aaron também fez esse retrato pouco convencional dela. Apesar de transitar em uma paleta um pouco mais quente que a do JFK, ambos os retratos orbitam em uma faixa bem restrita de cores, são envoltos na escuridão e mantêm essa atmosfera misteriosa. Todas as escolhas dessa pintura remetem para uma época muito anterior à de Jackie, criando um retrato de um passado a que ela não pertenceu.
Em uma linha bem oposta, mas ainda mantendo certa singularidade, está esse retrato do presidente Ronald Reagan para a revista Time. De novo, as escolhas de Aaron de figurino, pose e o cenário abstrato chamam a atenção. O retrato de Reagan é muito mais luminoso e otimista do que o de JKF, mas, ainda assim, traz uma figura mais frágil e mais cotidiana do que o que é esperado no visual de um presidente de uma potência que se apresenta como uma liderança global.
Por fim, duas versões de Nancy Reagan. Uma com um visual mais popular, na mesma estética do retrato do marido dela e outra mais mais sombria, com uma figura alongada em um cenário atemporal.
P.S.
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Zé Oliboni

Durante a semana eu junto uma série de notícias que me chamam atenção, comento e mando para você. Falo também de pintura, literatura, cultura pop e mais alguns temas que surgem no caminho.

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Curadoria cuidadosa de Zé Oliboni via Revue.