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Caderno de Recortes #37 - Jabor/Lavagem de dinheiro/ Ilya Repin

Caderno de Recortes #37 - Jabor/Lavagem de dinheiro/ Ilya Repin
Por Zé Oliboni • Edição Nº37 • Ver na web
A cada hora que passa, sobra menos da Ucrânia e menos da suposta paz e ordem mundial. Nos últimos anos ouvimos a exaustão que as Instituições no Brasil estão funcionando. Acreditamos com certa desconfiança até porque, na Ucrânia, também se imaginava que as instituições internacionais estavam funcionando.

Ideias roubadas
Frase de Maria Homem/FSP 30/01/22
Frase de Maria Homem/FSP 30/01/22
Círculo completo
Nas últimas décadas, Jabor passou a ser visto mais como polemista do que cineasta. As inserções opinativas dele nos programas jornalísticos da Globo tinham cara de caça clique muito antes de as pessoas se interessarem por isso. O comentário rápido, contundente, performático que hoje domina o discurso público das redes sociais são uma cacofonia derivada do que pessoas como Jabor fizeram nas frestas da grande mídia no passado. Óbvio, nada disso é culpa dele, óbvio, Jabor será sempre lembrado por muito mais que isso.
Não sou um fã em especial dele, mas gostaria de destacar dois trechos da coluna da Fernanda Torres sobre o Jabor.
Fernanda Torres - FSP 15/02/22
Fernanda Torres - FSP 15/02/22
Fernanda Torres - FSP 15/02/22
Fernanda Torres - FSP 15/02/22
Sorte no azar
FSP 23/02/2022
FSP 23/02/2022
O fato de a legalização dos jogos ter sido desenterrada bem agora é um tanto curioso, mas não surpreendente.
A legalização aumenta a receita com impostos, já que cria um imposto específico para a operação e os prêmios são tributados pelo Imposto de Renda. Teoricamente aumenta o turismo, que também aumenta os impostos. Cria todo um licenciamento e concessões que serão vendidas (mais arrecadação) e uma nova estatal para gerenciar isso, o que cria mais cargos de comissão para os políticos negociarem.
E, além disso, beneficia o crime organizado e todos que precisam lavar dinheiro (e vamos combinar que muito políticos precisam de especialistas para lavar dinheiro).
O arte da lavagem de dinheiro é algo muito interessante.
Alguém que comete crimes com frequência (seja tráfico, extorsão, corrupção, rachadinha, etc) tem um fluxo grande de dinheiro sem origem oficial. Isso passa a ser um problema quando a pessoa precisa comprar uma mansão, um carro ou qualquer bem registrado que chame a atenção. É um problema tão grande para algumas pessoas que elas se dispõe a pagar impostos e uma taxa considerável para quem tem empresas de fachadas que oferecem esse serviço. É claro que empresas fantasmas funcionam, mas são relativamente fáceis de serem descobertas, o que aumenta os riscos.
Agora pense na estrutura de um cassino. Há uma entrada de dinheiro sem grandes controles, você pode registrar centenas ou milhares de apostas fantasmas a depender do tamanho da empresa, pode superfaturar contas dos restaurantes dentro do cassino e toda essa estrutura ilegal pode ser comandada de forma paralela por poucas pessoas, sem que todos os funcionários saibam. Enfim, é o lugar perfeito para malas dinheiro sujo entrarem por uma porta e serem registrados com todo o rigor contábil que qualquer fiscalização pode exigir.
Você poderia me dizer que isso é verdade para qualquer negócio. Em termos sim. Mas, peguemos um exemplo aleatório, uma loja de chocolates. Você pode inventar receitas, mas precisaria inventar uma movimentação de estoque muito grande para justificar isso já que as margens para esse negócio são bem padronizadas, se for uma franquia então… Óbvio que isso é uma hipótese pouco plausível, porque só um imbecil lavaria dinheiro assim.
Assim, por um lado, a lavagem de dinheiro está ligada a facilidade de entrada de dinheiro e à margens de lucro obscenas e variáveis. Um restaurante de luxo, por exemplo, é um lugar mais razoável para lavar dinheiro, mas a operação tem que parecer funcional o bastante para justificar a movimentação financeira.
Agora, por outro lado, o dinheiro precisa de um mecanismo funcional de saída. Pode ser o lucro da operação, pode ser o aluguel superfaturado do imóvel onde está o negócio, mas, tudo isso faz que a pessoa tenha que ficar ligada de forma mais ou menos permanente àquela empreitada real, o que pode não ser tão bom para um sujeito que só de vez em quanto obtém alguns valores vultosos.
Nesse ponto, o cassino é muito vantajoso. Um militar da reserva pode entrar com a sua mala de dinheiro e sair com o pagamento por uma consultoria de segurança muito cara. O mesmo vale para médicos, advogados e demais prestadores de serviços. E, se o caso for muito urgente, sempre a pessoa que entrou pela porta dos fundos pode sair pela frente como o grande sortudo que apostou um único real e ganhou alguns milhões naquela noite. Não dá para fazer isso sempre, mas, a gente sabe que o jogo é um vício, então o “sortudo” pode reincidir eventualmente.
Enfim, há infinitos motivos para odiarmos a volta dos cassinos. Moralidade, preocupação com as finanças dos jogadores compulsivos e, como eu já citei, a abertura de mais um ramo prolífero para a lavagem de dinheiro.
Assim esse é mais um atestado de que essa gestão atual da Câmara é uma das piores dos últimos 30 anos, capaz de defender alimentos com mais veneno e qualquer outro lobby sem sentido que vier pela frente.
Ah, é claro, tem a bancada evangélica que foi contra. As igrejas são o último bastião da moral nesse país e querem evitar a proliferação de antros em que as pessoas entram e deixam uma quantia não rastreável de dinheiro. Nunca é bom alimentar a concorrência.
Círculo completo 2
A política no Brasil é muito curiosa. Em 1989, Guilherme Affif Domingos concorreu a presidência pelo PL contra Lula, do PT. Um dos assessores econômicos de Affif era, ninguém menos que Paulo Guedes. Curiosamente ambos tinham um projeto para combater a inflação e criar um “colchão social”, algo parecido com o Auxílio Brasil.
Em 2010, Affif foi vice-governador de São Paulo na gestão de Geraldo Alckmin.
Agora, em 2022, Alckmin que, já fora do PSDB, será (até o momento) vice de Lula, que segue no PT, e disputarão contra Bolsonaro, agora no PL, que antes abrigou Affif e Guedes.
O mundo gira, o Brasil capota.
Pintores
Sigo nas próximas semanas trazendo os trabalhos de Ilya Repin, o pintor ucraniano que foi anexado pela história da arte russa.
Sempre acho muito importante ver estudos e esboços dos pintores. Essas três imagens mostram etapas diferentes do processo do Repin, um lápis que que já tem todo o contraste da imagem resolvido, um estudo de cabeças em diversas posições e um quadro praticamente acabado.
As escolhas nessa imagem são impressionantes. Primeiro as pinceladas bem marcadas com esse ar impressionista e, segundo, a escolha do recorte da luz que deixou a figura praticamente inteira na sombra destacando apenas as mãos.
Separei esse quadro porque é assustador o quanto ele parece atual. A escolha das cores, o enquadramento, o gestual das pinceladas, parece um frame de um filme alternativo contemporâneo.
P.S.
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Zé Oliboni

Durante a semana eu junto uma série de notícias que me chamam atenção, comento e mando para você. Falo também de pintura, literatura, cultura pop e mais alguns temas que surgem no caminho.

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Curadoria cuidadosa de Zé Oliboni via Revue.