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Caderno de Recortes #26 - lusofobia/centro político/Van Gogh

Caderno de Recortes #26 - lusofobia/centro político/Van Gogh
Por Zé Oliboni • Edição Nº26 • Ver na web
E aí? Como vocês vão?
Hoje vou inverter um pouco a ordem e já agradecer de pronto a todos que têm lido essa newsletter e compartilhado com os amigos. Agradeço também o pessoal que sempre me manda e-mails comentando os textos. Quem quiser mandar seu texto para ser publicado em edições futuras, também fique a vontade.

Ideias roubadas
Frase de Gonzalo Vecina
Frase de Gonzalo Vecina
Lusofobia
No Brasil a gente se esforçou para se adaptar ao novo acordo ortográfico seguindo uma promessa de que isso unificaria a língua portuguesa em todos os países, decoramos regras novas para acentos, hifens e tudo mais enquanto Portugal se manteve inerte com seus “factos” e demais peculiaridades.
Agora é a hora da vingança. Melhores do que qualquer embaixador, nossos youtubers tomaram Portugal de assalto.
A matéria no jornal português é hilária. Recomendo a leitura aqui https://www.dn.pt/sociedade/ha-criancas-portuguesas-que-so-falam-brasileiro-14292845.html
Ideias roubadas
Charge de João Montanaro - 1/11/21 FSP
Charge de João Montanaro - 1/11/21 FSP
Centrão é política?
A preocupação lusitana com a língua é, de fato, muito importante. Por isso temos que começar a nos reeducar e é preciso retomar o significado de alguns termos.
Desde a “lava-jato” e a ascensão dos “outsiders” da política como solução mágica (Dória, Witzel, Moro entre outros), o termo política se desviou do significado real e passou a ser visto como um adjetivo para tudo que há de errado na administração pública.
O que se entende hoje por política é, na verdade, algo que deveria ser chamado de corrupção. As negociatas com emendas secretas e cargos em troca de voto para aprovações de pautas diversas que não têm como objetivo principal o bem da população não pode ser classificado dentro do termo política. O mesmo vale para os membros do tal “centrão”, com quem o presidente se sentiu sempre tão a vontade que está prestes a se filiar a um desses partidos.
FSP 09/11/21
FSP 09/11/21
Ao ler essa resposta de Bolsonaro muitos podem pensar que ele disse isso por ser de “direita” enquanto o PSOL é um partido de esquerda. Mas aí temos outro erro de terminologia. Bolsonaro não é de direita, não é liberal, não é conservador. Bolsonaro não é só um presidente sem partido, é um presidente sem ideologia, alguém que se usou de alguns termos que não sabia nem pronunciar para tentar aglutinar votos e, quando posto a frente da máquina pública, se mostrou um extremista vazio. E é justamente esse vazio que o faz caber tão bem no conglomerado de partidos do “centrão”, pois eles, assim como o presidente, não têm um plano de governo, não têm um projeto político, não têm um objetivo social, são apenas dragas que grudaram no sistema de governo e pendem para o lado que pagar mais.
E é justamente por isso que Bolsonaro não pode conversar com o PSOL.
O PSOL é um dos poucos partidos no Brasil que tem uma ideologia bem definida e apresentada com clareza para os eleitores. O mesmo acontece, do outro lado do espectro, com o Novo, que também é um partido que se organizou com objetivos políticos claros.
Infelizmente, no jogo partidário do Brasileiro, isso é a exceção. Contamos hoje com 33 partidos oficiais e, entre eles 26 não possuem no seu estatuto uma definição clara de espectro político. A Folha de S. Paulo classifica 17 partidos como “centro fisiológico”.
E, como acompanhamos essa semana na Câmara Municipal de São Paulo, a governança a base de trocas e ameaças está em todas esferas do país.
Foto da polícia avançando para cima de manifestantes na frente da Câmara municipal
Foto da polícia avançando para cima de manifestantes na frente da Câmara municipal
Essa falta de indefinição política gera fissuras graves que explicam, em grande parte, como chegamos aqui e o quanto vai ser difícil sair desse buraco.
Você pode dizer: “mas eu votei em um político que tem uma linha política bem definida”, como os membros do Renova BR (por exemplo a Tabata Amaral) ou algum membro do MBL.
E sim, o MBL, por exemplo, é praticamente um partido clandestino. Goste ou não, os membros do movimento tem uma ideologia bem definida, debatem política e tentam deixar clara a linha de atuação deles. Contudo, como nossas eleições legislativas são proporcionais, quando um membro popular do MBL entra em um partido oficial sem ideologia que lhe garante liberdade total, essa pessoa de ideias claras atua como puxador de votos para uma série de outros deputados ou vereadores do partido. Passada a eleição, o espertão do MBL é deixado de escanteio pelo partido e os candidatos que foram eleitos a reboque seguem praticando justamente o que o movimento diz combater.
Por isso que é justa a reação da vereadora Erika Hilton, que milita com uma pauta bem definida dentro do escopo de ideias do PSOL.
Antes de encerrar é preciso dizer que não importa se você é de direita, de esquerda, liberal ou conservador. É válido que existam todos os espectros de ideias presentes na sociedade para gerar um equilíbrio e um lado corrigir as aparas do outro. O que importa é ter em mente que a política não é o problema, o espectro político não é o problema e os partidos não são o problema.
O que tem nos derrubado são partidos que não estão no espectro político real, que não jogam limpo na democracia e só servem como uma massa amorfa manipuladora. Além disso, em um jogo que é feito para representar a coletividade, esses “lobos solitários”, que até uivam alto mas não se inserem nas matilhas, só bagunçam o tabuleiro. (Aliás esse será o papel do Moro, que não tem envergadura para ganhar uma eleição majoritária, mas, com certeza, atrairá votos para o partido fisiológico a que ele se filiou)
Pintores
Seguindo a série iniciada na edição passada, selecionei mais alguns quadros do Van Gogh para tentar entender a produção desse pintor que é tão lembrado dentro da história da arte ocidental.
Esse quadro me chamou muito a atenção pela força da expressão.
É um quadro que não tem um contraste marcante, não tem nada de especial na paleta de cor, não avança muito no realismo, deixando uma estilização tanto no desenho quanto nas pinceladas grossas, mas, mesmo assim, é cativante por conta do olhar peculiar que foi retratado.
Eu gostei muito da complexidade dessa cena. É praticamente uma ilustração de revista. É interessante como o Van Gogh era capaz de se conter nas pinceladas marcadas e produzir um trabalho tão preciso.
Esses retratos mais antigos do Van Gogh são muito interessantes porque ele já tinha essas pinceladas largas e marcadas que davam vida, movimento e volume a pintura, mas ainda trabalhava com uma composição bem clássica.
Eu adoro esses estudos que o Van Gogh fazia de caveiras. É um exercício muito interessante de iluminação e anatomia, fora o charme desse cigarro.
Muito antes dos girassóis famosos, Van Gogh já pintava plantas. Um detalhe bem interessante é que o fundo, a mesa e o vaso foram construídos de forma a deixar claro que isso é uma pintura, uma sobreposição de manchas diferentes retangulares que montam o ambiente em que essa folhagem um pouco mais realista do que o seu entorno se assenta.
P.S.
Obrigado (de novo) a quem se inscreveu e leu.
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Abraços e até a próxima.
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Zé Oliboni

Durante a semana eu junto uma série de notícias que me chamam atenção, comento e mando para você. Falo também de pintura, literatura, cultura pop e mais alguns temas que surgem no caminho.

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Curadoria cuidadosa de Zé Oliboni via Revue.