Caderno de Recortes #25- militância/falta de dinheiro/Van Gogh

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Caderno de Recortes #25- militância/falta de dinheiro/Van Gogh
Por Zé Oliboni • Edição Nº25 • Ver na web
Não sei se é impressão minha, não sei se eu não prestei tanta atenção no mundo, não sei se é por causa do feriado, mas parece que a semana foi menos cheia de turbulências. Espero que a sua também tenha sido.

Ideias roubadas
Frase de Silvio Almeida - FSP 28/10/21
Frase de Silvio Almeida - FSP 28/10/21
Militância
Semana passada um amigo que lê essa newsletter me mandou um e-mail comentado sobre como a bizarrice extrema dos últimos tempos o faz se posicionar de forma até contrária a ideias que ele sempre teve porque é difícil apresentar uma argumentação mais complexa e alternativa a dicotomia imposta pois, antes de sermos razoáveis, somos obrigados a afastar a barbárie.
Apesar do que pode parecer para quem lê essa newsletter, não sou, nem nunca fui militante. Não tenho esse impulso catequizante que é necessário para mergulhar na espiral sem fim do mundo das lutas por uma causa.
Mas sou, e desejaria que todos fossem, preocupado com o ser humano, com a comunidade como um todo.
Para ilustrar esse ponto de vista, sempre recorro a um livro chamado A ausência que seremos. Essa publicação de Héctor Abad nos apresenta à história fascinante do pai dele, um médico sanitarista da Colômbia.
O dr. Abad, pelo menos na visão do filho, não era exatamente uma pessoa de esquerda. Ele era, antes de tudo, um humanista. Entendia que o saneamento básico nas áreas pobres e uma garantia mínima de alimentação poderia salvar mais vidas do que todos os médicos da Colômbia juntos.
É uma história linda, delicada e fascinante sobre a preocupação com os outros. O livro não é tão fácil de achar, a Cia das Letras parece que não reeditou, mas ainda aparecem algumas edições nesse link. Na falta dele, a Netflix liberou uma adaptação em filme de A ausência que seremos. Acho que o livro é mais bonito, mas, de qualquer forma, é interessante conhecer a história desse personagem que tangenciou a política porque era preocupado demais com a vida.
(pra quem se interessar, tem uma resenha antiga do livro no meu canal)
A ausência que seremos - dica de livro
A ausência que seremos - dica de livro
O teto e a fome
A PEC que permite o governo Bolsonaro declarar a moratória dos precatórios acabando com o teto de gastos e armando uma bomba relógio para os próximos anos está praticamente aprovada.
Arthur Lira, sempre ele, atropelou todas as regras, ameaçou quem pode e fez a votação andar a contento.
Primeiro, como o dr. Abad nos ensinou, a fome mata mais do que qualquer doença. Um auxílio é necessário e urgente e o bolsa família deveria ter sido mantido e ampliado.
Segundo, o Teto de Gastos criado por Temer é um erro para um país que tem tantos problemas sociais como o Brasil e que depende de um Estado bem estruturado com políticas públicas claras e funcionais para manter o povo vivo. Sim, o Brasil gasta mal seus recursos públicos e, sim, esse dinheiro é usado muitas vezes para fins eleitoreiros. Mas limitar o gasto não é a resposta correta quando o que é preciso melhorar a eficácia do Estado.
Juntando essas duas premissas parece que o consórcio Bolsonaro/Centrão está pensando no bem do país. Quer dar dinheiro aos pobres e quer tirar o Teto da frente.
O problema é que por trás dessa cortina tem uma série de questões que estão sendo ignoradas.
Ao aprovar a PEC, o Centrão não está pensando no Auxílio Brasil. O que está em jogo aqui são as famosas “emendas” do orçamento, o fundo eleitoral e as infinitas benesses que está abastecendo o cofre desses políticos sem nome.
Ao declarar a moratória, porque sim, na prática é isso que está sendo feito, o Centrão afirma: podemos até dar dinheiro aos miseráveis, desde que a minha parte (que é sempre bem maior) seja paga antes.
Não é a toa que os partidos sólidos e que tem um linha programática bem definida foram os únicos que se posicionaram contra a PEC. Esses partidos querem que o povo seja atendido, mas que seja atendido primeiro. Que a lógica do orçamento seja: garantir a vida da população, pagar as dívidas para a economia não implodir e, se sobrar, deixar um troco para as emendas e o que mais a politicagem pede.
O país tem que servir ao povo e não a essa casta de políticos cujo único programa de governo é garantir o seu antes de todos.
A título de curiosidade, segue o infográfico da Folha que mostra os partidos que votaram junto com Lira.
A raiz de todos os males
Aliás, ainda falando sobre como a pobreza é uma questão de saúde pública. Mesmo para quem ainda tem trabalho no Brasil, a situação financeira está complicada.
FSP 30/10/21
FSP 30/10/21
Se a gente pensar que vários dos outros problemas de saúde listados podem ter também a sua raiz nas preocupações financeiras, vemos que essa cultura que vivemos de produção, precarização e consumo está fazendo as pessoas definharem.
Os salários precisam ser mais justos, o acúmulo de riqueza precisa ser contido, e, individualmente, também temos que passar a consumir de forma mais consciente e não deixar que se perpetue a cultura de quem tem um carro, uma roupa ou um celular caro é melhor do que qualquer outra pessoa, pois essa lógica se validar pelo que se tem faz as pessoas mais doentes e mais propensas a cair nas mãos de golpistas de todos os tipos.
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Pintores
Nas próximas semanas vou falar de Vincent van Gogh.
Van Gogh é um pintor que foi analisado por muitos ângulos. Graças ao irmão dele, o acervo da vida desse artista compulsivo foi preservado, incluindo as cartas que Vincent mandava para o irmão, que nos dão uma noção de como funcionava a mente dele.
Tem filmes, tem livros, tem até debate sobre a morte do artista. Ele foi uma pessoa singular em muitos sentidos e já falei um pouco sobre isso nesse vídeo do meu canal.
A Arte de Vincent Van Gogh
A Arte de Vincent Van Gogh
Mas, nas próximas semanas, vou tentar trazer trazer um lado menos óbvio desse artista. Fiz uma seleção em ordem cronológica para tentar seguir a trajetória de construção e desconstrução desse pintor.
Esse é um pequeno estudo em aquarela feito por Van Gogh. Separei essa pintura para mostrar essa visão peculiar que ele tinha das pessoas comuns que ele gostava de retratar. É interessante notar que, apesar da técnica preferida dele ser óleo, ele tinha um domínio considerável da aquarela e uma habilidade interessante na construção de manchas transparentes.
Esse é um quadro muito singelo mas muito bonito. É aquarela e gouache, então ainda preserva um pouco de manchas transparentes, mas já tem uma tinta mais densa para os recortes. Eu gosto de como ele fez as formas e as cores bem simplificadas. É uma pintura realista que se atem ao essencial.
Aqui já vamos para a pintura a óleo. É muito interessante notar como a temática do Van Gogh tem uma melancolia inerente tanto na escolha da cena como na seleção das cores.
Algo importante de dizer é que boa parte do trabalho do Van Gogh eram estudos que ele fazia em um processo obsessivo de melhorar na pintura, de encontrar sua forma de representar o que ele via. Parecem imagens simples, mas elas revelam uma curva muito complexa de aprendizado das técnicas vigentes na época e junção disso com estilo próprio dele de aplicar a tinta na tela.
Eu acho esse quadro particularmente lindo. Ele é intenso visualmente, profundo na melancolia, simples no desenho. É um trabalho impressionista mas que parece atemporal. Em um primeiro olhar pode não lembrar uma obra característica do Van Gogh, mas, se você olhar bem para o desenho da torre que desponta na linha do horizonte e pensar nas imagens que vêm a sua mente quando pensa nesse pintor, vai encontrar o desenho único de contornos curvilíneos e cheios de movimento que ele fazia.
P.S.
Obrigado a quem se inscreveu e leu.
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Zé Oliboni

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