Caderno de Recortes #24 - Temer e a casa das ideias absurdas/Davi Calil

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Zé Oliboni
Zé Oliboni
Oi, tudo bem? A ideia central dessa newsletter é ser uma reunião de recortes de textos e imagens que me chamaram atenção. Imagino que muitas pessoas não se dão ao trabalho de ler um artigo do Temer, acho justo. Contudo, estou aqui para colocar uma lupa naqueles detalhes mais sórdidos de textos. Não é fácil ver como certas pessoas pensam, mas é importante, então convido você a se revoltar comigo e a compartilhar essa revolta com os amigos.
Como sempre, no final eu ofereço um alívio para as suas retinas fatigadas, prometo.

Ideias Roubadas
Frase de Maria Homem - FSP 24/10/21
Frase de Maria Homem - FSP 24/10/21
Nada a Temer
Dizer que o ex-vice presidente é polêmico é um erro. Para ser polêmico seria preciso que a conduta dele gerasse debate ou dúvida, mas ninguém é mais transparente e direto do que Temer.
Político fisiologista, sempre grudado a quem estivesse por cima da carniça, se aproveitou de um momento crítico da história do Brasil para assumir um protagonismo acima da média histórica dele ao articular o salto do banco de reservas para o cargo máximo da nossa República.
Desde então, Temer pavimentou o caminho para os projetos do consórcio Bolso-Guedes com retirada de direitos trabalhistas, estancamento de políticas sociais e uma espécie de parlamentarismo branco em que o presidente pode ser impopular desde que mantenha a geladeira do legislativo bem cheia.
Dada a incapacidade da nova administração de gerir as crises cada vez mais severas do país, Temer voltou ao palco como uma espécie de “âncora política”. Além de escrever o bilhete de desculpas do Bolsonaro para as instituições democráticas agora se colocou na defesa do furo ao Teto de Despesas que ele mesmo estabeleceu.
Com um malabarismo constitucional para dizer que essa pedalada fiscal é válida, Temer demonstrou toda sua preocupação social:
Trecho do artigo do ex-presidente Michel Temer em 24/10/2021
Trecho do artigo do ex-presidente Michel Temer em 24/10/2021
O ponto aqui é que o douto constitucionalista sabe que, para agradar o deus mercado e a casta política, desde a gestão dele o governo rifou os mecanismo que tentavam equilibrar o jogo social. Com a pandemia, tudo piorou e chegamos ao ponto atual em que menos da metade da população consegue garantir que terá uma alimentação mínima adequada (veja que nem estou falando em uma alimentação digna).
Dados apresentados pela FSP em 21/10/21
Dados apresentados pela FSP em 21/10/21
O medo de Temer é que o pessoal que passa fome perceba que é a maioria do país e se junte para jantar a força na casa dele. Para evitar isso quer deixar um prato de migalhas na porta.
Essa é a face que o Temer nem faz questão de disfarçar, tem horror e medo não da pobreza, não da miséria, mas dos seres humanos que estão nessa situação.
A solução de Temer não resolve nenhum problema estrutural do país, só usa um constitucionalismo total flex para tentar amealhar alguns votos enquanto a economia se desmancha.
Bolsonarismo sem bolsonaro
Temer e Bolsonaro são avatares de algo bem pior que não está aí por acaso. Algo que catalisa uma série de questões sociais.
Bolsonaro foi eleito, o que quer dizer que uma parcela significativa da sociedade acreditou na ideia do liberalismo de Bolsonaro, na proposta de, pelo menos, estancar o “mimimi” abandonando as pautas sociais e no conto do vigário de “tirar o estado das costas do povo” (isso, na real, foi feito, só que de uma forma perversa; o Estado hoje só serve só a casta política de onde o presidente saiu, o povo tem cada vez menos direitos e segue pagando a conta que só cresce do Centrão ).
Oscar Vilhena Vieira - FSP 22/10/21
Oscar Vilhena Vieira - FSP 22/10/21
Cristina Serra - FSP 23/10/21
Cristina Serra - FSP 23/10/21
Como venho dizendo nas últimas edições, Bolsonaro é uma técnica para distrair os olhos enquanto um grupo de mágicos enche a cartola.
É possível que Bolsonaro não se eleja, mas temos que aceitar que, com ele ou sem ele, o que ele representa segue e essa é a batalha mais complexa.
Ignorância se aprende em casa
Algo interessante é que Bolsonaro é uma pessoa tão absurda que parece normalizar tudo a sua volta. Além do texto de Temer, separei, só nessa semana, mais duas pérolas opinativas publicadas a luz do dia:
GABRIEL KANNER - FSP 26/10/21
GABRIEL KANNER - FSP 26/10/21
Não vou me aprofundar nessa questão, mas qualquer um consegue ver que quem lança essa ideia de que o homem passou a “ajudar” nas tarefas já parte de pronto de uma visão torpe. Mas o texto segue para desaguar na ideia de que mesmo essa leve concessão já está fazendo a sociedade desmoronar. Um sujeito que acha que uma sociedade igualitária depende do enfraquecimento de um lado e não do fortalecimento igual dos dois está a um passo de lamentar muito o fim da escravidão.
(Cabe um parênteses aqui Gabriel ROCHA Kanner faz parte da família simpática que fundou a RCHLO, como você pode ver nessa edição anterior, ele segue bem a tradição de ignorância social da família)
Tapadeira
Vinicius Lummertz (FSP 27/10/21) - Secretário de Turismo e Viagens do estado de São Paulo, é ex-ministro do Turismo (2018, governo Temer)
Vinicius Lummertz (FSP 27/10/21) - Secretário de Turismo e Viagens do estado de São Paulo, é ex-ministro do Turismo (2018, governo Temer)
Por fim uma pérola do liberalismo. Provavelmente o ilustre secretário nunca viu a praça da Sé nem mesmo antes da pandemia, só isso justifica a pessoa pensar que a Catedral da Sé não gera turismo por falta de gestão cultural.
Para quem não é de São Paulo, a situação da praça da Sé hoje é desoladora, com famílias inteiras de sem-teto vivendo ao relento.
Foto de Tales Azzi em 06/2021
Foto de Tales Azzi em 06/2021
A Sé, a Pinacoteca, a Sala São Paulo, o Theatro Municipal e tantos outros lugares de SP não precisam de gestão cultural. Eles tem sua programação e sua resistência. O que esses locais precisam para faturar tanto quanto a catedral de Notre-Dame é uma política social e urbana extremamente complexa que passa pela erradicação da miséria, pela redução das desigualdades e a redefinição do centro da cidade como uma área viva mista de residências e comércio.
A solução fácil de criar um cercadinho e trazer o turista de helicóptero administrado pela iniciativa privada só funciona na cabeça de quem não tem a menor noção da situação do país.
Pintores
Chega, vamos falar de algo de bom. Seguindo na ideia de alternar pintores clássicos e contemporâneos, hoje quero falar de Davi Calil.
Já fui aluno do Calil, com o tempo ele se especializou em gouache, um material que muitas vezes é considerado “menor” em relação a tradição da pintura a óleo e da aquarela.
Tirei as pinturas abaixo do instagram do Davi Calil. É preciso fazer a ressalva de que boa parte do trabalho que ele publica são produções com fins didáticos feitas em aula para ensinar usos específicos da técnica de pintura, mas isso não impede que o resultado seja impressionante.
Eu gosto muito dessas texturas que o Calil cria na figura com as pinceladas. Além disso, essa imagem chama muito a atenção por manter os olhos, que normalmente são um elemento de destaque de um retrato, na sombra de uma forma que gera toda uma sensação de profundidade ali.
Se você entrar no instagram do Calil, talvez essa não seja uma das pinturas que mais chame a sua atenção, mas eu gosto muito dessa sensação de difusão visual que a imagem passa.
Essa imagem, aliás, representa muito o trabalho do Calil, é uma pintura monocromática (provavelmente por questões didáticas), tem o desenho e uma composição visual estilizados e, ainda assim, traz elementos o suficiente para passar uma sensação realista.
Essa pintura é fantástica em vários sentidos. Tem toda um narrativa dentro dela contada por esses olhinhos de canto e as presas do Nosferatu. Ele deveria ser uma figura assustadora, mas o conjunto visual das orelhas pontudas, dos dentinhos juntos e do olhar meio assustado remete mais para um coelhinho acuado.
Vale notar como o sentido bem marcado das pinceladas orienta o movimento na imagem.
Eu adoro esse trabalho bem estilizado do Calil. O desenho tem toda uma estrutura certinha mas distorcida a ponto de criar um visual condizente com o que ele está representando. Note, também, o uso das hachuras coloridas, algo que eu falei várias vezes nas ultimas edições sobre o Toulousse-Lautrec
Por fim uma pintura com um visual bem curioso. Eu sinto quase um calor emanando dessa barba meio avermelhada emoldurada em toda uma cena meio fria e sombria. Repare como o trabalho do Calil tem sempre um elemento meio caricatural na imagem, como esse nariz avantajado.
Aliás, dá para comprar alguns livros do Calil na amazon, vale muito a pena acompanhar o canal dele no youtube e ficar atento para a agenda de cursos dele.
P.S.
Obrigado a quem se inscreveu e leu.
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Abraços e até a próxima.
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Zé Oliboni
Zé Oliboni @oliboni

Durante a semana eu junto uma série de notícias que me chamam atenção, comento e mando para você. Falo também de pintura, literatura, cultura pop e mais alguns temas que surgem no caminho.

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