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Caderno de Recortes #23 - Descriminação estrutural/Toulousse-Lautrec

Caderno de Recortes #23 - Descriminação estrutural/Toulousse-Lautrec
Por Zé Oliboni • Edição Nº23 • Ver na web
Agora que nosso presidente parece um pouco mais calmo, tem falado um pouco menos de bobagem do que lhe é de costume, os outros mal elementos passam a se destacar e cada dia fica mais claro que o nosso legislativo, quando vê o corpo morto do nosso país, deixa aflorar sua necrofilia. Mas seguimos.

Ideias roubadas
Frase de Vera Iaconelli - FSP 28/06/2021
Frase de Vera Iaconelli - FSP 28/06/2021
Nada de novo no front
FSP 20/10/21
FSP 20/10/21
Sempre que vaza uma prática como essa da Zara é importante lembrar que isso não é algo exclusivo da empresa que teve seus protocolos de segurança gentrificantes expostos.
Essas práticas abomináveis existem desde sempre e em diversos ramos. Na maioria dos casos não é preciso nem que o comando da empresa oficialize uma rotina de discriminação entre os funcionários, os próprios trabalhadores são “pró-ativos”. Isso é um exemplo do racismo estrutural e do preconceito estrutural, aplicado contra pessoas que não aparentem riqueza.
Quando cursei o técnico de contabilidade, lá antes dos anos 2000, nas extintas “escolas de comércio”, era comum em algumas matérias de conduta profissional os professores contarem anedotas sobre vendedores que perderam a chance de faturar muito ao discriminar alguém que entrava mal vestido na loja mas que era, na verdade, algum fazendeiro muito rico.
A moral da história é nunca pressupor nada e não deixar se levar por preconceitos.
Contudo, isso era a teoria ensinada nas escolas. Na prática, o dono da loja quer que o funcionário intimide qualquer um que pareça “não pertencer ao ambiente”, o objetivo para prevenir furtos e deixar “mais a vontade” os clientes adequados aos padrões de preconceito do local.
A ordem vem muitas vezes de forma subliminar e os preconceitos estruturais criam as “soluções”.
Alguém deve ter feito uma estatística no Extra, por exemplo, e passou para uma lista de lojas a crítica de que havia aumentado as perdas com os produtos do açougue.
O resultado:
FSP 19/10/21
FSP 19/10/21
Alicerce
A palavra estrutural se adequa a questão da gentrificação de forma bem mais ampla do que parece.
Um dos principais problemas de metrópoles como São Paulo é a questão da moradia. Esse fator chave para a existência humana se desdobra em várias barreiras que se transformam em uma espécie de filtro social perverso.
FSP 17/10/21
FSP 17/10/21
Quem ganha pouco, a maioria esmagadora da população do Brasil, no caso, não tem condições de comprar uma casa, muito menos em um bairro central com uma oferta considerável de emprego, transportes e serviços. Isso faz com que as pessoas sejam empurradas para áreas periféricas, quando possível, ou até para áreas invadidas sem a menor estrutura.
Com isso mantém-se um ciclo cruel em que a pessoa mora longe do emprego (porque o emprego não paga o suficiente para uma moradia digna), passa muito tempo em um transporte público precário e tem dificuldade, quando não impossibilidade de acessar equipamentos que poderiam proporcionar uma mobilidade social (como educação e cultura públicas de qualidade).
Um parêntesis importante aqui vai para a questão do transporte. Muitas vezes ele não é lotado pela mera falta de investimento. O maior inviabilizador do transporte em cidades como São Paulo é a distribuição da cidade que expulsou os trabalhadores de baixa renda para bolsões de moradia “barata” e manteve a maior parte dos empregos em áreas centrais. Não quero me alongar nesse tema, mas, ao meu ver, todos os bairros deveriam ser mistos e ter moradia e emprego sempre, não havendo, assim, bairros “bons” e bairros “ruins”. O Haddad tentou oferecer isenção para quem levasse empresas de mão de obra extensiva (por ex. telemarkting) para a periferia, mas, infelizmente, faltou “combinar” com as empresas de infraestrutura de telecomunicação que não se interessam em melhorar a rede para oferecer internet de qualidade para regiões não centrais, o que impede que empresas de tecnologia se instalem por lá.
Isso pode parecer algo que “simplesmente aconteceu”, “uma infelicidade por causa da falta de planejamento urbano”, “algo que estamos lutando para combater”, “um processo natural”.
Sim tem um pouco de acaso, um pouco de descaso, mas tem um bom tanto de planejamento higienista.
Pessoas como os administradores de lojas como a Zara preferem perder uma venda a ter uma pessoa de baixa renda dentro da sua loja. E isso se desdobra para a vida como um todo. Os supermercados, restaurantes e os próprios moradores de determinados bairros querem garantir que a sua vizinhança se mantenha livre de qualquer um que esteja fora de padrões construídos ao longo da história como muralha das fortalezas medievais.
Podemos apertar o cerco, podemos denunciar, podemos fazer campanha para que ninguém compre em empresas toscas.
Mesmo assim, mesmo que a gente se iluda acreditando que não há pessoas que consideraram a Zara ainda mais atraente por “escolher a clientela”, porque alguém assim seria abominável demais, a realidade cai como um tijolo e o dinheiro sempre será usado como um divisor social.
Aspas de Luiz França, presidente Abrainc (Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias), lamentando a pesquisa que mostra que os imóveis de qualidade em São Paulo são inacessíveis para 90% da população - FSP 17/10/21
Aspas de Luiz França, presidente Abrainc (Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias), lamentando a pesquisa que mostra que os imóveis de qualidade em São Paulo são inacessíveis para 90% da população - FSP 17/10/21
Ideias roubadas
Marília Marz na FSP 23/10/2021
Marília Marz na FSP 23/10/2021
Traçando uma linha
Silvio Almeida - FSP 14/10/21 (íntegra https://www1.folha.uol.com.br/colunas/silvio-almeida/2021/10/uma-genealogia-da-polemica.shtml )
Silvio Almeida - FSP 14/10/21 (íntegra https://www1.folha.uol.com.br/colunas/silvio-almeida/2021/10/uma-genealogia-da-polemica.shtml )
A boçalidade de Leandro Narloch inspirou uma miríade de textos, mas ninguém traçou uma linha mais clara do que Silvio Almeida. Com muita elegância e didatismo ele nos explicou que uma coisa é a abertura para pluralidade, outra é dar palco para polêmica vazia criada apenas para fazer barulho.
Ou seja, Silvio Almeida nos lembrou da máxima:
Pintores
Chegamos na última semana com Toulousse-Lautrec, poderia ficar muito mais tempo nele, mas sempre é importante variar.
Algo incrível para mim nesse quadro é esse triângulo que se forma no canto inferior esquerdo que ilumina de uma forma absurda a imagem.
A habilidade de Lautrec com o desenho da figura humana é algo que me deslumbra. A forma como ele representa o gestual dessa mulher se vestindo é maravilhosa.
Eu acho incrível quando no meio da obra de um pintor realista tem um desenho bem estilizado e solto, quase caricatural, sinto que dá para entender a visão de mundo do artista por essas escolhas visuais.
Acho interessante como Lautrec trabalha com pinceladas grossas e bem marcadas mas sem perder o gestual do desenho. Repare nas dobras do roupão e como o bolso está acomodado de forma natural.
Já falei em uma das edições anteriores que Lautrec usava muito uma base de papel cartão, repare como ele usava a cor natural do papel como um meio tom para ambientar a cena.
Por fim, uma imagem sutil, singela e com uma luz linda que se espalha pelo meio da blusa da mulher e ilumina com intensidade uma mecha de cabelo ruivo.
P.S.
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Zé Oliboni

Durante a semana eu junto uma série de notícias que me chamam atenção, comento e mando para você. Falo também de pintura, literatura, cultura pop e mais alguns temas que surgem no caminho.

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Curadoria cuidadosa de Zé Oliboni via Revue.