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Caderno de Recortes #21 - Planos de saúde/Falta de Assunto/Toulouse-Lautrec

Caderno de Recortes #21 - Planos de saúde/Falta de Assunto/Toulouse-Lautrec
Por Zé Oliboni • Edição Nº21 • Ver na web
Olá, tudo bem com você? Espero que sim, apesar de tudo.
Somos 600 mil a menos, mas seguimos.

Ideias roubadas
Frase de Celso Rocha de Barros/FSP - 03/10/21
Frase de Celso Rocha de Barros/FSP - 03/10/21
Plano de saúde
Lá para 2006 eu estava na faculdade de matemática quando fiquei sabendo por um colega que trabalhava para um plano de saúde, que a empresa tinha várias vagas de estágio. Achei curioso, para quê um plano de saúde precisava de tantos matemáticos?
Basicamente esse pessoal trabalhava refinando algoritmos que avaliavam cada cliente do plano e determinavam quem daria lucro e quem daria prejuízo para a empresa no longo prazo.
Se a pessoa que daria lucro ligasse querendo cancelar, o operador fazia de tudo para ela ficar, dava desconto, melhores condições, o que fosse. Caso contrário a porta da rua era serventia da casa.
Planos de saúde são operações financeiras complexas e, se você tem um plano, ele sabe na hora de autorizar um procedimento mais caro se você é um cliente que ele quer manter ou não. Ninguém esperto o suficiente vai admitir que o excesso de burocracia ou as autorizações no limite máximo do prazo foram influenciadas por você ser um cliente que não vale a pena. Em um mundo ideal, isso nunca ocorreria, é claro. Mas, se fosse um mundo ideal, o plano não teria um pequeno exército calculando o seu custo-benefício.
Agora vamos comparar o balanço contábil de um plano “normal”, a Amil, por exemplo e da Prevent Sênior.
Em 2020 a Amil arrecadou com mensalidades R$ 20,4 bilhões e, no final do ano, gerou um lucro de R$ 517 milhões e uns trocados (bem arredondado, foi 2,5% de lucro em relação a receita).
Já a Prevent, também em 2020, arrecadou R$4,1 Bilhões e gerou um lucro líquido de R$ 495 milhões (também arredondando, 12% de lucro em relação a receita).
A Prevent é uma empresa muito menor que a Amil, tanto que o balanço da Prevent está em Reais e o da Amil está em Milhares de Reais. O patrimônio líquido da Amil é de 13 bilhões e o da Prevent alcançou 1 bilhão apenas em 2020.
Existe um fenômeno chamado “deseconomia de escala” que é quando uma empresa, por seu tamanho agigantado passa a gastar mais proporcionalmente do que uma empresa equivalente menor. Parece algo que contraria a lógica natural de que empresas maiores lucram na quantidade, mas, mesmo assim, em alguns casos isso se aplica.
Pode ser esse o caso. Pode ser que a Prevent tenha uma estrutura administrativa muito melhor do que a Amil. Pode ser que a Prevent tenha descoberto um esquema fantástico com a sua metodologia de hospitais e médicos próprios.
Mas, mesmo assim, o fato é que a Prevent, proporcionalmente, lucra 5 vezes mais do que a Amil mesmo que essa seja 13 vezes maior a Prevent.
Então, ou a Amil é administrada por pessoas muito tapadas que não tem a capacidade de olhar no quintal do vizinho e otimizar o trabalho OU tem alguma coisa muito errada na Prevent.
Independente da teoria que optemos, é certo que tem um sistema que não fica calculando o valor do paciente em cada etapa, esse sistema é o SUS, ele tem seus problemas, tem seus ralos, mas o SUS em si nunca foi o problema e sim a solução.
(Pra quem tiver curiosidade, o balanço da AMIL está aqui e o da Prevent está aqui, lembrando que a AMIL é uma S/A, ou seja a contabilidade dela é muito mais rigorosa e complexa, enquanto a Prevent é uma LTDA que tem um pouco menos e exigências contábeis).
Falta de assunto
Eu sempre fui defensor da pluralidade. Tem limites? Tem. Mas é meio nebuloso.
A Folha de S. Paulo pescou de volta de algum bueiro o colunista Leandro Narloch e pela segunda vez em pouco tempo vários outros colunistas do jornal se dedicaram a contestá-lo.
Não vou me aprofundar no tema, mas, basicamente, Narloch é campeão no uso da exceção para tentar contrariar uma regra.
Como ouvi dia desses “a exceção é o exemplo do burro”. Se você fala: “quem pula do terceiro andar se quebra todo”, o burro vem e diz: “mas eu tenho um tio que caiu do terceiro andar, saiu andando e ainda marcou três gols no futebol”.
No caso do Narloch, ele usou um exemplo de um livro do Antônio Risério sobre mulheres negras que ascenderam durante a escravidão.
É claro, essas exceções não chegam nem perto de construir uma ideia de que não houve escravidão ou de que ela não foi cruel, mas, fornece um arsenal de exemplos para o burro que gosta de tomar o que desvia do padrão como regra.
Enfim, a Folha publica esse tipo de texto e fica exposta para levar umas pauladas justas como essa:
Charge de Leandro Assis e Triscila Oliveira - FSP 06/10/21
Charge de Leandro Assis e Triscila Oliveira - FSP 06/10/21
Daí você se pergunta: por que um jornal que se diz fonte confiável publica textos assim?
Meu palpite é que a intenção é fabricar assunto. Eu perdi as contas de quantas colunas rebateram Narloch, acho que foram 6, variando entre contestar o colunista e contestar o jornal em si por abrigar o colunista.
Ao ter seus reacionários e negacionistas de estimação a Folha evita que seus colunistas tenham que ir buscar opiniões torpes em outros canais, ao mesmo tempo que finge ser plural.
Isso é um problema, porque abre brecha na armadura de confiabilidade, mas, ao mesmo tempo, tem a vantagem de mostrar que ideias absurdas estão a solta na sociedade e precisam ser expostas e combatidas. Não basta deixar tudo escondido no esgoto.
Além do que, é preferível os colunistas combatendo o racismo do que fazendo um humor raso com algo trivial como as 7 horas de apagão do WhatsApp.
Você tem uma história para emprestar
Por falar em falta de assunto, gostaria de fazer um convite para o pessoal que lê essa newsletter.
Em alguns momentos sentimos a necessidade de contar algo. Eu, por exemplo, sempre tive site, canal no youtube e agora essa newsletter.
Quando você quiser e se você quiser contar alguma história, mandar alguma imagem, seria um imenso prazer receber e compartilhar. A história não precisa ser engraçada, emocionante, dramática nem intensa, basta ser sincera. A nossa vida nem sempre é interessante, nem sempre é impactante, mas, às vezes, tem algo que queremos compartilhar.
Enviarei as histórias como parte da newsletter, creditada a você ou registrada como sendo anônima, se for o seu desejo.
É claro que caso você sinta o desejo de compartilhar algo que não quer que seja publicado de forma alguma, estou aberto para ouvir sua história e guardá-la com todo respeito.
O meu e-mail é contato@diletanteprofissional.com.br
Pintores
Essa semana continuo falando sobre Henri de Toulouse-Lautrec e escolhi mais alguns quadros bem interessantes dele.
Um dos elementos que me encanta no trabalho do Lautrec é o uso dessas “hachuras” coloridas. Por mais que aqui haja um preenchimento e um desenho bem realista, ele estilizava a luz e a cor por meio dessas pinceladas marcadas que ele fazia seguindo o volume de tudo que ele pintava. Reparem na variação de cores no vestido como é interessante.
Aqui parece mais um estudo do que um trabalho finalizado, mas eu quis trazer essa imagem porque mostra como o Lautrec pensava o desenho como um todo e por ser um retrato muito bonito do Van Gogh.
Lembra que algumas edições atrás, quando eu falei do Monet, falei sobre a influência oriental que começa a chegar na Europa nessa época. Aqui não há tanto uma influência técnica, mas é interessante notar como a modelo está com um quimono que remete ao tema.
Aliás, aqui volta a mesma modelo com o mesmo quimono. Acho muito interessante como o resultado das pinturas são completamente diferentes. Na primeira ela parece quase oprimida pelo fundo verde, mas o rosto estava com um semblante altivo, dominador, na segunda, tudo é mais suave, mas ela parece meio perdida.
Não sei explicar o motivo, mas eu acho fantástica a postura dessa modelo nesse quadro. Em termos de técnica uma pintura até que convencional dentro da obra do Lautrec, mas a intensidade da postura e a expressão da modelo dentro dessa composição triangular é muito poderosa.
Esse é outro quadro interessante pela postura da modelo. Lautrec escolhia pontos de vista pouco convencionais o que gera muito interesse e diferencia muito o trabalho dele. Nessa pintura já vemos de novo as pinceladas bem marcadas, quase como hachuras.
Algo que vale distinguir é que Van Gogh também trabalhava muito com essa característica de hachura colorida, mas o Van Gogh usava muito volume na tinta, muitos quadros dele são quase uma escultura com o pincel cavando seu caminho. Já o Lautrec usava os pincéis meio como uns “canetões”, se ele pintasse hoje em dia, provavelmente usaria canetas como aquelas da Posca.
P.S.1
A Folhinha publicou hoje essa HQ do Renato Moriconi. Se você está procurando um livro para dar de dia das crianças, ele tem vários títulos ótimos. Veja aqui https://amzn.to/3lpJEBJ
P.S.2
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Zé Oliboni

Durante a semana eu junto uma série de notícias que me chamam atenção, comento e mando para você. Falo também de pintura, literatura, cultura pop e mais alguns temas que surgem no caminho.

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Curadoria cuidadosa de Zé Oliboni via Revue.