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Caderno de Recortes #16 - erros/livre mercado/Monet

Zé Oliboni
Zé Oliboni
Por mais dividido que o país esteja, parece que há o consenso de que já vivemos sob um “golpe”. Uns acham que é um golpe do judiciário, outros que é um golpe do legislativo, ainda há aqueles que falam em um golpe dos governadores. Da mesma forma, parece que muita gente espera um golpe no dia 7 de setembro, nesse caso estão aqueles que temem e aqueles que anseiam pelo golpe.
Talvez o grande problema seja tanta gente falando em golpe e pouca gente demonstrando que golpistas não passarão. A depender do legislativo que temos, cuja maioria se enverga diante de qualquer perspectiva de uma propina, rachadinha ou esquema diverso, enquanto os bolsos certos estiverem cheios pode ser aplicado o golpe que quiser.

Ideias roubadas
Lost in translation
Com muita frequência vejo que alguns amigos reclamam de traduções ruins de livros ou quadrinhos. A cada dia que passa eu me convenço que o problema não está na má qualidade das traduções e sim na deterioração do uso do Português. Mas, se nos aprofundarmos mais na questão, talvez seja uma problema mais fundamental, as pessoas não prestam atenção no que escrevem e não releem os próprios textos.
Recortei dois exemplos de texto da Folha de S. Paulo de dois dias seguidos. Com certeza deve ter diversos outros erros, mas esses chegam a ser engraçados.
O primeiro é uma questão de uso de um termo em inglês (plant, que, entre outros significados, se refere a fábrica) que até é comum no dialeto dos engenheiros. O segundo é só uma questão de falta de bom senso do diagramador da CAPA do jornal.
28/08/2021
28/08/2021
29/08/2021
29/08/2021
Highlander
Algo que me intriga muito no capitalismo é essa fé absoluta no livre mercado.
Leandro Narloch - FSP 02/09/21
Leandro Narloch - FSP 02/09/21
Esses dias estava lendo sobre como os grandes estúdios de cinema fizeram um círculo completo e resgataram um monopólio que havia sido desmantelado pela ação da justiça dos EUA.
Tem uma matéria mais detalhada sobre isso aqui, mas, para resumir muito a história, no passado os grandes estúdios de cinema dos EUA eram donos das salas de cinemas também. Assim, as salas de um estúdio só passavam filmes deles e os filmes deles não passavam em salas de outras redes de cinema. Isso impedia que surgissem cinemas independentes, bem como estúdios independentes. Uma ação do governo dos EUA proibiu essa prática e os cinemas se desvincularam dos estúdios.
Na última década, o streaming se consolidou como forma de distribuição de conteúdo. Algumas plataformas veiculavam os conteúdos de vários estúdios e tudo parecia muito interessante e por um preço muito bom.
Mas, em pouco tempo, os estúdios viram que, se fossem donos dos próprios streamings, poderiam monopolizar seus conteúdos, voltar para a época em que eram donos dos cinemas e, quiçá, matar os peixes pequenos ao dominar o mercado.
Ou seja, ao contrário do que os idólatras do livre mercado pensam, o capitalismo não é uma concorrência sadia em que o consumidor sempre vence recebendo o melhor preço e a melhor qualidade.
O apetite de quem está competindo nos Jogos Vorazes do mercado não é só ser o melhor, é ser o único.
No artigo do Narloch, ele fala sobre a empresa Buser, um aplicativo que promove viagens semi-clandestinas de ônibus. Não vou me aprofundar na honestidade do Buser, mas vale dizer que o garoto propaganda da empresa é o Ronaldinho “passaporte falso” Gaúcho.
BUSER   Ronaldinho Gaúcho se sentindo sozinho na quarentena   2020    Comercial de TV
BUSER Ronaldinho Gaúcho se sentindo sozinho na quarentena 2020 Comercial de TV
No texto texto do Narloch, ele usa das artimanhas que lhe são peculiares para dizer que políticos da pior espécie como Rodrigo Pacheco controlam as linhas de ônibus e estão impedindo que a pobre Buser ajude o consumidor. É o típico argumento de quem identifica uma unha encravada e acha que é melhor amputar a perna para resolver.
Eu sei que parece razoável que você possa chegar na rodoviária e optar pelo melhor preço para ir para uma grande capital, contudo, a questão que fica de lado é: empresas como buser farão as linhas de ônibus que interligam cidades pequenas? O que sabemos é que empresas predadoras, no geral, só querem explorar onde há lucros significativos.
Essa é a mesma questão que enfrentamos quando falamos dos Correios. É claro que o sistema dos Correios tem problemas infinitos, mas é ele que garante as entregas nos locais em que nenhum operador de logística acha viável atuar.
Por qualquer ângulo que a olhemos o livre mercado, ele parece bom na teoria, mas, na prática, tende para a criação de monstrengos que só querem a exclusividade das melhores fatias do mercado, não importa a que custo e não importa o que seja destruído no caminho.
Acreditar que o livre mercado resolve tudo por si só é ficar doente e não procurar tratamento porque Deus irá curar. Às vezes dá certo. O problema é quando não dá.
Pintores
Como falei na edição passada, vou dedicar algumas semanas a falar sobre quadros menos conhecidos do Monet, o pai do impressionismo.
Separei essas duas pinturas porque retratam bem a obsessão de Monet com a luz. É possível ver que as duas pinturas retratam o mesmo ambiente em momentos diferentes, com iluminação bem distinta. É interessante no segundo quadro como ele trabalha a figura de um homem inteiro na sombra. Outro elemento importante é a forma como Monet simplifica os blocos de luz e cor, muitas vezes com recortes geométricos.
Os peixes mortos são um tema muito frequente em pinturas, acredito que seja um certo fascínio pelo brilho da pele deles. O interessante aqui é ver que, mesmo antes de ser impressionista de fato, Monet já deixava as pinceladas muito marcadas e é isso que deita esse pano embaixo dos peixes tão atraente.
Aqui temos algo mais perto dos quadros mais famosos do Monet. Muitos elementos são sugeridos com pinceladas bem marcadas. O grande charme dessa pintura é a perspectiva atmosférica (a forma como essa parte mais “distante” do quadro tem menos intensidade e definição) dos prédios que cria uma sensação de profundidade.
Separei essas duas pinturas porque eu gostei muito das cores e da simplicidade dos prédios.
Agora, em especial na segunda pintura, esse efeito visual que ele usa para representar a água, com pinceladas largas e bem marcadas de azul entrecortadas por um cinza cromático que forma o reflexo dos prédios é um indicativo forte de que Monet já estava entendendo como trabalhar massas de cores de uma forma interessante para captar as “impressões” que tanto o intrigavam.
P.S.
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Zé Oliboni
Zé Oliboni @oliboni

Durante a semana eu junto uma série de notícias que me chamam atenção, comento e mando para você. Falo também de pintura, literatura, cultura pop e mais alguns temas que surgem no caminho.

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