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Caderno de Recortes #13 - inflação/Alphose Mucha

Caderno de Recortes #13 - inflação/Alphose Mucha
Por Zé Oliboni • Edição Nº13 • Ver na web
Mais uma semana se passou cá estamos de novo refletindo sobre os mesmos temas. Às vezes eu acho que acho que vivemos com uma trilha sonora monótona, repetitiva que muda uma nota ou outra mas o ritmo permanece o mesmo e não sai da nossa cabeça nunca.
Por isso pode parecer que esses textos são repetitivos, mas a vida é repetitiva, então seguimos.

Caverna do dragão
Quem é do grupo de idosos 40+ costuma ter pesadelos quando houve falar em inflação. E não é para menos.
A inflação é um dos fenômenos mais cruéis da economia capitalista, mas antes que alguém diga que é um problema democrático, que atinge a todos, é bom lembrar que, como tudo na economia, ela atinge com violência mesmo os mais pobres. A inflação corrói a renda dessa camada e é apenas com o sacrifício de quem tem menos que esse “dragão” é controlado.
Ao longo da história do dinheiro, houve uma diversidade de mecanismos para tentar manter a moeda de um país estável. Desde o fim do “padrão-ouro”, que fazia com que os países guardassem uma quantia em ouro que lastreava as emissões de novas cédulas, as economias do mundo tentaram de tudo.
Um dos mecanismos mais curiosos, que voltou a circular, apesar de ter sido descartado há um bom tempo, é a Curva de Phillips.
Desenvolvida pelo economista neozelandês William Phillips, muito a grosso modo, essa teoria prega que o país precisa que uma porcentagem da população esteja desempregada para que o dinheiro se mantenha estável.
A lógica é bruta, mas simples. Quando as pessoas perdem seus empregos, elas não têm dinheiro para consumir (um jeito bonito de dizer que não têm dinheiro para comer, pagar o aluguel, etc). Se uma parte da população não consome, sobra mercadorias nas prateleiras e a regra básica de oferta e procura faz com que os preços caiam.
Quanto mais instável é a economia de um país, mais ela precisa de desempregados (passando fome) para o dinheiro se estabilizar e para que o salário de quem ainda não perdeu o emprego possa chegar ao fim do mês.
Tem dois erros nessa conta. Um, suponho que nem precisaria dizer, é o fato de ela depender de pessoas que saem do jogo da economia. E o outro que esse equilíbrio é tão sutil que o fato de menos pessoas consumirem pode levar ao fechamento de empresas, o que joga o desemprego acima do “patamar ideal” e leva o país para a estagnação econômica.
Por mais desumana que essa teoria seja, ela voltou a ser citada por alguns que ainda defendem o governo como uma tentativa de “passar um pano” para o contingente absurdo de desempregados que a falta de políticas públicas criou.
Mas, deixando isso de lado, fica a questão, como se controla a inflação hoje?
Um dos mecanismos principais do sistema atual, chamado de “metas de inflação”, é o controle do juros. Quando o Banco Central vê que a inflação está dentro ou abaixo da meta, corta o juros. Quando vê que estourou ou está em vias de estourar a meta, aumenta o juros.
Na prática, isso quer dizer que, se tudo está mais caro, aumentamos o quanto o banco cobra para emprestar dinheiro e, com menos dinheiro circulando, as pessoas compram menos e os preços estabilizam.
Mais na prática ainda. A pessoa que gasta toda a renda com itens de primeira necessidade, não vai poder recorrer a um empréstimo e, se ela comer menos, ou não comer, a economia agradece.
Nesse modelo, a classe média (aquela classe média mítica, que é menos de 10% da população, e não a média real das pessoas pela distribuição de rendas) paga parte da conta, pois, se “precisar” trocar o carro ou se “precisar” de uma casa maior, os juros vão comer a renda deles.
Reparem que, nessa situação, os ricos são os únicos que não perdem. Por mais que o preço do filé mignon suba, os juros altos favorecem quem tem dinheiro sobrando para investir.
É óbvio que tudo é mais complexo que isso. Só tirar o dinheiro de circulação pode não bastar para segurar a inflação quando itens básicos para a produção industrial como o preço da eletricidade ou dos combustíveis disparam.
E qual a solução? Não sei, só sei que se você não pertence àquele grupo de pessoas que vive dos juros do seu capital, a chance de encontrar a saída dessa caverna não são favoráveis.
Rodrigo Zeidan - FSP 06/08/21
Rodrigo Zeidan - FSP 06/08/21
Balança mas não cai
Nelson Barbosa - FSP 13/08 (recomendo ler os dois artigos dele sobre a história do padrão-ouro e da inflação)
Nelson Barbosa - FSP 13/08 (recomendo ler os dois artigos dele sobre a história do padrão-ouro e da inflação)
Eu quis falar sobre inflação por causa desse artigo do Nelson Barbosa que diz que os governos que perdem as rédeas da economia, como ocorreu com a Dilma, caem.
No momento, o país segue sem nenhum freio na economia, com a inflação em alta, com o desemprego em alta (ou seja, a curva de Phillips não ajudou), teve pedalada fiscal com os precatórios e, ainda assim, o governo não foi substituído.
Pior do que isso, essa semana Arthur Lira, o presidente da Câmara, nos provou que o governo está mais forte do que nunca. Ao pautar o voto impresso e mostrar que a maioria numérica dos votantes era a favor da pauta do presidente, ele quis demonstrar que esse grupo é mais do que o suficiente para barrar qualquer tentativa de impeachment. Mesmo com toda a lama que já rolou de baixo dessa ponte, por bem ou por mal, a base do presidente é sólida.
Tão sólida que aprovou esses dias a perda de uma série de direitos trabalhistas, a privatização da eletrobrás com regras terríveis entre outros projetos que só ajudam no desmonte do país.
Ideias roubadas
Frase de Luis Francisco Carvalho Filho
Frase de Luis Francisco Carvalho Filho
Pintores
Se tem um pintor que eu adoro é Alphonse Mucha. Antes da pandemia, teve uma exposição dele no centro cultural da FIESP e eu devo ter passado lá no mínimo umas 4 vezes.
Mucha era literalmente um pintor comercial. Seus trabalhos estamparam cartazes de teatro, latas de biscoito, cardápio e tudo mais que você possa imaginar. Era um verdadeiro ilustrador e, muito antes do design ser formalizado como um conjunto complexo de técnicas, ele já apresentava soluções visuais complexas para trabalhos de todos os tipos.
No meu canal já tem um vídeo sobre ele e vou aproveitar para falar mais sobre algumas pinturas que eu selecionei.
Alphose Mucha, o patrono do design
Alphose Mucha, o patrono do design
O objetivo de Mucha era comunicar uma mensagem, para isso o trabalho dele precisava ser compreendido de forma rápida, direta e funcionar mesmo que fosse visto a distância. Nesse ponto, uma linguagem de pintura só por manchas não basta, ele dependia desses contornos bem marcados com linhas escuras para que o elemento principal que ele queria evidenciar se descolasse e fosse compreendido já no primeiro olhar. Mas o que torna tão rico o trabalho dele é que envolvendo essa mensagem bem definida há toda uma construção de manchas gestuais que compõe o cenário complexo da imagem. Outro detalhe bem interessante é a perspectiva atmosférica que ele usa para dar profundidade na imagem por meio da intensidade das cores.
Essa é uma ilustração para uma lata de biscoitos. Eu separei essa imagem porque tem tudo que você pensar: tem um fundo indefinido que é bem característico de uma pintura mais transparente. Tem uma série de linhas e elementos gráficos que estão aí só para compor a harmonia estética, tem hachuras coloridas no cabelo dela, tem uma estampa linda na roupa da personagem e, mais importante, tem o rosto da personagem todo construído na sombra pra que ele não chame mais atenção que o elemento principal que é o prato de biscoitos.
Uma característica muito marcante no trabalho do Mucha é a compreensão da figura humana a tal ponto que ele é capaz, por meio de uma posição muito bem escolhida, de dar volume e tridimensionalidade para a figura sem depender de luz e sombra. É claro que ele vem com a cor como um complemento importante, mas se você olhar só o contorno do desenho dele já terá uma imagem muito interessante visualmente.
Essa já é uma pintura mais tradicional, um autorretrato do Mucha que mostra a potência dele como pintor. Repare que em muitos trechos as pinceladas são tão bem marcadas que você pode enxergar o sentido em que ele trabalhava e construia a figura. Dá para ver, também, como a luz mais intensa recorta o rosto dele dando formato para a figura.
Eu trouxe esse quadro pois ele faz parte de uma série que o Mucha fez no fim da carreira, é uma série chamada Epopeia Eslava. Os quadros contam a história do povo do Mucha e são trabalhos grandiosos em muitos sentidos. Diferente do trabalho direto e imediato das primeiras imagens esse é um quadro para você passar dias observando e pensando sobre ele.
P.S.
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Zé Oliboni

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Curadoria cuidadosa de Zé Oliboni via Revue.