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Caderno de Recortes #12 - pintura/mousse de chocolate/Alex Ross

Zé Oliboni
Zé Oliboni
Essa semana eu senti que o acúmulo de acontecimentos foi demais para vários amigos que demonstraram uma certa tristeza com a perspectiva que temos.
As ameaças constantes de golpe e o desmonte generalizado da estrutura do país tem pesado muito no imaginário coletivo.
Sobre esse tema, só quero dizer uma coisa, não adianta se iludir e fazer editorial dizendo que “basta”. Se os deputados quisessem remover o presidente, Arthur Lira seria um mero detalhe, já que a maioria da câmara poderia fazer um motim e decidir não votar nada até que se resolvesse esse impasse. A maioria não quer, pra eles está bom, o que importa mesmo é seguir com a boiada.
Dito isso, vou deixar o noticiário de lado essa semana e mandar uma edição mais amena.

Ideias roubadas
Sobre pintura
Eu gosto muito de pintura e desenho, mas só fui começar a estudar de verdade já adulto e uma das questões que sempre me perturbou em pintura é o custo dos materiais.
Graças a lógica do nosso país que não tem o hábito de valorizar a arte e a cultura, os materiais artísticos tem preços altíssimos, o que gera um ciclo vicioso que afasta as pessoas e elitiza o estudo de arte.
A conta é simples, a maior parte dos materiais é importado e paga um imposto elevado e não tem qualquer subsídio. Com isso, poucas pessoas têm acesso a arte e, por consequência, o mercado não se expande o suficiente para justificar uma indústria nacional de qualidade.
Eu falo de pintura porque é o que eu acompanho de perto, mas todas as artes e esportes dependem de algum material, algum recurso e algum incentivo que, no geral, não são acessíveis para a maioria da população.
Quantos atletas e artistas profissionais não emergiram das periferias do país por falta de acesso?
Quantas pessoas deixaram de encontrar nas artes um entretenimento saudável para equilibrar a rotina porque o investimento era alto de mais para tratar como uma diversão?
Pensando nisso, já tem um tempo que eu comecei a postar no meu canal no youtube uma série chamada Primeiros Passos na Pintura com uma proposta de oferecer uma porta de entrada um pouco mais acessível.
Mesmo assim, eu segui procurando um acesso ainda mais simples e barato e cheguei a conclusão de que o carvão vegetal poderia ser uma alternativa bem interessante para quem quer, pelo menos, ter uma noção da linguagem da pintura e ver se é algo que lhe interessa.
Ainda vou fazer um vídeo mais resumido sobre isso, mas, nessa linha, ofereci uma oficina gratuita esses dias e o primeiro encontro foi justamente sobre carvão. Quem tiver interesse/paciência, é esse vídeo aqui.
Primeiros Passos na Pintura - Linguagem da Pintura e Carvão
Primeiros Passos na Pintura - Linguagem da Pintura e Carvão
Ideias roubadas
Ideias roubadas
Não tem nada que representa mais uma ideia roubada do que uma receita. As receitas vão passando de pessoa para pessoa e se aperfeiçoando ao longo do tempo. Além disso, nada deixa a semana mais leve do que uma musse de chocolate.
Sempre que eu faço essa receita eu fico pensando: quem foi a pessoa que ficou batendo a clara do ovo e descobriu que ela ficava em neves? Certamente foi algum tipo de psicopata que nos deu essa descoberta.
Essa receita foi roubada do Olivier Anquier, mas vou acrescentar minhas observações para facilitar o trabalho
Ingredientes
  • 250g de chocolate
  • 200g de manteiga
  • 5 claras de ovos
  • 5 gemas de ovo
  • 100g de açúcar
Modo de preparo
Essa receita tem 2 segredos:
1- o gosto final da musse será o do chocolate, então, use o melhor chocolate que você puder, de preferência meio amargo.
2- a manteiga industrial normalmente deixa um gosto ruim na musse. Se possível, compre uma garrafinha de 500 ml de creme de leite fresco (não pode ser o de lata) e bata ele na batedeira. É muito simples, você coloca o creme de leite lá e deixa batendo, em um dado momento ele vai soltar o soro e virar manteiga. Pese os 200g da receita e, no que sobrar, coloque um pouco de sal e coma com pão. O soro (leitelho) pode ser usado em outros preparos como bolos e panquecas, ele tem praticamente zero gordura, mas tem uma acidez peculiar.
Dito isso, o resto é bem simples:
1- no banho maria, derreta o chocolate e a manteiga
2- bata na batedeira as gemas de ovos com açúcar até ficar branco
3- quando a manteiga e o chocolate estiverem bem misturados, despeje nas gemas sem parar a batedeira. Reserve essa mistura
4 - bata as claras em neve bem sólidas (a batedeira e o batedor tem que estar bem limpos antes de por a clara ou ela não fica em neve. É sempre bom começar a bater em uma velocidade baixa e acelerar aos poucos, na hora de desligar siga o caminho inverso)
5- usando uma colher (nunca a batedeira) coloque aos poucos a mistura de chocolate/gema/manteiga nas claras em neve, misturando com muita delicadeza até tudo ficar bem homogêneo mas sem perder a aeração
6- deixar na geladeira por pelo menos 2 horas antes de servir. Essa musse congela muito bem. Então você pode separar uma parte para comer outro dia, basta deixar no congelador e passar para a geladeira um dia antes
Pintores
Quem é fã de quadrinhos provavelmente já ouvir falar de Alex Ross.
O trabalho de Ross divide muito o público. Tem aqueles que deliram com o virtuosismo dele como pintor e com as imagens realistas de cenas impossíveis do mundo dos super-heróis. E, por outro lado, quem acha o trabalho dele “brega”, frio, um abuso da técnica sem muito propósito.
Em um certo aspecto, tendo a concordar com quem não gosta, admiro a técnica dele e penso nele como o Rockwell (que foi tema dessa edição anterior). Ambos os artistas se esmeraram tanto na técnica que chegaram ao ponto de esconder qualquer sinal de pincelada em troca de uma definição e uma precisão absurda.
Por mais que o resultado seja impressionante a um primeiro olhar, acho que não é tão interessante como pintura, me interessa mais o gestual do pintor e os grafismos das manchas.
Mesmo assim, eu separei algumas imagens menos óbvias do Alex Ross, que fogem um pouco do padrão dele de realismo fotográfico, que você encontrará ao jogar o nome dele no Google.
A técnica que o Alex Ross trabalha é gouache. Ele usa a tinta com uma linha de pensamento análoga a técnica de óleo do Rockwell. Como a maior parte dos trabalhos dele se transformarão em impressos, com o gouache ele ganha velocidade de trabalho e a perda do brilho único não é tão relevante pois essa característica desapareceria no impresso de qualquer forma.
Nessa imagem acima, do Capitão América, ele trabalhou o gouche só na transparência, como uma aquarela. É bem contido e tudo mais, mas, é um resultado interessante porque a gente ainda consegue ver o trabalho de pinceladas dele.
Essa pintura talvez seja o mais próximo que o Alex Ross se permita chegar do Bill Sienkiewicz. É interessante que nos rostos ele faz o trabalho preciso que é muito característico dele, mas se permite deixar um fundo indefinido, com a tinta bem diluída e essa orientação visual vertical das pinceladas bem marcadas. Tem até um respingo de tinta abaixo do chicote, quase uma ousadia quando pensamos em Alex Ross.
A título de curiosidade, esse fundo todo deve ter sido umas das primeiras etapas da pintura, depois ele foi construindo as imagens mais detalhadas por cima com gouache opaco (ele prepara a cor misturando com branco).
Esse é um outro trabalho diferente do Ross que eu gostei bastante. Primeiro porque o desenho dos rostos tem um grau interessante de estilização que dá mais vida para eles apesar da pintura bem realista. Segundo por causa dessa opção do fundo difuso e insinuado.
Essa é outra arte que tem vários elementos visuais interessantes. Já é bem menos “solta” que as anteriores, mas os recortes visuais da cidade dão um respiro interessante.
Algo que vale a pena perceber é como as cores do Alex Ross têm uma saturação e uma intensidade relativamente baixas, isso vem da opção de técnica que ele faz.
Se ele trabalhasse com aquarela ou com gouache transparente, a intensidade natural dos pigmentos iria se destacar mais, por outro lado, ele não teria esse controle e precisão que formam esse resultado.
É opção do artista, ele perde intensidade em troca de controle, a solução seria trabalhar com tinta óleo, mas é um ritmo de trabalho diferente que talvez não se adeque ao temperamento dele e/ou a necessidade comercial.
Essa já é uma arte bem mais característica do trabalho comercial do Ross. Ainda assim, separei essa porque tem alguns elementos interessantes, em particular as sombras que marcam visualmente a figura, principalmente o rosto. É um trabalho realista, com vários elementos que nos remete a uma ilusão fotográfica mas que ainda guarda algumas características de pintura.
Por fim, para ficar registrado que o Ross também faz quadrinhos em si e não só capas, uma cena da HQ Batman: Guerra contra o Crime. Achei interessante essa imagem porque tem várias partes que o Ross não aprofundou muito no detalhamento deixando elas sugeridas com manchas transparentes que lembram uma aquarela.
P.S.
Obrigado a quem se inscreveu e leu.
Agradeço imensamente quem quiser compartilhar esse email ou divulgar nas redes sociais.
Os links para me encontrar e ler as edições anteriores do caderno de recortes estão aqui https://linktr.ee/diletante
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Abraços e até a próxima.
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Zé Oliboni
Zé Oliboni @oliboni

Durante a semana eu junto uma série de notícias que me chamam atenção, comento e mando para você. Falo também de pintura, literatura, cultura pop e mais alguns temas que surgem no caminho.

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