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[Waterhorto] - Zona Azul

Imagina só
Voltando ao mesmo universo do meu primeiro conto da newsletter, trago a história de um novo personagem, Salatiel. Esse nome eu peguei de um jogador do campeonato baiano de futebol e a ideia da história eu tive no dia que uma pessoa abriu os braços e me disse que tudo ao redor era zona azul e mesmo sendo domingo eu teria que pagar para estacionar. Não tentem acompanhar a minha mente insana e quebrada.
Vou deixar ainda uma informação para quem não é de Salvador. O bairro do STIEP (Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Extração de Petróleo) é daquelas localidades que são flutuantes, a depender de uma ladeira, beco ou dois passos, você não está mais nele e tudo muda de figura (IPTU também).
Espero que se divirtam lendo esse pequeno conto tanto quanto eu me diverti escrevendo. Penso nele como apenas o início de uma jornada onde personagens irão se encontrar em contos diferentes.

[Waterhorto] - Zona Azul
A ferrugem descascava nos ferros tortos dos escombros do prédio que estava sendo engolido, sem pressa, pelo mar. Apenas o último andar do edifício estava acima da linha do oceano e o vento assobiava por detrás do que sobrara da construção que, aos olhos de Salatiel, parecia segura o bastante para acomodar um pequeno grupo de pessoas, mas ele não avistava ninguém ali. 
Ao contrário do que esperava após ter concluído o curso preparatório em Amélia Rodrigues, o trabalho de Demarcação Espacial Marítima de Salvador (DEMASSA) era tranquilo até demais, ele não tinha visto uma vivalma sequer nas últimas horas. Além de partes do bairro de Brotas — que seguia com um intenso e violento movimento separatista — e que podia ser avistado em determinados horários do dia, principalmente quando o céu estava limpo, tudo o que ele via eram escombros errantes e algumas poucas construções maiores que ainda resistiam à profundidade das águas, como crianças em piscina de adulto nas pontas dos pés esticando os pescoços.
Salatiel ancorou o barco no primeiro local onde deixaria uma das bóias de demarcação. Com tecnologia chinesa, as bóias eram grandes cilindros vermelhos com geolocalização via satélite alimentadas por pequenas placas solares. A ideia de mapear sobre o mar os antigos limites terrestres municipais se apegava a uma crença antiga de que o oceano iria recuar — por mais que os cientistas dissessem que isso era improvável — o que gerava um lucro exorbitante para alguns investidores e, por tabela, para políticos na Prefeitura. Eles vendiam a ideia do grande benefício prestado à população flutuante que, com as demarcações, se localizariam com maior facilidade e evitariam transtornos com os brotenses que estavam cada vez menos afeitos aos desterrados.
Era verdade, o reflexo do sol nas placas que cobriam as bóias podia ser visualizado a uma grande distância, entretanto, Salatiel não compreendia ainda qual seria a real utilidade descobrir se você estava no bairro do Costa Azul, Boca do Rio ou Alto do Coqueirinho se quase tudo era mar. Descrente com o seu novo emprego, ele começava a questionar se existiam mesmo pessoas vivendo sob as águas além da Comunidade Flutuante dos Alagados, a qual ele pretendia visitar antes de retornar para casa.
Parado sob pequenas marolas no que ele ainda teria que descobrir se seria Costa Azul ou Stiep, Salatiel digitou alguns comandos no painel e verificou que precisaria de algum tempo até recarregar totalmente a “Santinha 3000”. Equipada com a mais alta tecnologia marítima, a sua embarcação batizada com um nome que, segundo ele, faria qualquer um saber que só ouvia música clássica, possuía uma pequena farmácia e mantimentos suficientes para quase três meses sendo que, duas semanas, segundo foi demonstrado no curso, seriam suficientes para concluir a sua missão. Com o pagamento que receberia, ele seria rico o bastante para, quem sabe, pagar a conta de energia e conseguir acender uma lâmpada à noite em casa. Isso deixaria a sua avó, que tinha ficado sozinha em Amélia, feliz e contente, apesar dela não ter gostado nem um pouco da ideia de ter o seu neto trabalhando longe do chão.
Salatiel encheu uma panela com água enquanto tentava adivinhar o que iria almoçar olhando as embalagens de comida instantânea doadas pelo governo chinês para os bravos desbravadores baianos. Dentre as dezenas de sabores de macarrão, ele escolheu um de tofu com ervas finas (achando que era queijo-coalho com orégano), mas antes de sequer colocar a água para ferver e se decepcionar com o seu almoço, ele ouviu um apito estridente. Alguém estava próximo à sua embarcação e, por conta do volume, parecia ser algo urgente. 
***
Salatiel colocou a mão direita sobre a testa para proteger os olhos do sol que ardia enquanto, com a outra mão, ajeitava um conjunto de talheres de plástico no bolso. Desde que zarpou do porto de Águas Claras ele não sabia o que poderia encontrar pela frente e com aquela quantidade de comida, água e remédio ele se sentia um alvo bastante valioso e vulnerável. Perder tudo em seu primeiro dia de trabalho seria vergonhoso para alguém que havia lutado tanto para estar ali. Antes de pensar em como conseguiria defender-se com uma faca que mal cortava macarrão, ele deu uma boa olhada na pessoa que era dona do apito que ainda zumbia em seu ouvido. Ele era alto, bastante magro e usava um chapéu de proteção UV azul. Um apito laranja estava pendurado em seu pescoço com um cordão preto, o rapaz, que estava de sunga branca e sem camisa, flutuava sobre uma prancha grande de Stand Up Paddle e segurava, com as duas mãos, um grande remo. Duas alças cinzas pendiam em seu ombro segurando uma pequena mochila de mesma cor em suas costas. O homem tirou a mochila, se agachou e a amarrou no fundo da prancha. Na mesma cordinha que segurava seus pertences, ele amarrou o remo e, quando levantou-se outra vez, já estava com um caderno de capa de couro bege e cheia de manchas de sol em uma mão e uma caneta marca texto verde na outra.
— Bom dia cidadão, tenho a sua atenção por um minutinho? — O homem começou a folhear o calhamaço, sempre levando o dedo indicador à boca para molhá-lo com a ponta da língua e virar as páginas.
— Bom dia — Salatiel respondeu ainda de forma desconfiada, parou na sombra baixa que o topo do prédio fazia na “Santinha” e cruzou os braços.
— Seu nome, por gentileza?
— Salatiel Freitas.
— E aí, qual é a boa Salá?
— Oi? — Salatiel fez cara de interrogação, querendo saber quem tinha dado ousadia ao rapaz para tamanha intimidade.
— Ver e não ligar.
— O quê?
— A boa, é ver e não ligar — O homem sorriu, mas como percebeu que “Salá” não estava à vontade, continuou — eu sou o agente municipal Mattos, com dois ‘Ts’, mas pode me chamar de Val.
— Ah — Salatiel continuava sem entender porra nenhuma. Val seria de Valdomiro? Valdomiro Mattos, quem sabe? Bom, ele não estava interessado em descobrir e continuou em silêncio. Conforme havia aprendido no treinamento, não seria inteligente sair dando muita trela para os desterrados que vagueavam à esmo sobre o mar que cobria a antiga capital do estado.
— Em nome da Prefeitura Municipal de Salvador, infelizmente, vou precisar aplicar uma multinha por ancoragem em local proibido.
— Multa? Mas você está apenas de sunga.
— E você queria que a gente trabalhasse nesse sol da desgraça fardado é? Agora é que foi — Val virou o fundo do caderno e mostrou uma pomba branca mal desenhada atrás — reconhece aqui, campeão? Prefeitura Municipal de Salvador, ‘Bê’ ‘Á’.
— E você quer que eu coma esse ‘H’? Tá achando que sou menino? — Salatiel colocou a mão no bolso, preparando-se para puxar os talheres de plástico.
— Se você vai acreditar ou não, aí já não é problema meu, a multa será aplicada de uma forma ou de outra, a menos que você queira evitar esse constrangimento e colabore com o nosso trabalho.
— Colabore com nosso trabalho, ai ai. Colabore como? Me diga aí, vá.
— Basta você sair da área proibida e encontrar outro local para ancorar.
— Não tô vendo nenhuma placa aqui com sinal de proibido.
— As placas estão todas ali — Val apontou o dedo para debaixo da embarcação. Com muito esforço dava pra ver algumas manchas do que deveriam ser os escombros da cidade submersa — é só prestar atenção — ele completou.
Salatiel tirou a mão do bolso e esgueirou-se para olhar o fundo do mar. Se você se concentrasse por bastante tempo, dava até para ver destroços da cidade que ainda lutavam para ficar presos lá embaixo. Sombras de uma antiga Salvador que não existia mais, mas placa, placa mesmo, ele não via nenhuma. Como ele queria apenas se livrar daquele sujeito que, claramente, estava querendo lhe aplicar algum um golpe, ele decidiu entrar na onda.
— Certo, e onde é que eu posso ancorar? Vou mover o barco para ali então — Salatiel apontou para frente, sem se preocupar onde seria “ali”, apenas entrando no mesmo jogo do sunga branca.
— Ali até pode, mas é zona azul. Vai ficar por quanto tempo?
Salatiel gargalhou, algumas lágrimas escaparam dos seus olhos de tanto que ria. O homem continuava sério, olhando para ele sem mover um músculo sequer da face.
— Onde é que eu posso ancorar então? — Salatiel perguntou, ainda fungando o nariz do tanto que tinha rido, mas antes de esperar a resposta, emendou outra pergunta — E onde é zona azul aqui, parceiro?
O homem de sunga branca abriu os braços — dava para contar as suas costelas se quisesse — e começou a girar lentamente, apontando para todos os lados. Depois de um tempo, ele botou a mão no queixo e voltou a olhar para Salatiel
— Rapaz, ali no Stiep é tudo zona azul agora. Tem uma parte do Costa Azul que você pode parar se tiver vaga ainda, se não deixa eu ver… Aí só na Pituba mesmo, mas aquela região lá eu não recomendo não, tá muito periclitante.
— E como eu vou saber onde fica o Costa Azul e onde é o Stiep, pelo amor de Jeová? — Salatiel não queria admitir nem para si mesmo, mas estava começando a se divertir com os rumos que a aquela conversa, sem pé nem cabeça, estava indo e, depois de tanto navegar sozinho, não estava lhe fazendo mal (ainda) ter um pouco de companhia.
— Taí, essa é uma pergunta que não vou saber te responder agora, agora. Só você chegando no local pra gente ver se é Stiep, Costa Azul, Bancários ou sei lá, Magalhães Neto.
— Porra, eu preciso deixar essa criança aqui no lugar certo — Salatiel saiu da sombra e mostrou o grande cilindro vermelho com uma placa escrita “STIEP” em letras brancas — se não vou me lascar.
— Ah, você é da DEMASSA, é? Oxe, porque não me disse antes, véi? Não precisa se preocupar com multa mais não.
— Que alívio — Salatiel fingiu estar muito grato pela informação, mesmo sabendo que nem dinheiro tinha. Iria pagar com o quê? Talheres de plástico? Macarrão instantâneo? — Já estava ficando preocupado porque não iria ter como te pagar, não trouxe dinheiro nenhum comigo.
— Dinheiro? Não, o pagamento das multas é feito com prestação de serviços — O homem começou a riscar ferozmente a página em que estava, fechou o caderno de couro e o jogou dentro da mochila junto com o marcador. Logo em seguida ele abriu a boca para falar algo para Salatiel, mas antes disso ele voltou a fechá-la e levantou-se num só pulo, apontou os olhos para o horizonte colocando as mãos em forma de cone na frente deles como se isso fosse o ajudar a ter uma visão de longo alcance.
Gritos distantes e constantes do que pareciam ser três vozes distintas chamaram também a atenção de Salatiel. De repente ficaram mais altos do lado esquerdo do topo do prédio de onde, de repente, um grupo de pessoas começou a correr desesperadamente de um lado para o outro. Salatiel não sabia de onde elas tinham surgido, já com bóias, colchões infláveis e pranchas. Elas se jogavam ao mar e remavam em desespero. Val virou-se para Salatiel e, depois de gaguejar algumas palavras indecifráveis, começou a se arrumar para partir. Ele pegou o remo sem nem desamarrá-lo, puxou com toda a força partindo o pedaço da cordinha que o segurava e o posicionou para começar a remar.
— Corre, evém elas! — Os olhos de Val pareciam duas bolas brancas de sinuca.
— Elas quem? — Salatiel jogou a bóia de demarcação no mar de qualquer jeito, sem nem esperar ver se ela tinha sido ancorada, puxou os talheres de plástico e perguntou — O que é que tá acontecendo porra?
Pessoas saíam de todos os cantos, pequenos barcos a remo, lanchas e até algumas nadando a braçadas. Era como se alguém tivesse pisado, sem querer, num formigueiro. 
AS MOÇA DOS PEDALINHO DE PITUACIVIS — Val gritou e começou a remar. Antes dele estar longe demais a ponto de precisar gritar novamente para ser ouvido, de dentro da sua sunga, ele puxou um cartão e jogou aos pés de Salatiel — Depois me procure pra gente tomar umas, agora, se pique logo daqui Salá.
Salatiel foi até o painel da embarcação e viu que ela ainda não estava completamente carregada, mas já tinha energia suficiente para puxar a âncora e dar a partida no barco. Enquanto acompanhava a âncora sendo enrolada lentamente, ele se abaixou e pegou o cartão com a ponta das unhas para ler.
“VALMIR QUILMES DA CRUZ MATTOS - Agente da Prefeitura Municipal.
Ferry Boat Ivete Sangalo, Setor 12, Bombordo.
Salvador - Bahia - NORDESTE É O MEU PAÍS.
Parte de Salatiel queria ficar, mas quando ele viu que três mulheres, cada uma em um pedalinho de uma cor diferente, estavam se aproximando com megafones em punho e só ele ainda estava por ali parado, resolveu seguir o conselho de seu mais novo amigo e rumou para o seu próximo destino sem olhar para trás.
Descrição: Uma porta bastante enferrujada - Foto de Francesco Ungaro no Pexels
Descrição: Uma porta bastante enferrujada - Foto de Francesco Ungaro no Pexels
***
Era um dia chuvoso quando Natália retornou para o que um dia foi o Condomínio Edifício Alto da Costa. Ela amarrou com sua corda velha o pequeno caiaque que usava apenas em momentos de emergência, mas antes de subir no terraço do prédio, ela avistou a grande boia vermelha, perplexa. 
— Aquele jumento! — Ela gritou quando se deu conta que agora o seu bairro, que era o Costa Azul, havia sido remarcado como Stiep.
FIM (?)
O quem vem por aí?
Por hoje é só pessoal. Se você está curtindo os contos, espalhe a palavra para alguém que você ache que possa se interessar também, sou péssimo nesse trabalho de divulgação. Não tenho dinheiro, mas posso pagar em serviços prestados 😊
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Imagina só
Imagina só @marciosmelo

Contos, causos e ensaios com manchas de dendê. Uma história inédita por mês e o que mais ocorrer (ou não) nas outras semanas.

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Salvador, Bahia, Brasil