Waterhorto: O tempo de Jéssica - parte 2 de 2

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Se você chegou até aqui é porque lhe constrangi para assinar minha newsletter ou talvez você acredite que nessa segunda parte da história “O tempo de Jéssica” (e não os minutos, sai revisando e editando e deixei minhas falhas à mostra) existam piadas e frases que façam valer o seu tempo destinado à essa leitura. O mistério aqui é saber se você irá se decepcionar ao final ou não, e isso você só vai descobrir lendo.

O tempo de Jéssica - Parte 2
Quando Jéssica saiu do banho, ela nem notou que Rebeca não estava mais em casa e seguiu no seu ritmo, que era só um pouco mais veloz que o do meio-campo do Vitória. A cama vazia não foi o suficiente para tirá-la do transe que ficava em momentos como aquele. O relógio que foi criado originalmente na Babilônia já tinha dado três voltas com o ponteiro menor, nas ruas as cervejas já estavam quentes e alguns inconsequentes aguardavam o mar recuar na praia de Piatã para marcar o maior baba¹ do mundo que seria registrado no Xiaomi que Beto do Beco tinha acabado de receber do AliExpress. Enquanto isso, Jéssica não conseguia decidir se iria com manga longa ou se botaria uma camiseta lisa e levaria um casaco a tiracolo. 
Somente quando percebeu que a TV estava muda é que ela foi até a sala e viu o aviso de “tem alguém assistindo?” na tela. “Rebeca?”, ela perguntou em voz alta, ninguém respondeu. Correu até a cozinha, foi na área de serviço e voltou até o quarto, olhou para a cama — que ela só tinha se dado conta que estava vazia agora — e confirmou o que ela temia: Rebeca não estava mais em casa. O celular não dava sinal e Jéssica apenas esperou que sua companheira tivesse ido apenas levar as malas e calibrar os pneus do carro. A qualquer momento ela bateria com a mão fechada e gritaria do lado de fora do apartamento umas duas ou três vezes, só então ela puxaria a chave do bolso e abriria a porta, colocaria apenas o pé direito dentro de casa, gritaria mais alguns “adianta Jéssica, vou largar você aí, viu” e tudo ficaria bem. O mar nem teria começado o seu recuo, daria tempo de fazer tudo e fechar a casa direitinho, a começar pela janela da sala que precisava empurrar um dos lados para fora antes de conseguir encaixar a trava. Depois iria conferir as da cozinha que quase sempre dormiam abertas e que precisariam de um puxão extra, mas não com tanta força ou poderiam quebrar. Após cuidar das janelas e tirar todos os aparelhos eletrônicos das tomadas, Jéssica só iria arrumar a maquiagem e escolher qual casaco vestiria e qual embolaria na mala, que não estava mais lá porque Rebeca nasceu de sete meses e não pôde esperar só mais uns “dez minutinhos” além do que ela havia previsto anteriormente.
Só que Rebeca não voltou, demorou até para os padrões Jessequianos de medição temporal. Jéssica sentiu um aperto no peito, foi até a janela do quarto e encontrou uma rua que não estava tão vazia quanto imaginava. Algumas pessoas estavam discutindo se o Vitória iria ou não se classificar para a Série D do Brasileirão bem em frente a farmácia, do outro lado carros enfileiravam-se para passar pela rotatória que dava acesso a avenida e uma Kombi bege anunciava no alto falante trinta ovos por 10 reais, era a promoção do apocalipse segundo o rapaz do carro do ovo. Na calçada do prédio da frente havia uma ruma de gente sentada no meio fio e alguns vendedores ambulantes com caixas de isopor, mas nem sinal de sua amada. Jéssica correu até a sala com dois casacos, um em cada ombro, para chegar na janela da frente do prédio e ver se, por um acaso, Rebeca tinha ido dar um confere na orla. O mar estava agitado e a praia tinha mais gente do que deveria (acima de zero pessoas já seria mais do que deveria). Mesmo sem entender muito de mar, as ondas não pareciam ter cinco metros ainda, estaria tudo bem se ela não estivesse sozinha. 
Jéssica sentou-se no sofá e ficou pensando em tudo o que iria acontecer. Imaginou aquela torrente de água escura passando sem pedir licença e o único alento que ela tinha seria enfrentar tudo isso com a pessoa que ela amava, bom, não era era o seu único alento, na verdade. As ondas destruiriam Pernambuco antes de chegar na Bahia, ela não gostava de admitir, mas via isso como uma pequena vitória em meio a toda essa tragédia anunciada. Perdida em seus próprios pensamentos outra vez, abraçou uma almofada do Baby Yoda — que havia comprado para Rebeca na Shopee há uns dois anos atrás — com força e mirou um olhar perdido para a porta, esperando ela voltar.
***
A campainha tocou alto e Jéssica deu um grito agudo de susto. Só podia ser Rebeca, ela pensou, “aposto que desceu correndo na pressa dela e esqueceu as chaves e por isso meteu o dedo com gosto na campainha apenas para me irritar”, só Rebeca sabia o quanto ela odiava barulho, música alta ou qualquer coisa acima do nível de um sussurro
— Saiu correndo e esqueceu a chave né bonita? — Jéssica falou com um sorriso malicioso enquanto puxava a porta, mas se assustou com o que viu — Oxe, oxe, oxe! — Gritou dando um passo para trás.
À sua frente não estava uma jovem de cabelo curto, não era a mulher que ela tinha pedido para juntar as canecas e escovas de dentes, nem aquela que acordava toda manhã ligada no 220 reclamando que ela estava sempre atrasada. Quem apareceu na sua frente e tinha tocado a campainha com violência, enterrando o dedo no botão por dois ou três segundos, era uma senhora segurando, com a mão esquerda, uma faca grande e enferrujada. Ela não era uma mulher alta, nem baixa, tinha longos cabelos grisalhos e uma pele ressecada como se tivesse passado toda a sua vida na praia. Estava usando um vestido longo com tema floral bastante sujo, molhado nas pontas e com algumas manchas rubras (seria sangue?). Para completar, ela estava descalça.
— Eu vou te matar misera — a senhora segurou a porta com a mão direita enquanto falava, o que fez Jéssica dar outro passo para trás.
— Calma senhora, eu tenho dinheiro e algumas joias em algum lugar aqui, pode pegar o que quiser, só me deixa sair por favor — Jéssica olhava para os lados procurando por uma rota de fuga que não existia, a única saída seria pular da janela, mas daquela altura as chances dela sair com vida eram menores do que a do Vitória conseguir vencer o Doce Mel em Ipiaú — o que você quer, me diz que eu dou um jeito — completou.
— O que eu quero? Você sabe o que eu quero — a senhora puxou a faca para cima e o movimento fez os olhos de Jéssica ficarem indecisos sem saber se focalizavam as manchas no vestido da velha ou a faca que ela segurava com força — Você não sabe o quanto esperei por esse momento, o que eu passei para chegar até aqui, só olhe — a senhora apontou com a mão direita alguns cortes profundos em seu braço — isso aqui, MINHA LINDA, isso foi tudo culpa sua. Tive que remar do Jardim de Alah até chegar aqui novamente, levei quase uma semana, você não sabe de nada né? Você nunca sabe de porra de nada, Jéssica.
— Oxe, mas como você sabe meu nome, a gente se conhece de algum lugar? — Jéssica olhou para o farrapo humano que estava à sua frente, uma mulher que aparentava ter sido muito bonita na juventude, mas a essa altura parecia que tinha sido atacada por uma gangue de chihuahuas raivosos do Corredor da Vitória — Acho melhor a senhora se retirar, estou de saída e tenho meus próprios problemas pra resolver e, a qualquer momento, minha companheira vai chegar e não vai ficar bom pro seu lado não, viu.
— A qualquer momento ela vai chegar, sei… São apenas quinze minutinhos né Jéssica? Você ainda nem escolheu o casaco que vai vestir, porra, pega o vermelho, nesse sol quente da disgraça e você usando casaco ainda, só você mesmo, viu — A senhora entrou na cozinha, sem cerimônia alguma, deixou a faca na pia e voltou para a sala — Jéssica, eu bati braço do Jardim de Alah até aqui, você escutou essa parte? A sorte é que ainda dá para ver o topo do Farol da Barra — A senhora meteu a mão atrás da televisão da sala e puxou um frasco com álcool em gel, limpou os dedos enrugados e sentou-se no sofá, o que fez Jéssica mirar os cortes em seu braço outra vez — A sorte é que o sal cura rápido essas mordidas. A Pituba está tomada por um cardume, seria cardume? Bom, não sei como deveria chamar, o certo é que poucos estão se aventurando a atravessar a Pituba por conta daqueles ratos mutantes aquáticos, só que eu não tinha mais forças, a prancha que arrumei estava toda remendada com silver tape e achei melhor remar a favor da correnteza.
Jéssica abriu a boca mas as palavras ficaram presas dentro da sua cabeça. Ela virou-se para a janela e só então se deu conta do mar que estava ali há tempos, mas ela não tinha se ligado, da mesma forma que demorou para perceber que sua cama estava vazia, já sem as malas, ela foi reparando nos prédios caídos e nos escombros indo e vindo ao sabor do mar. 
Uma brisa invadiu o apartamento, trazendo cheiro de sal e ferro corroído, mas Jéssica só acordou por completo do seu transe quando um senhor em cima de uma balsa feita com ripas de madeira grossa sob um monte de tonéis enferrujados e uma grande boia de borracha preta anunciou, com um megafone rachado, que a placa de ovos estava em promoção, meia dúzia por uma faca ou uma toalha seca. Parecia uma pechincha.
Jéssica sentou-se ao lado da senhora, segurou a mão dela com delicadeza e viu o anel de ouro com um brilhante em formato de coração que sua mãe a ajudou comprar na avenida sete há tanto tempo que nem dava mais para contar nos dedos, colocou os dois casacos que estavam em seu ombro no colo e sorriu por um tempo até arrumar forças para falar:
— Rebeca, acho que vou levar o preto, combina melhor com minha calça. Desculpe pela demora, mas agora já estou pronta.
Rebeca suspirou, afinal, só ela sabia que antes de sair, Jéssica soltava pelo menos uns três ou quatro “já estou pronta” antes de realmente ser real oficial e elas poderem sair, de verdade. Pelo menos não precisaria escolher qual sapato iria usar, já que não seria interessante nadar com os pés calçados.
FIM
1 - Baba = Pelada, partida de futebol.
Gargantua - Interestellar
Gargantua - Interestellar
De onde saiu tudo isso?
Tudo que escrevi é verdade, só uns 10% é mentira. Outro dia, quando saí cedinho para caminhar, quase tropeço num gato que entrou numa moita em frente a um prédio. Quando cheguei perto, ele saiu picado e eu descobri que era um rato, quase do tamanho do Gato Guerreiro. Os ratos do bairro da Pituba em Salvador só podem mesmo serem mutantes e duvido que eles não consigam sobreviver debaixo d'água.
A única coisa inventada foi o tal recurso “safado” para fazer a história andar. O meu conflito era apenas uma pessoa apressada e uma que levava tempo demais para se arrumar, mas como fazer a história andar no meio pro final? Existe uma ideia de que quando você não sabe onde uma cena pode dar, você pode utilizar o manjado recurso de “uma pessoa armada bate na porta”. E foi exatamente o que fiz. O resto é apenas exagero e diálogos terminados em “viu” entre duas pessoas que se amam e falam carinhosamente uma com a outra, algo que, para quem não é da Bahia, pode parecer troca de ofensas gratuitas. É tudo amor, ofensa é quando alguém se refere a você como “meu(minha) lindo(a)”, claro, a depender da entonação.
Waterhorto
Espero que eu consiga mesmo criar uma antologia com contos envolvendo um futuro apocalíptico em Salvador.
Escrever tem sido a única atividade constante que estou mantendo nesses tempos trevosos, mas como meu cérebro opera sempre para me sabotar, voltei a desenhar também e, por isso, vou me comprometer a lançar um conto por mês para não sobrecarregar ninguém. Se conseguir mais que isso, ótimo. Se mais alguém quiser brincar de escrever nesse cenário, por favor, entre na roda.
Lembrando que isso aqui é um email, então pode compartilhar com alguém que ache que vá curtir ou até mesmo responder. Aceito críticas, dicas e sugestões. Ofensas eu não preciso mais, já torço pro Vitória.
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Imagina só
Imagina só @marciosmelo

Contos, causos e ensaios com manchas de dendê. Uma história inédita por mês e o que mais ocorrer (ou não) nas outras semanas.

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Salvador, Bahia, Brasil