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Waterhorto: O tempo de Jéssica - parte 1 de 2

Imagina só
O que aconteceria se um Tsunami chegasse até Salvador? Quando circularam as primeiras notícias que as erupções de um Vulcão nas Ilhas Canárias poderiam desencadear eventos que resultariam em ondas de 5 metros destruindo boa parte da costa brasileira, a primeira coisa que os soteropolitanos fizeram foram criar correntes com piadas envolvendo os bairros da cidade que rodaram as redes sociais há algumas semanas atrás.
Pensar em histórias num futuro apocalíptico como o apresentado no fracasso cinematográfico Waterworld tendo Salvador como cenário parecia uma ideia boa demais para se criar alguns contos. Pelo menos foi o que Lionel Leal pensou e me instigou a fazer. Estou aqui apenas para corroborar o que falei na newsletter anterior: É mesmo uma boa ideia, boa demais para não ser destruída por minhas palavras.
Hoje vou lançar a primeira delas que vai se passar no dia zero desse apocalipse, um pouco antes do confronto entre Brotas e Alagados, justamente quando a cidade estava ainda se preparando para receber este grande evento.
Espero que gostem, mentira, ficarei satisfeito apenas se vocês lerem 😁

Photo by cottonbro from Pexels
Photo by cottonbro from Pexels
Os minutos de Jéssica
Seis horas parecia tempo suficiente para arrumar duas ou três malas e partir em direção à BR-324. Salvador havia se tornado àquela altura quase uma cidade fantasma e, por isso, Jéssica não se preocupou em deixar tudo para a última hora, “vai dar tempo”, ela repetia para a sua angustiada companheira que alternava algumas coçadas na nuca e na barriga em desespero. Rebeca morria a cada minuto preocupada com o dia “T” que era também conhecido como “é hoje, porra”. Segundo os cálculos, em seis horas de relógio, quase toda cidade seria destruída por ondas que só iriam parar nas ladeiras que dão acesso aos bairros mais altos da capital.
Poucos levaram a sério as primeiras notícias, mas assim que as erupções do vulcão Cumbre Vieja nas ilhas Canárias na Espanha se intensificaram e, principalmente, quando Ivete Sangalo pegou seu helicóptero e decolou do terraço do edifício Mansão Morada dos Cardeais na avenida contorno é que os soteropolitanos começaram a acreditar que “a porra era séria”. O fato é que mesmo tão em cima da hora, ainda existia tempo hábil para quem pudesse e quisesse fugir da cidade antes que fosse tarde demais. Se fosse por Rebeca, elas já estariam a essa altura reclamando das pessoas cortando a rodovia pelo acostamento próximo a Feira de Santana que se tornaria em poucos dias a nova capital temporária. Segundo o projeto da prefeitura, para reconstruir os bairros nobres da capital baiana não levaria mais do que meio século e, durante esse tempo, a segunda maior cidade da Bahia seria nomeada, com honras e alguns protestos da população de Luís Eduardo Magalhães, a nova capital. Feira já havia pintado o Joia da Princesa para receber um Ba x Vi e estava abrindo as licitações para requalificar o novo cartão postal do estado: A Caixa D’água do Tomba.
Seis horas seriam mais do que suficientes, o problema é que existiam no planeta Terra duas formas de se medir o tempo. A tradicional, que foi inventada pelos babilônios que começou dividindo o dia em doze partes e depois em vinte e quatro, e os minutos de Jéssica. O tempo de Jéssica já começa diferente pois nele não existem os conceitos de milissegundos ou segundos, nada disso. Ele era dividido em frações compactas e que guardavam, dentro de si, universos particulares. Era tão difícil de explicar que um cineasta chamado Christopher Nolan, quando tentou compreender, teve a ideia de criar um filme que se passava no espaço e que envolvia buracos negros e “wormholes” onde uma tripulação faria um pouso num planeta em que cada minuto lá equivalia a não sei quantos dias no tempo “real”. Dessa forma, se alguém estivesse no apartamento delas no instante que Jéssica disse que só precisaria de “quinze minutinhos” e visse Rebeca deitada no sofá pensaria que era desleixo, mas não era. Quinze minutinhos equivalia a pelo menos uma hora de relógio e, depois disso, Jéssica precisaria “apenas” guardar as coisas na mala. Tempo suficiente para Matthew McConaughey acompanhar, aos prantos, o envelhecimento de sua filha amada em Interstellar.
— Adianta Jéssica, eu vou me picar e largar você aí, viu — Rebeca falou enquanto escolhia um filme novo para assistir na Netflix.
— Se ficar me dando pressa aí é que eu me atraso mermo — Jéssica passou correndo de toalha pela sala enquanto algumas pessoas gritavam o fim do mundo na rua defronte ao prédio — eu num lhe digo é nada, você que sabe da sua vida, se me deixar aqui pra morrer sozinha vai ver só. Você sabe que eu detesto praia.
— Já era para gente ter saído há muito tempo, mas você sempre fica nessa dança de rato deixando tudo para a última hora, esperando não sei que porra.
— Porque não me ajuda então a guardar as coisas nas malas? — Jéssica estava com as mãos na cintura, indignada — fica só aí deitada vendo merda de filme de gente doida. Não trocou o óleo do carro, não calibrou os pneus, só sabe reclamar.
— Minhas coisas já estão no carro desde a semana passada, você que fica aí nesse cheiro mole e não sai do lugar, e digo mais, seus quinze minutos já se passaram, eu vou é me picar — Rebeca levantou bem na hora que o filme chegava na parte onde um jovem casal posicionava um raio laser verde num espelho do apartamento do vizinho e, através do seu reflexo, captava as ondas sonoras ouvindo tudo o que eles falavam — que culhuda — ela disse antes de caminhar até o quarto e ver Jéssica fechando a porta do banheiro com raiva.
Rebeca jogou as coisas que estavam em cima da cama nas duas malas abertas no chão na força do ódio. Ela não conseguiu fechá-las completamente, mas decidiu seguir rumo a garagem assim mesmo para tentar ganhar tempo. Se fosse esperar Jéssica terminar de se arrumar correria o risco de assistir ao fim do mundo da janela da sala, e esse era um camarote que ela não tinha interesse em participar. 
Rebeca ainda ouvia o barulho do chuveiro quando girou a chave na maçaneta. Antes de sair, tocou o visor do relógio digital para ver as horas, coçou a nuca mais um par de vezes e bufou impaciente. Ela empurrou as duas malas para fora do apartamento com a ajuda dos pés e bateu a porta com força antes de descer as escadas.
***
'Semana' que vem, tem mais...
Talvez os mais antigos (e que moraram na Bahia nessa época) ainda se lembrem de um ex-prefeito de São Francisco do Conde, hoje falecido, que sempre aparecia em propagandas utilizando o jargão que ficou famoso “Sábado que vem, tem mais”. Por isso botei aspas simples no ‘Semana’, uma vez que o dia de lançamento dos meus textos aqui podem mudar ao sabor da maré. Não vai ser sábado porque não quero perturbar ninguém em sua cova.
Segunda e última parte
Essa é a primeira parte que ficou um pouco curta e eu sei que deveria terminar num gancho estilo Dan Brown, mas achei melhor apenas situar as duas personagens e seus conflitos. Na segunda parte — que vou enviar na próxima semana — utilizarei um recurso narrativo safado (não é putaria, pode adicionar crianças na newsletter, até porque me ajudaria a inflar o número de assinantes).
Resolvi dividir em duas partes porque o conto ficou pequeno demais para enviar para algum editorial e grande demais para ler num e-mail. E já que não me esforcei para criar um gancho melhor, aqui vão cenas da parte final desse conto:
Será que Jéssica vai conseguir se arrumar antes do Tsunami destruir Salvador?
Rebeca desceu para adiantar o lado, mas será que ela vai voltar?
E se uma pessoa estranha chegasse armada na história e falasse sobre ratos aquáticos mutantes? Isso seria demais né? Melhor eu não fazer isso…
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Imagina só
Imagina só @marciosmelo

Contos, causos e ensaios com manchas de dendê. Uma história inédita por mês e o que mais ocorrer (ou não) nas outras semanas.

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Salvador, Bahia, Brasil