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Um Natal da Disgraça

Imagina só
Os filmes natalinos chegam no último mês do ano para aliviar nossas dores e nos fazer esquecer, nem que seja por um momento, todas as tristezas e decepções que acumulamos em nossa ficha de personagem. Para quem gosta de ler, contos e histórias natalinas brotam aos montes desde que o mundo é mundo. Família, amizades, esperança e reunião são alguns símbolos universais, mas para mim sempre foi difícil me conectar com o “cenário”, ainda mais vivendo em Salvador, a gente sequer tem estações do ano por aqui.
Pensando nisso, escrevi esse pequeno conto natalino que se passa em algum canto de SSA, criado de vários lugares que estive e com algumas conversas que já ouvi por aí. 😁

Um Natal da 'Disgraça'
“Um calor da desgraça e vocês querem uma história de natal?”
“🙃”
“Sentido zero!” 
“🎅🏾”
Da lista infinita de coisas que irritavam Miguel, a forma como as pessoas se comunicavam no grupo de trabalho era uma das principais. Como se já não bastasse morar de favor na casa da sua tia — que fingia entusiasmo com a vida profissional do sobrinho — ele precisava atender aos caprichos e temas que eram escolhidos pela equipe da Revista Digital em que “trabalhava” — toda vez que pensava nessa palavra, ele lembrava do dia em que flagrou sua tia explicando para a vizinha o que ele fazia o dia todo, aquele gesto dela no ar com as duas mãos simulando aspas gigantes invisíveis o destruía por dentro, um gif fixado na sua mente. 
Falta de criatividade ele até aceitava, mas Salvador, média de trinta e quatro graus com sensação térmica de ante-sala do inferno, e o tema de dezembro para todas as sessões da revista seria, “rufem os tambores”: Um conto de natal. “Porra, me mate”, Miguel chegou a digitar, mas apagou. Não iria discutir mais, aquilo nunca resolvia nada e ele só receberia mais emojis. Seria uma batalha perdida, o melhor que ele tinha a fazer era dar o troco com sua própria coluna, fazendo o de sempre, subverter o tema ridículo que lhe davam criando uma história que fingia seguir a mesma ideia, mas que conceitualmente era uma resposta afrontosa à mão invisível do mercado
Seu texto de maior sucesso foi, ironicamente, um que ele escreveu, de sacanagem, sobre uma influencer que vendia seus puns em garrafinhas estilosas e hermeticamente fechadas. Ela fazia uma fortuna e ganhava numa semana o que ele não conseguia fazer em um ano de “trabalho” — o gif da sua tia apareceu na timeline da sua mente, outra vez. 
Como já tinha visto muitos filmes de natal e já tinha lido de tudo, desde Dickens a contos natalinos de autores de newsletters que ninguém lia, ele tinha material suficiente para trabalhar, por mais que odiasse todas as alegorias, símbolos e metáforas que essas histórias carregavam. Só que Miguel não se sentia inspirado nem para sacanear a turma do trabalho. Ele tentou de tudo, separou alguns tópicos que gostaria de abordar, escreveu a mão, digitou sem pensar no computador ouvindo playlists de oito horas de sons da natureza, mas nada parecia bom o suficiente, ou melhor, meloso o bastante (ironicamente) para ser aceito e enviado. 
Sem alternativas, ele teria que usar a sua arma secreta. Vestiu a primeira camiseta que encontrou e saiu de casa dizendo “vou ali, tia” sem nem parar para vê-la balançar a cabeça em sinal de desaprovação. Miguel desceu as escadas de cimento batido pulando dois degraus de cada vez, atravessou o beco e chegou até o Bar da Esquina, sua segunda morada, sua Taverna do Pônei Saltitante, o local onde todas as aventuras começavam.
“Pipico, desce uma gelada aí e depois chegue mais que vou precisar da sua ajuda outra vez.”
“Pro trabalho, né?“
“Sim, trabalho”, e ele mesmo fez o gesto no ar. Autodepreciação era uma das poucas artes que Miguel dominava.
Cerveja quente, tira-gostos que pareciam ter sido fritos em Urânio-37 e uma brisa fria que vinha da orla marítima para beijar a sua nuca suada. O que mais um escritor, de verdade, precisava para criar boas histórias? Ideias e causos cotidianos, coisas que aconteciam com “todo mundo”? Tinha material de sobra ali. Ele coletava tudo e depois misturava com sua vida real para criar suas crônicas e Pipico — um apelido desgraçado para um sujeito que parecia uma jamanta desgovernada, diga-se de passagem — era uma das pessoas mais engraçadas que ele conhecia.
“História de natal? Tipo aquelas que as pessoas ricas ficam felizes e deitam na neve?”
“Sei lá, pode ser qualquer coisa.”
“Qualquer coisa mesmo? Nem acho que natal é coisa da gente daqui, só pra começo de conversa.”
“Exatamente!”, Miguel espalmou a mão aberta no ar, mas Pipico estava longe demais para retribuir. Ele pensou em bater de onde estava, mas isso era coisa que só Zé Mané fazia e, de qualquer sorte, Miguel já tinha dado dois tapas no balcão, como se esse fosse o seu plano desde o início.
“Rapaz, eu não tenho história bonita de natal pra te contar não, só tragédia.”
"Essas são as melhores.”
“Porque não foram com você, né misera?”
“Sim, então, você tem uma história de natal pra me contar ou o quê?”
“O quê.”
“O que, o quê?”
“Cê me perguntou se eu tinha uma história de natal ou o quê, então…”
“Então o quê?”
“Peraí, vou pegar outra que hoje você tá devagar.”
“Ah sim, o quê. Entendi, hahaha. Natal OU o quê? O quê. Genial! Você é uma comédia Pipico.” 
“Eu tenho uma boa história de natal”, um sujeito com uma camiseta cavada do Vitória, toda furada, surgiu do nada no meio da conversa.
“E é? Me conte aí preu ver se é boa mermo”, Miguel virou-se para o senhor que possuía uma barba suntuosa toda embaraçada e que já tinha puxado um copo do balcão e se servido, sem nem pedir licença.
O velho virou o copo em um gole só, fez um sonoro “aahhhh” e já fez o sinal para Pipico trazer mais outra garrafa. Em seguida, ele fez uma longa mesura, como se estivesse recepcionando a corte real inglesa, e ficou em silêncio, esperando a cerveja chegar. Pipico abriu a tampa no balcão com uma porrada seca e serviu os dois. Ele então tomou mais um gole, gargarejou e deu dois tapas na própria garganta.
“Tem que preparar o gogó primeiro.”
“Tô vendo”, Miguel começou a coçar o braço da mesma forma que fazia sempre que sentia que estava sendo feito de otário.
“Então, vamos lá… Era uma vez…”
“Porra amigo, você vai me desculpar, mas já começou errado. Só história de criança começa assim.”
“Mas eu nem comecei. Ouça primeiro e aí você me diz se é boa ou não.”
“Tá bom. Vai, conte aí.”
“Ou você prefere as histórias de tragédia de seu amigo ali?”. O velho apontou para Pipico, mostrando suas unhas sujas.
“Eu tenho uma boa, a do pivete que bateu o carro no poste, a porra do poste caiu aqui na frente e seu Ronaldo, aquele que mora na rua ali de trás, não sei se você conhece, mas ele vinha sempre aqui, torcedor do Bahia doente o sacana. Sim, o poste caiu em cima da perna dele e ele teve que amputar a porra, lá ele!”. Pipico terminou de falar e lançou um olhar de terror para Miguel que ensaiava uma risada.
“Não rapaz, escute, Natal é história de família, coisas bonitas, fantasmas alegres e tudo o mais. Tragédia a gente já tem demais acontecendo, ouça só a minha história, você não vai se arrepender”. 
Como o velho parecia muito convicto, Miguel virou-se para ele e fingiu um olhar de interesse.
“Pois bem, em que parte da história a gente tinha parado?”
“Você nem começou”, Miguel revirou os olhos para cima e colocou a mão na testa.
“Oh Pepito, o que é aquilo ali em cima do fígado, cebola roxa?”, o velho fugia do tema com a mesma naturalidade de alguém que comprava pão de sal na mesma padaria a vida toda.
“É jiló”, Pipico respondeu já abrindo a estufa de chernobyl e puxando um prato da pia.
“Bote uma porçãozinha aí, vá", o velho lambeu os beiços, “aí, só um pouquinho que não tô com essa fome toda não.”
O velho deu duas boas garfadas, puxou três daqueles guardanapos inúteis para tentar se limpar, em vão, e continuou:
“Desculpe, viu meu filho, minha memória viaja pra longe, então, onde eu tava mesmo?”. A cara do velho nem ardia.
“ERA UMA VEZ…”, Miguel gritou, impaciente.
“Sim, isso, era uma vez… Você sabia que eu já fui colunista fixo da Tribuna da Bahia?”
“É mesmo? Isso tem quanto tempo? Dois séculos?” 
Miguel já estava pensando em voltar para casa e escrever qualquer coisa com cachorros vira-latas, um peru assando no forno e uma família que não se via há meses se reunindo e resolvendo suas diferenças, ou quem sabe poderia escrever sobre seu Ronaldo recebendo uma perna biônica de hienas humanóides e saradas que vinham do outro lado da galáxia.
“Meu amigo, como é seu nome mesmo?”, o velho perguntou enquanto enchia o copo mais uma vez.
“Miguel Almeida, e o senhor é quem, o papai noel rubro-negro?”
“Meu nome é Cláudio Santos, eu escrevia numa coluna na Tribuna da Bahia por muitos anos, fazia muito sucesso, pelo menos lá em casa. Meu filho mesmo gostava muito, mas já fui Papai Noel do Shopping Piedade também, você fique sabendo, viu.”
“Sim, e a história que você ia me contar, tá só me enrolano né?”
“Filho é um presente de Deus, sabia? É isso que a gente tem que guardar no coração. Família é um presente de Deus também e amigos são como se fosse família, era sobre isso que os meus textos falavam, sobre coisas do dia a dia, conversas que tinha no bar, na rua, no busu, onde quer que eu fosse. Às vezes a gente fica refletindo muito e querendo escrever a melhor história do mundo, ou então pensa em escrever um texto apenas para provocar algum sacana, mas nada disso dá certo. E é isso que é o espírito natalino, mesmo nesse calor da disgraça.”
“Tô ligado, você não tem história nenhuma, né?”
“Tenho sim, mas você ainda não está preparado para ouvi-la, precisa primeiro ficar em paz com seus familiares, ir lá, ligar pra quem você já não vê há um tempão e depois eu te conto a história. Para te falar a verdade, o que estou fazendo aqui, nenhum dinheiro, no mundo, paga”.
“E é o quê exatamente que você está fazendo?”
“Oxe, estou te ensinando tudo o que aprendi tomando tapa na cara a vida inteira.”
“Mas você me disse que ia contar uma história, vai ficar pra outro dia ou o quê?”. Miguel riu por dentro lembrando de Pipico minutos atrás.
“Pode ficar pra outro dia, tá ficando tarde já”, o velho olhou para o relógio em seu pulso que estava com os ponteiros parados há mais de dois anos, “eu saí pra comprar o pão e a galerinha do mal tá me esperando lá em casa”.
“Tá certo então, fica pra próxima.”, pelo jeito que o velho estava se levantando, ele não ia deixar nem um real pra inteirar a conta, Miguel já tinha suspeitado disso e já tinha feito o sinal para Pipico anotar no caderno.
Um Natal da Disgraça!”
“Oxe, oxe, oxe? Qual foi seu Carlos?”
“O título do último conto de natal que escrevi.”
“Ah.”
“Pode usar esse mesmo título na sua história, pra dar sorte.”
“Certo, e a história vai ser o quê? Pessoas conversando num bar e no final todo mundo se abraça e acabou?”
“Pra que melhor?”
Teje entregue essa desgraça então.”
“Esse é o espírito”, o velho falou já de braços abertos para Miguel.
FIM
Que você tenha um feliz natal 🎅🏾, até o ano que vem se minha memória me ajudar 😁
Descrção: Uma mulher de cabelo curto fazendo "air quotes" com as mãos.
Descrção: Uma mulher de cabelo curto fazendo "air quotes" com as mãos.
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Imagina só @marciosmelo

Contos, causos e ensaios com manchas de dendê. Uma história inédita por mês e o que mais ocorrer (ou não) nas outras semanas.

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Salvador, Bahia, Brasil