Mudanças, a fama e a mentira de Érica

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Imagina só
Quase quebro o pé, estraçalhei alguns copos e pratos, não sei onde foram parar algumas chaves, perdi dois pendrives para o Deus Salitre e lasquei um pedacinho da minha mesa de trabalho, este foi o saldo desde a minha última edição. Para completar, poucos minutos antes de sentar para escrever este texto, descobri uma coisa terrível: Érica mentiu para mim. É brincadeira?
Estive esses tempos num sobe-e-desce sem fim, empacotando e desempacotando caixas numa mudança que prometia ser simples mas que me custou muito tempo e disposição. Eu poderia ter pago para alguma empresa resolver tudo para mim, mas a ilusão da pequena distância entre os endereços — 300 metros apenas para ser mais exato — me fez crer que seria uma boa ideia deixar que eu resolvesse quase tudo sozinho. 
O mês do desgosto, como muitos chamam — mas que para mim é especial pois abre com o meu aniversário — está caminhando para o fim e eu ainda não terminei a bendita mudança. Falta aquele arremate final no apartamento antigo, aquele em que a gente decide quais coisas vamos deixar para trás (de vez). Pelo menos ainda sobrou tempo para cumprir a proposta desta newsletter e, por falar nisso, um pouco de momento fama:

aline valek
"E quando Américo Vespúcio estava vivo, como é que ele chamava a cor laranja?"

Voltando a ler os projetos finais dos alunos do meu curso na @domestika e encontrando textos bem divertidos!

https://t.co/o1kJecXmO0
Pois bem, a última edição da newsletter foi lida pela pessoa que é a responsável direta pela criação desse cantinho aqui. Foi com o seu curso na Domestika — nem preciso dizer que recomendo bastante — que cheguei a este projeto. Além de conversar comigo no tuiter, ela também deixou algumas dicas que devo implementar nas próximas edições, ou seja, mudanças devem vir por aí.
E para quem ainda não conhece Aline Valek, vale muito a pena correr atrás de seus livros, assinar sua newsletter, ouvir seu podcast e tudo mais.
As coisas que achamos nas mudanças
Zilhões de caixas me fazem companhia no novo lar. Bom, ao menos agora eu tenho uma varanda para poder refletir não só na mentira de Érica mas também nas coisas que achei durante a mudança.
Sim, ao contrário do que se é esperado, eu achei coisas na mudança. Perdi quase nada. Aliás, queria ter perdido mais, já doei uma penca de livros (bons, novos, legais) para um biblioteca comunitária e muitas roupas e calçados (em ótimo estado) para uma ong, mas ainda queria me desfazer de mais coisas. Se você tem interesse num guitar hero, numa prancha de surf ou em HQs de Star Wars, jarros de suco de gosto duvidoso, copos da copa do mundo e uma sorte sem fim de quinquilharias é só me avisar 😁
E não é só isso, acho que chegou a hora de organizar as coisas por aqui que andam muito soltas e um pouco parecidas com o quarto no qual estou escrevendo. Tudo o que preciso está por aqui em algum lugar, mas se der uma arrumadinha as coisas começam a fluir melhor. É o que espero e, talvez, precise da ajuda de alguém que saiba bulinar com design ou criar imagens no canva.
Advinha quem foi a primeira pessoa a se instalar e se sentir confortável antes mesmo de metade das coisas chegarem?
Advinha quem foi a primeira pessoa a se instalar e se sentir confortável antes mesmo de metade das coisas chegarem?
Descrição da imagem: Um cachorro caramelo chihuahua deitado sobre um lençol rosa estendido no chão, a sua frente uma tv ligada.
A Mentira de Érica
Para quem é novo e já nasceu nesse mundo conectado e que trouxe tanta gente e ideias desprezíveis para o nosso dia-a-dia, no século passado os scraps/dms/tweets/posts ficavam em locais físicos. Até mesmo recados de telefone eram anotados em papel, numa folha perdida que surgia na mesa do telefone (sim, ele tinha uma mesa) ou num caderno guardado especialmente para este fim. E não parava por aí.
Numa parede de um banheiro você podia saber coisas interessantíssimas como por onde a boca de alguém que você conhecia andava, por exemplo, ou ainda ler mensagens motivacionais que convidavam você a ir para aquele lugar mesmo que não tivesse feito nada para isso. Nas ruas você poderia descobrir que iria ter um show de uma banda com um nome esquisito e que depois se tornaria uma de suas favoritas por muito tempo, ou até mesmo se dar conta de ter pedido um evento legal pois parou para ler aquele lambe-lambe tarde demais. Coisas de gente velha, de um tempo que nem era tão bom, mas a gente diz que sim pois nos ensinaram a espalhar a positividade para atrair as coisas boas da vida (dívidas, ansiedade e desespero). Uma ladainha para a gente se sentir culpado por toda a aleatoriedade de coisas frágeis e inexplicáveis que se sucedem e formam as nossas histórias.
Eu achei muita coisa inesperada na mudança, moedas enferrujadas(?), dezoito dólares — acho que dá até para comprar um carro zero se converter —, oito mil cabos usbs, um canudo ecológico, um delorean da hot wheels na embalagem e livros ainda no plástico. O Virgem de 40 anos, no final das contas, era um documentário de vanguarda, vejam vocês. Só que nada disso me pegou tão de jeito quanto uma sacola de plástico que, incrivelmente, estava se desmanchando, cheia de pequenas camisas emboladas.
Quando as abri, reconheci os emblemas de algumas escolas que estudei no século passado e, todas elas, estavam autografadas pelos meus colegas de sala. Um colégio que nem existe mais guardava algumas mensagens que me fizeram repensar toda a minha vida. Aparentemente eu sempre fui pirracento e abusado, não é algo que adquiri com a velhice. Mais de um colega deixou explícito que eu era até gente boa, mas muito chato. E isso acompanhado de um Feliz Natal que, agora parei pra pensar, talvez tenha sido totalmente falso.
Raul, que andava com estilosos mullets, me fez prometer que eu nunca mudaria de time. Só que dada a trajetória do Vitória do início dos anos 90 até aqui eu começo a pensar que, na verdade, ele gravou na minha camisa uma maldição. Só que nada se compara a Érica. Não mesmo!
Você ia no circo e saia com uma foto sua num desses monóculos. Eu acho que ainda tenho alguns na casa de meus pais.
Você ia no circo e saia com uma foto sua num desses monóculos. Eu acho que ainda tenho alguns na casa de meus pais.
Descrição da imagem: Dezenas de monóculos de fotografia (ou binóculos) coloridos. Pequenas peças de plástico que cabiam entre os dedos com uma lente numa extremidade e uma tampa branca na outra onde se tinha uma foto minúscula.
Ela não era de conversar muito, sempre sentava perto da janela para ver qualquer coisa que não fosse a aula. Quase nunca comia na cantina, ficava na sala na hora do recreio, tomando o mesmo suco de sempre: maracujá acompanhado de um pão delícia com recheio. Às vezes o pai dela vinha buscá-la, de moto, o que causava um frisson na escola. Ela tinha um capacete branco com detalhes vermelhos, que eu achava bem estiloso e parecido com o de Jaspion, e foi isso que fez a gente começar a conversar. 
Já estávamos na segunda unidade daquele ano de 1992 e quando ela me ouviu falar com Raul pela milésima vez sobre o capacete branco dela (porra, que saudade, ele era um grande amigo, daqueles pra se guardar, mas a vida não é como a gente espera) ela deu risada e começou a me chamar de Jaspion. Descobri dias depois que nem era um capacete de moto, era pra motocross na verdade. Segurança, bom senso e prudência, você não encontrava nada disso nos anos 90.
Naquele tempo, quando se saía de férias, você não tinha a mínima ideia de quem iria encontrar no próximo ano na escola. Não tinha perfil pra seguir ou stalkear, não tinha rede social para ver dancinhas, vídeos ou deixar um like pra pessoa saber que você está ali, curtindo o que ela está fazendo, ou melhor, com preguiça de trocar algumas palavras e interagir com ela (Ligar? Você tem algum problema psicológico?).
E as camisas no último dia, para desgosto dos pais que não queriam comprar novos uniformes no próximo ano, era o nosso mural de recados e, quase sempre, de despedidas.
No último dia letivo de 1992, em Salvador, eu estava recolhendo minhas últimas assinaturas da minha turma do primeiro grau (agora, ensino fundamental) quando Érica começou a escrever nas minhas costas avisando que eu só poderia ler quando chegasse em casa. Obedeci.
A despedida daquele último dia de aula não foi como nos filmes, o pai dela não apareceu com a moto e saiu cantando pneu enquanto todas as crianças sorriam e gritavam “uau”, quem a foi pegar foi o seu avô numa daquelas Caravans bege-cocô horrorosas. Tinha um poodle encardido na janela e os pneus estavam baixos. Ela nem olhou para trás e, logo em seguida, André, rindo, escreveu na parte da frente da minha camisa e me lembrou que eu era um bom colega. Pontuou também algo importante e que eu nunca tinha imaginado. Disse que eu era guri.
Rimos, nos abraçamos e só fui reencontrá-lo no ensino médio. 
Quanto a mensagem de Érica, provavelmente eu devo ter lido assim que cheguei em casa junto com todas as outras, mas como tantas coisas do século passado, caíram no esquecimento até poucos dias atrás, quando me dei conta que a mentira que ela escreveu já vai fazer trinta anos!
“Um beijo da sua sempre amiga Érica” 😤
É muito doido como a gente nunca sabe quando vai ser a última vez que vai ver alguém. Como já diria a turma da Religião Urbana, “…pra sempre, sempre acaba”.
A maioria das mensagens ficou atrás, ainda tenho do Nossa Senhora da Luz, Marízia Maior 1995, Colégio PhD 1998. Fica para os próximos envios
A maioria das mensagens ficou atrás, ainda tenho do Nossa Senhora da Luz, Marízia Maior 1995, Colégio PhD 1998. Fica para os próximos envios
Descrição da imagem: Uma camisa branca, encardida pelo tempo, da Escola Ana Neri com diversas assinaturas.
Por hoje é só
Pessoas, ficamos por aqui hoje. Depois de ler tantas mensagens nessas camisas que estavam escondidas, brotaram algumas ideias na minha mente, por isso postei apenas uma delas aqui já que penso usar as demais (frases) em textos futuros.
Isso é um desejo, não uma promessa pois, como sempre pontua Aline Valek, nunca confie no narrador…
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Imagina só @marciosmelo

Contos, causos e ensaios com manchas de dendê. Uma história inédita por mês e o que mais ocorrer (ou não) nas outras semanas.

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Salvador, Bahia, Brasil