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Imagina só - Laranja

Imagina só
A maioria das pessoas que me conhece, em especial meus familiares, não tem a mínima ideia do que eu faço no trabalho. Alguns se espantam quando não sei qual melhor celular comprar, o porquê de um notebook não carregar a bateria direito ou ainda como dar uma ajeitada num microondas que tá fazendo uns barulhos estranhos. Impressora? Nem me procurem. Sério.
E tentar explicar o que faço é tão chato que geralmente sintetizo dizendo que sou “Analista de Sistemas”, ou seja, sim, eu passo o dia inteiro sentado numa cadeira gamer com a mão no queixo olhando o monitor por horas até finalmente dizer ao código: 
Olha, o que você precisa é tirar essa vírgula daqui e colocar mais um espaço na linha 322, é tudo problema de herança. E voltando ao questionamento inicial, sim, apesar de ser muito mal escrito você é um sistema”.
Nessa edição, vou trazer uma versão revisada de um texto que escrevi há 84 anos atrás. Guardarei esse link para enviar sempre que alguém perguntar o que faço. Ele não vai responder todas as perguntas (provavelmente nenhuma), mas acredito que falar sobre um dia de trabalho que tive talvez possa deixar claro a todos que eu não sei consertar uma impressora. Nem jato de tinta, nem a laser, nem com tanque de biodiesel.

Mandando brasa nos códigos (cena da série IT Crowd)
Mandando brasa nos códigos (cena da série IT Crowd)
Analista de Sistemas, Programador, Desenvolvedor de Software, etc.
Em alguma terça-feira do início deste século, em meu primeiro emprego com carteira assinada numa empresa de Consultoria de TI daqui de Salvador, um colega imprimiu (ele era audacioso, usava impressoras) a frase ‘NADA É SIMPLES’ e colocou bem na entrada da nossa sala: O departamento de Manutenção de Software, nome bonito para “todo mundo aqui se fode o dia todo corrigindo código ruim criado por pessoas ruins ou sem tempo que, na real, é a gente mesmo”.
Mais do que um enigma filosófico, ou uma função recursiva semântica que a gente nunca entende, apenas vai na fé, este era um aviso claro para todos que chegavam com pedidos na nossa sala.
Para os que demandavam, não existia nada complicado a ser realizado, tudo era sempre “muito simples” quando explicado, mas na hora de meter a mão na brasa a gente via que não era bem assim, afinal, o diabo mora nos detalhes e nas obviedades não ditas. Esse colega estava na vanguarda e a gente achou que ele era apenas um maluco corajoso demais para colar avisos desaforados e usar impressoras no ambiente de trabalho.
O texto a seguir trata-se de um sneak peak, uma pequena amostra de um dia de trabalho como programador (se você for o cara que faz a piada do pavê pode falar ‘Garoto de Programa’ e rir, sozinho, enquanto observa as pessoas ao redor em puro estado de desconforto e constrangimento). 
Diferente dos meus outros contos e crônicas que possuem apenas 10% de mentiras, esse aqui aconteceu cem por cento real oficial, mas antes do texto, uma informação pertinente para o seu conhecimento:
Trabalhar com desenvolvimento de software envolve, na maioria do tempo, repetir alguma dessas duas atividades básicas (exaustivamente):
  1. Copiar algo pesquisado no Google para colar em seu código e torcer que funcione (tendo em mente que o sentido de “funcionar” em programação é  bastante amplo).
  2. Usar alguma matemática mística para calcular o prazo de entrega de uma tarefa. Tarot, rolar dados de RPG, pensar em valores aleatórios baseados na numeração dos grandes astros da NBA ou da Série C do campeonato Brasileiro, vale qualquer coisa para deixar quem demandou a tarefa satisfeito. Você apenas diz uma data fantasia, hipotética, ou concorda com o prazo absurdo que lhe deram e é isso. No fim, você entrega o que der, podendo inclusive ser um arquivo zip propositalmente corrompido — isso nunca aconteceu 😜, é só pra deixar o texto mais divertido — para que, assim, você tenha tempo de terminar seu código até a pessoa descobrir que o arquivo não está abrindo. Acredite, tem vezes que demoram semanas até alguém usar seu código que precisava ser entregue em dois dias (sem falta!) de verdade.
Laranja
A necessidade do satanás cliente era trocar a cor do título de um relatório. 
Simples, não é mesmo? 
Claro que não! Complexo, variável, IMENSURÁVEL. Só que antes de conseguir explicar porque precisaria de pelo menos 6 horas para pensar — percebam que não escrevi resolver, resolver já seria  outro prazo — numa solução, como sempre, um grito do sétimo selo bagaçou minha orelha esquerda:
NEM VENHA COM SUA CARINHA SONSA MÁRCIO, ISSO É CINCO MINUTOS. PELO AMOR DE DEUS!!1!” 
Cansado de dar murro em ponta de faca, estava num estágio em que apenas aceitava e seguia em frente, mesmo sabendo que em cinco minutos não daria tempo nem de pegar uma nova dose de café.
— Qual cor o cliente deseja? Pergunta eu, o inocente programador, ou melhor, Jedi Developer, Hacker Influencer, Designer Thinker do Código.
— Laranja.
— Laranja?!
— Sim, laranja, o que é que tem?! Discute não, o cliente que tá pagando!
Imagina só, você que está lendo este texto vai assumir agora o meu lugar e tudo vai ser escrito em segunda pessoa a partir daqui. Que Zuckita não me leia (e quem mais me lê além de vocês?), mas esse é o verdadeiro metaverso.
***
Já se passaram 10 minutos e a porra da tarefa já está atrasada. A data fantasia de entrega, como de praxe, foi pro saco. E aí você pensa: 
Ok, vamos lá. É hora de sentar o dedo”.
Primeira coisa que você faz? Claro, abre uma aba no navegador que lhe joga naquela fleumática (se vierem ai pra pesquisar o significado) página de pesquisa.
E sua mente está concentrada para resolver a atividade? Óbvio que não. Ela está aqui ó:
Laranja… É uma cor e também é uma fruta. Olha só que curioso. Se a laranja é uma cor e também uma fruta, o que será que veio primeiro? A cor laranja que deu nome a fruta (de mesma cor) ou a fruta que tinha a cor laranja? Como é que se pode terminar a tarefa e alterar o título desse relatório sem antes descobrir esse mistério milenar? Impossível.
Estupefato, você descobre que, na verdade, a cor laranja ganhou esse nome em 1512.
Mil quinhentos e doze, já parou pra imaginar o que estava rolando no mundo há mais de 500 anos atrás? Como tudo deveria ser? Não tem jeito, mais uma aba precisa ser aberta.
O ano é 1512 e, dentre vários acontecimentos, enquanto os indígenas estavam sendo massacrados no Brasil pelos Portugueses que traziam doenças e saqueavam nossas riquezas dizendo que estavam, na verdade, fazendo um grande bem para o nosso país com a colonização, afinal, sem eles, tudo ainda seria mato por aqui, um site confiável em que qualquer um pode escrever o que quiser lhe informa que este foi justamente o ano em que Américo Vespúcio, famoso navegador italiano, morreu.
Vespucinho, morreu?!
Vespucinho, morreu?!
Imagina só morrer em 1512 sem saber que a cor laranja ganhou este nome devido ao pé de laranja. Sim, primeiro veio a fruta e depois veio a cor: Laranja. Que loucura hein? Morrer sem saber que existia uma cor que surgiu a partir do nome de uma fruta, a laranja. Só que não existe tempo hábil para meditar nessa informação transcendental, uma voz, mansa, chega no pé do seu ouvido para lhe acordar:
Quede meu pacote? Não acabou ainda?! É só trocar uma cor, já tem mais de meia hora nisso. Pelo amor de Deus!
O tempo de entrega já foi pro caralho, Deus não liga para relatórios mas a todo instante é chamado em vão e você começa a fechar algumas abas sem entender porque abriu metade delas. 
Bom, vamos lá… Hora de entrar no site com milhares de códigos para cores e encontrar um tom de laranja decente pra não ficar tão ridículo um relatório com um título pintado em laranja aceso. É só abrir mais uma aba.
Você poderia ter ligado o velho ‘foda-se’ e colocado simplesmente style=“color:orange” na folha de estilos ao invés de escolher um laranja menos batido e fuleiro? Poderia sim, mas não, melhor trabalhar direito.
Bom, #FFA500. Laranja ‘ok’. É só colar no código CSS e pronto. Mais fácil do que isso impossível.
CHUPA VESPÚCIO!
Mas perainda…
E quando Américo Vespúcio estava vivo, como é que ele chamava a cor laranja? Será que ele usava em águas internacionais o inglês orange, como eu deveria ter colocado direto no código logo e evitado toda essa jornada sem fim? 
Simples é o caralho! Repitam comigo no replay:
NADA É SIMPLES!
Hora de fechar algumas abas para liberar um pouco de memória — já que o navegador está ávido para consumir toda a RAM do bairro — e ter espaço para abrir uma nova, a última, você promete.
E é nesse momento que, embasbacado, você descobre que a cor laranja, que ganhou esse nome por conta da fruta de mesmo nome, enquanto seu Américo que, espero, com esse nome sabia falar inglês apesar de ser italiano e navegar por Portugal e Espanha, ainda estava vivo, se chamava na verdade YELLOW-RED
BI-ZAR-RO!
Boom!
Boom!
Depois de catar os restos de seus miolos pelo chão, você olha no relógio e descobre que finalmente é hora. Não dá mais para adiar.
É hora de pegar outra xícara de café pra ver se esse complexo código, que poucos engenheiros da NASA ou da Google seriam capazes de criar, fica pronto antes do expediente terminar.
inbox (1)
1 de julho, 22:37
Entrega 312: Alteração do título do Relatório Trimestral
Olá, a alteração ficou ótima, muito obrigado. Só uma coisa. Será que daria para alterar a cor do título? É que laranja não ficou bom e a impressora aqui é preta e branca.
Kind regards,
João Gomes
Ps: Se puder entregar ainda hoje, seria fantástico.
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Imagina só
Imagina só @marciosmelo

Contos, causos e ensaios com manchas de dendê. Uma história inédita por mês e o que mais ocorrer (ou não) nas outras semanas.

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Salvador, Bahia, Brasil