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Imagina só - Edição Nº5: Valentina e o robô sincero, parte 2 de 2

Imagina só
Acho que faltei traduzir o de hoje a oito da edição passada para os estrangeiros, mas já deu para sacar que é apenas uma semana. Para duas, isso mesmo, de hoje a quinze (se você pensou 16 ainda não posso lhe dar o visto no passaporte).
A segunda e última parte do meu conto sobre Valentina e seu assistente inteligente da prefeitura está aqui, espero que gostem do final que, na minha cabeça, ainda precisaria de mais páginas.
Quem sabe num futuro inalcançável eu reescreva esse conto e transforme numa noveleta.

Valentina e o robô sincero, parte 2
Valentina mal teve tempo de arrumar a mesa e a parede da sala estampou a imagem de sua amiga. As duas se pareciam muito, a diferença era que Suzana Oliveira era um pouco mais alta e não pintava os cabelos grisalhos. Quando as duas andavam juntas, algumas pessoas as tomavam como irmãs, ao que Valentina sempre se adiantava em dizer que era a caçula da “família”. Suzana carregava uma garrafa e aguardou até que a porta fosse aberta para falar.
— Oi amiga, cheguei e trouxe um presentinho. — Suzana falou, entrando no apartamento, sem cerimônias. Deixou uma garrafa nas mãos de Valentina e esticou a boca quando viu o robô — Olha, ele é uma belezura mesmo, hein? Tinha visto a propaganda, mas eles são tão caros. Tu comprou esse bicho como? — Suzana, já com as mãos livres, apertava os braços do robô.
— Sabe como é, estava com umas economias — o visor do autómato acendeu em vermelho e Valentina olhou para Suzana que continuava a agir normalmente, afinal ela nunca tinha visto um robô daqueles ao vivo — E olhe que maravilha, licor de jabuticaba. Produzido e engarrafado em Cachoeira, Bahia! É o meu licor favorito! — Valentina falou enquanto guardava a garrafa na cozinha, sem nem ver os vários tons de vermelho que acendiam no visor de seu companheiro inteligente.
O tempo corria e Valentina, a todo instante, projetava as horas debaixo da mesa, torcendo para que sua visita fosse logo embora. Suzana preferia os pãezinhos delícia recheados, mas Valentina respondeu, enquanto o robô voltava a acender seu visor em vermelho rubro, que infelizmente só tinha encontrado os sem recheio na “delicatessen”. Só quando o sol já estava dando adeus a mais um dia em Salvador, Suzana levantou-se. 
— Amiga, posso ir ao toalete? 
— Claro, você já sabe onde fica. — respondeu frustrada, achando que ela tinha se levantado para ir embora.
Assim que Suzana fechou a porta do banheiro, Valentina aproximou-se do robô e pediu que ele fosse buscar uma vassoura na área de serviço e depois a colocasse atrás da porta do quarto. O autômato obedeceu, mas seu sistema quase travou procurando uma resposta para tentar decifrar aquele comando. A sua inteligência era evolutiva, a cada segundo aprendia mais e se aprimorava, mas por mais preparado que fosse, ainda era um protótipo que não compreendia todos os mistérios da raça humana. Levaram alguns segundos, mas a resposta foi encontrada quando ele adicionou as palavras-chave “superstições” e “energia mística”.
— Amiga, muito obrigado, estava tudo maravilhoso. Adorei seu café. — Suzana falou enquanto abraçava fortemente Valentina. O robô já tinha voltado da sua missão e, finalmente, acendeu uma luz verde em seu visor — A próxima vai ser lá em casa. Tchau robô, foi um prazer te conhecer. Cuide bem da minha amiga, viu? Se não o bicho vai pegar pro seu lado.
— Interessante, agora eu entendi — O robô falou e Suzana, que já estava do lado de fora do apartamento, alternava olhares curiosos entre o robô e sua amiga.
— O quê? — Suzana perguntou segurando a porta, para o desespero de Valentina.
— A vassoura funciona realmente — Completou o autômato.
— Esse robô, vou te contar, viu. Ele tá é meio lelé da cuca, vou ter que devolver que ainda tá na garantia. — Valentina falou já se despedindo de Suzana, que saiu desconfiada.
— Você quer me lenhar é robô? Valentina retrucou para a máquina assim que fechou a porta.
— Não entendi — respondeu o robô.
— Rapaz, assim você me quebra. Eu já não aguento mais esse protocolo fuleiro seu aí de honestidade. Me deixe, viu. — Valentina falava andando de um lado para o outro da sala — Como é que eu peço pra Enzo te levar embora?
— O grande prefeito Enzo Magalhães Júnior não virá me buscar. Será designado um funcionário da unidade mais próxima da prefeitura para esse serviço. E se eu for devolvido, serei destruído. Se é isso que você deseja, diga ativar protocolo de devolução e o processo será aberto. — O robô concluiu e ficou em silêncio.
Valentina estava de saco cheio de tudo aquilo, já tinha passado vergonha no mercado, quase pagava um mico enorme na frente de sua amiga e aquele robô encanando suas mentiras não ia dar certo. Injuriada, ela gritou “ativar protocolo de devolução”, tirou a vassoura de trás da porta e a levou para a área de serviço novamente. Voltou para o quarto e, ao passar na sala, observou o robô lá, parado, como se fosse um eletrodoméstico fora da tomada. Não demorou muito tempo e o visor da entrada acendeu na parede outra vez. Lá fora, um sujeito com o uniforme azul da prefeitura de Salvador aguardava ser atendido. Valentina sentiu um embrulho no estômago quando viu o robô imóvel no canto da sala, mas assim que porta se abriu, o autômato andou em direção a cozinha e sumiu. Valentina achou aquilo estranho. Será que o tal protocolo de devolução já estava entrando em ação?
— Senhora Valentina, boa tarde. Meu nome é Rodrigo Freitas e falo em nome da Prefeitura Bairro da Boca do Rio. A senhora solicitou uma devolução do autômato inteligente, não foi? — Perguntou o rapaz, ainda do lado de fora do apartamento.
— É que ele veio com algumas avarias e me causou alguns problemas, mas me diga uma coisa, ele será devolvido e vai para outra pessoa, é isso? 
— Não senhora, os robôs quando ativados não podem mais ser reprogramados. Eles são destruídos, mas o que queria saber era… 
— Destruído? Crendeuspai — Completou Valentina, que viu o robô sair da cozinha segurando a vassoura e chegando até a porta da sala com passos calculados.
— Então, a senhora abriu o protocolo de devolução, mas antes precisa responder e concordar com os termos legais para ativar o protocolo de recebimento. Eu vim aqui para lhe ajudar com isso. — completou Rodrigo, enquanto o robô deixava com um cuidado extremo a vassoura na frente da porta da sala, bem ao lado do funcionário da prefeitura — É, parece que ele tá meio avariado mesmo. Ele veio varrer aqui fora ou quê?
— Foi eu quem pedi para ele colocar a vassoura aí, é uma brincadeira nossa — O robô acendeu seu visor em vermelho — E eu pensei melhor, acho que vou testar ele mais um pouco antes de me decidir.
Depois de Valentina completar os procedimentos para aceitar o autômato como seu novo companheiro, o funcionário da prefeitura foi embora. O robô pegou a vassoura e ficou analisando aquele artefato mágico humano. Valentina deu dois tapinhas no que seria o ombro do autômato e sentou-se no sofá, olhando diretamente para ele.
— Olhe robô, você escapou por pouco. Você tem que se ligar mais e parar de ficar me cagoetano pra todo mundo, se não da próxima vez eu te mando lá pra casa da porra. — ela falou, segurando a mão do autômato — E a partir de agora pode me chamar apenas de Valentina. Estou começando a gostar de você, robô.
O visor do autômato acendeu um verde esmeralda e Valentina sorriu.
FIM
Descriçao: Uma vassoura num chão de madeira - Photo by @neal_johnson
Descriçao: Uma vassoura num chão de madeira - Photo by @neal_johnson
Na próxima edição...
Não sei se começar me prendendo a um futuro apocalíptico de uma Salvador submersa tenha sido a melhor ideia, estou pensando em, a cada edição, variar um pouco os cenários e histórias até encontrar um formato que fique mais interessante.
Tenho quatro contos em Waterhorto iniciados, faltando apenas aquela ajeitada final antes de tomar coragem para enviar para vocês. Tenho também outras histórias mais positivas como esta, vamos ver qual delas estará mais pronta até a próxima edição.
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Imagina só
Imagina só @marciosmelo

Contos, causos e ensaios com manchas de dendê. Uma história inédita por mês e o que mais ocorrer (ou não) nas outras semanas.

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Salvador, Bahia, Brasil