Ver perfil

Imagina só - Edição Nº4: Valentina e o robô sincero

Imagina só
Criar uma história por mês parece algo tangível, mas é quando crio sinucas de bico que nem eu mesmo sei como resolver como, por exemplo, para que serve um alçapão num meio de uma jangada de alumínio, ou por quê todo mundo tem medo das meninas dos pedalinhos que tento encontrar soluções mais simples. E é o que vou fazer hoje.
Como prometido, trago mais uma nova história na sua caixa de emelho, não é no mesmo cenário apocalíptico de Waterhorto, mas é numa Salvador do futuro. Um futuro mais quente, menos submerso e mais positivo, ainda que os soteropolitanos continuem xingando com carinho. Levemente inspirado no cenário do Sertãopunk que pretendo aprimorar com outras histórias que já abri, mas faltam finalizar.
Nessa edição, vocês vão conhecer dona Valentina, uma senhora que um dia recebe um presente inusitado da prefeitura de Salvador.
Escrevi ela para um edital do Senai sobre Contos Tecnológicos e como não ficou entre as selecionadas, vocês vão pagar o pato de ter que ler até o fim. Eu gosto dessa história, ainda que ache que ela ficou muito “compactada” e talvez precisasse de mais páginas. Enfim, espero que gostem da leitura.

Valentina e o robô sincero
Valentina precisou pôr seus óculos multifocais para acreditar no que estava vendo. O visor projetado na parede do seu quarto apresentava um anúncio municipal registrado em seu nome, esperando a confirmação de recebimento. “Mensagem”, ela falou com uma voz rouca e uma imagem com o logo da Prefeitura Municipal de Salvador surgiu.
— Olá, senhora Valentina Passos Souza. Aqui quem fala é Enzo Magalhães Júnior. — a cara cínica do prefeito surgiu de dentro de uma pomba branca e foi se ampliando até tomar toda a parede — Dentre os mais de noventa mil moradores da Boca do Rio, você foi sorteada para participar do programa de Inteligência Artificial da Prefeitura e vai poder testar um dos protótipos robóticos assistidos gratuitamente. É isso mesmo, de graça! Basta abrir a sua porta e receber seu novo companheiro. E se em algum momento não quiser mais participar dos testes, basta solicitar a sua devolução e nós vamos buscá-lo em sua casa.
Valentina não queria nenhum robô, mas a palavra grátis a animou. O que poderia dar errado ao aceitar, gratuitamente, um robô para fazer tudo o que ela pedisse? Ele ajudaria a carregar suas compras, limpar a casa e ainda botar inveja na vizinhança. Largou os óculos em cima da cama e foi até a porta do apartamento receber a encomenda. O robô não era tão grande quanto imaginava; era mais baixo que sua geladeira e tinha o formato humano, mas na sua cabeça, ao invés de olhos, tinha um visor contínuo cheio de pequenas lâmpadas. Deu uma volta para observá-lo melhor. Em suas costas estava a marca da prefeitura e, no seu braço esquerdo, lia-se em letras violetas a frase “o futuro ainda não está escrito”.
— Robô, ativar, ligar, acordar — Valentina tentava adivinhar a palavra mágica.
Luzes coloridas piscaram no visor. O robô mexeu os braços e girou a cabeça várias vezes. Valentina tomou um susto e deu um salto para trás. Essa pequena proeza física, que era demais para a sua avançada idade, deixou-a com falta de ar.
— Olá Valentina Passos Souza. Sou o seu assistente pessoal inteligente. Sigo todas as diretrizes internacionais de segurança e meus protocolos de não agressão estão sempre ativados. Preciso que você escolha um nome para mim.
— Pode ser Robô mesmo. E me chame de dona Valentina, por favor. 
— Ok, agora eu me chamo Robô Mesmo. Em que posso servi-la, dona Valentina? 
— Valei-me nossa Dulce dos Pobres. Inteligente uma porra, você é burro é, misera? Não é “robô mesmo”, é apenas Robô o seu nome agora. Ro-bô — Valentina gargalhou.
— Entendi. Robô — Repetiu sem emoção e numa linguagem neutra a máquina.
— Entre, vá. Me espere aqui que vamos no mercado pra ver se você é retado mermo.
Valentina trocou a roupa, borrifou um perfume nos pulsos e deu uma última olhada no espelho antes de sair. Ela só chamou o robô quando já estava fora de casa. A máquina tinha uma pisada silenciosa, apesar de possuir quase trezentos quilos.
— Vou receber uma aumiga em casa daqui a pouco e preciso comprar algo para aquela morta-fome comer — Ela sussurrou no que imaginava ser o ouvido da máquina, sem saber que os sensores auditivos ficavam espalhados por toda a extensão do seu corpo. Luzes piscavam no visor do robô, como se ele estivesse processando a mensagem que acabara de receber. Valentina esperou uma resposta, mas a máquina não emitiu nenhum som, apenas a seguiu como um cachorro adestrado. Ela então apertou o passo até chegar à Cesta do Povo. As portas de entrada abriram-se para ela após o reconhecimento facial, mas o autômato apenas emitiu um bipe e passou direto, sem precisar parar. O mercado estava bastante cheio para um dia de terça-feira, então, sem perder tempo, Valentina escolheu um bolo de laranja e pegou uma caixa de pãezinhos delícia — optou pelos sem recheio depois de comparar o preço com os recheados. Quando levantou a cabeça para entregar as mercadorias para o robô, não o encontrou por perto. Olhou para os lados e o procurou até onde a sua miopia permitia, sem sucesso. Foi para o corredor do lado e só então avistou a máquina vindo em sua direção, carregando um pacote de ração canina.
— Aqui, dona Valentina. Peguei para sua aumiga. — a máquina parou em sua frente.
— Ela bem que merecia, aquela cachorra. Você precisa entender que quando eu digo aumiga não estou falando de uma cachorra não, inferno. Devolva isso, já peguei o que queria. 
A fila do caixa que Valentina escolheu estava enorme. Ela segurava o bolo e os pãezinhos esperando o autômato retornar. Pouco tempo depois, ele parou ao seu lado e girou a cabeça. Seu visor começou a piscar outra vez.
— Dona Valentina, a fila de idosos está vazia. Se formos para lá, economizaremos doze minutos e quarenta e sete segundos do seu dia. — o autômato falou num volume muito alto, o que fez todos ao redor virarem em sua direção. Os olhos de Valentina arregalaram de uma forma tão brusca que o robô ativou os protocolos médicos de seu sistema, varrendo todo o corpo da sua dona enquanto vasculhava seu histórico hospitalar procurando por algum indício de problema de saúde iminente.
— Você é burro é? Inteligente, ai, ai… Aonde essa desgraça é inteligente? Eu sou jovem, tenho nem cinquenta anos! — Valentina gesticulava e falava alto, certificando-se que todo mundo estava prestando atenção nela — Tô achando que vou ter é que te devolver, isso sim.
— Segundo seu cadastro no SUS, a senhora já tem…
— Robô, mudo. — Valentina falou apontando o dedo indicador para a cara do autômato que nem conseguiu completar a frase. Luzes vermelhas e verdes começaram a acender e apagar por um longo tempo enquanto a máquina continuava parada ao seu lado — Vamos ter uma conversa séria quando chegarmos em casa, viu? Até lá fique de bico fechado, por favor. Não aguento mais essa sua vozinha mansa insuportável.
E assim a máquina fez. Valentina não contou, mas depois de esperar exatamente os doze minutos e quarenta e sete segundos que o robô a havia previsto, ela saiu do mercado. Voltou para casa de queixo empinado, enquanto as pessoas na rua paravam o que estivessem fazendo para olhar aquela monstruosidade caminhando com graça e leveza ao seu lado, segurando as compras em completo silêncio. 
— Robô, vamos combinar uma coisa. — Valentina falou quando chegou em casa — Nada de ficar por aí dizendo a minha idade pra Deus e o mundo. Sou uma mulher jovem e nunca precisei de ninguém pra ficar dando nota da minha vida não, viu? A gente não precisa falar tudo pros outros — ela completou e só então o robô voltou a falar:
— Desculpe, dona Valentina. Meu sistema atua com o protocolo de honestidade total ativado. Eu sou capaz de detectar mentiras apenas analisando o comportamento das pessoas. Eu só queria ajudar. Achei que você gostaria de ter mais tempo para receber sua aumiga que não é um cachorro, mas sim uma pessoa humana e bípede como a senhora.
— Senhora tá no céu. Agora é que foi, eu vou andar com a porra de um detector de mentiras do meu lado o tempo todo? É brincadeira uma porra dessas? Você é polícia por um acaso?
— Não, não sou da polícia e nem estou brincando. Eu não tenho permissão para desativar o modo honestidade total, mas posso eliminar as notificações vocalizadas dele. Ainda estarei detectando e informando as mentiras que ouvir, mas emitindo apenas notificações visuais. É isso o que a senhora deseja? Se sim, diga sim. Se não, diga não.
— Siiiiim! Me ajude a te ajudar, meu filho — Valentina pousou as duas mãos na cintura e continuou — E visual é como? Vai aparecer escrito no seu visor pra Deus e o mundo ver, é?
— Sempre que eu detectar uma mentira, meu visor ficará vermelho. Verde se for verdade.
— Que inferno, agora eu tenho que torcer pra ninguém perceber a porra de um sacana desse me denunciando. Só falta agora você imprimir meus IPTUs atrasados.
Valentina nem teve tempo de se arrepender do que tinha acabado de falar, um documento já estava sendo impresso no peitoral do robô. De onde estava, sem seus óculos, ela não conseguia ler nada, mas o logo da prefeitura de Salvador denunciava que seu assistente inteligente era inteligente até demais.
Valentina só conseguia pensar em uma coisa, “pra que eu fui me meter nessa porra”, já estava começando a ficar injuriada com a ideia do programa como um todo, estava mais do que na cara que ela estava fazendo papel de idiota e sendo espionada pelos poderes públicos, mas ela precisava de ajuda se quisesse arrumar a mesa à tempo de receber sua aumiga querida.
***
Continua...
O conto foi escrito para um outro formato e, por isso, vou dividi-lo em duas partes novamente. Sim, não pensei num gancho outra vez, apenas quebrei numa mudança de cena que é justamente quando Valentina vai receber a visita de sua amiga com o assistente cagoete ao seu lado para infernizar, ainda mais, o seu dia.
A segunda e última parte chega de hoje a oito.
Descrição: Uma senhora, sentada a frente de alguns vasos com plantas, vestindo um agasalho lã, de óculos escuros, com o dedo médio, que tem um anel,  levantado. Em seu rosto, um sorriso sarcástico. Photo by Ron Lach from Pexels
Descrição: Uma senhora, sentada a frente de alguns vasos com plantas, vestindo um agasalho lã, de óculos escuros, com o dedo médio, que tem um anel, levantado. Em seu rosto, um sorriso sarcástico. Photo by Ron Lach from Pexels
Curtiu essa edição? Sim Não
Imagina só
Imagina só @marciosmelo

Contos, causos e ensaios com manchas de dendê. Uma história inédita por mês e o que mais ocorrer (ou não) nas outras semanas.

Para cancelar sua inscrição, clique aqui.
Se você recebeu essa newsletter de alguém e curtiu, você pode assinar aqui.
Created with Revue by Twitter.
Salvador, Bahia, Brasil