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Imagina só - Dados, canibalismo e um monte de ideias

Imagina só
Dificilmente sofro com bloqueio criativo, meu desafio para vencer uma página em branco nunca foi por falta de ideias. A cada minuto você pode ter pelo menos uma dúzia delas, mas se não lembrarmos depois é como se nunca tivessem existido. E constantemente esquecemos das nossas ideias porque a água que estava na única boca que ainda funciona no seu fogão já ferveu, as notificações pipocaram no seu celular ou alguém dentro da tv da sala gritou uma notícia urgente, mas era só um carro atrapalhando a passagem dos ônibus coletivos. Sim, é ruim, atrapalha a vida de muita gente, mas não é urgente para você naquele momento e o repórter, coitado, que precisa informar os acontecimentos à medida que eles ocorrem, ao vivo, achou que a notícia era um grupo de pessoas que estava “balançando o carro”. E por qual motivo aquelas pessoas iriam se reunir para balançar um carro deixado no meio da rua? Diversão? Sim, eu sei que o conceito de diversão é bastante amplo e descobri isso pouco antes de escrever esse texto ao ver a divulgação de um jogo que envolvia dados e canibalismo. Para mim não parece divertido, mesmo tendo o espaço sideral como cenário. Sei lá, a pessoa que tirar dois num arremesso duplo provavelmente vai ter que oferecer o seu braço para ser comido num ensopado que precisará de bastante tempo de cozimento. Definitivamente não me parece interessante, mas quem sou eu no infográfico dinâmico e colorido do que é socialmente aceito como entretenimento nos dias de hoje? Durante todo tempo o qual nosso cérebro processa milhares de informações, o mesmo que o repórter precisou para respirar e finalmente deixar as sinapses serem ligadas dentro da sua cabeça para informá-lo que não estavam balançando o carro porque era divertido, mas sim para conseguirem levantar mais de uma tonelada até o passeio e liberar o trânsito, é nesse ínterim que nossas ideias morrem se não forem anotadas em algum lugar.
Ao contrário do que é recomendado para tornar um texto interessante o suficiente para ser lido, ainda mais com tanta coisa nos roubando a atenção, fiz o parágrafo de introdução grande demais apenas para demonstrar que ideias nunca devem ser o problema para vencer uma página em branco. Pelo menos comigo, o problema é saber se as coisas que escrevo merecem ou não sair da minha pilha de rascunhos que só aumenta.
Ter ideias não é o meu poder secreto, o que eu faço de bom, e isso falo sem falsa modéstia, o meu golpe especial que só acontece quando tiro seis e seis ao arremessar dois dados simultaneamente é destruir qualquer ideia que pareça boa ou divertida o bastante. Aquela que alguém diz: “Você deveria escrever sobre isso”.
É para provar que todos vocês estão errados que escrevo essa cartinha digital.

A culpa não é minha
Comecei a escrever na internet poucos anos após o bug do milênio, um evento que gerou filmes ruins, pautas para noticiários, sobrecarga de trabalho para alguns programadores e fez os estadunidenses correr feito loucos em supermercados para se abastecerem antes do fim do mundo. A ideia de criar uma newsletter já me perseguia há alguns anos, mas sempre me pareceu tão horrível quanto o anúncio de um apocalipse que iria acontecer num dia de sábado.
Não acho ruim a proposta da newsletter em si, muito pelo contrário, ainda mais se pensarmos o quanto a internet mudou desde o fim do Google Reader e o domínio das redes sociais. Muitos blogs morreram e as newsletters são hoje o que eles eram no início desse século. Existe algo de nostálgico e intimista nesse modelo que me cativa, mesmo assim, criar e escrever textos para serem distribuídos para a minha própria lista com dois ou três assinantes nunca pareceu correto o suficiente para que eu tomasse coragem de apertar o botão enviar.
Talvez toda essa confiança que tenho em meu potencial venha do costume de evitar constrangimentos. É algo que carrego há muitos anos na minha ficha de personagem bem ao lado da perícia autodepreciação. Eu juro que refleti por dias que viraram semanas sobre a criação disso aqui, mesmo após passar alguns meses escrevendo regularmente no medium, lançando alguns contos e ensaios que, vez ou outra, atraíram alguma atenção.
Quando fiz o curso de Aline Valek sabia que o objetivo final seria a criação de uma newsletter, mas me reservei o direito de não pensar nisso até chegar a hora, outra habilidade especial que aprendi ao longo de anos de sofrimentos antecipados que nunca se concretizaram. Para tomar a melhor decisão e resolver essa sinuca de bico, afinal eu tinha que criar o projeto de conclusão do curso, resolvi criar um questionário e respondê-lo. 
Você não acha que já existe newsletter demais por aí? 
R: Sim, tem demais, e por mais que você possa filtrar apenas as que te interessam, vai chegar o momento em que você assinará tantas que elas se tornarão apenas mais uma daquelas mensagens que você apaga antes de ler.
O mundo precisa de mais uma newsletter?
R: Não.
Supondo que ainda haja espaço para mais uma newsletter, ela precisa ser criada por você?
R: Não, de jeito algum.
E essa culpa vai para…
Tendo me dado conta de que ninguém precisa de mais uma newsletter, ainda mais uma escrita por mim, fiz o que qualquer pessoa de bom senso faria. Resolvi culpar outras personas por essa minha atitude inconsequente.
Em primeiro lugar gostaria de botar a culpa em Aline Valek. Além de ter ensinado uma forma simples e intuitiva para ter ideias aos montes, filtrar as melhores e seguir um processo criativo para elaboração de textos, Aline me fez ver que sempre existe uma saída para quando caímos no Vale da Desistência. Em segundo lugar, eu não poderia deixar de pôr a culpa em todos aqueles que me incentivaram lendo e comentando os textos que publiquei por aí, não apenas os ficcionais. Por último e não menos importante, a culpa também é de todas as pessoas que comentaram esse tweet abaixo:
Lionel
Ideia para uma história baianofuturista: o tal tsunami devastou grande parte da cidade
Quase tudo está debaixo d'água e Salvador agora se divide em duas localidades em permanente confronto: Brotas e Alagados
O título eu pensei em WaterHorto
O desafio de destruir essa boa ideia e criar a newsletter que Cinthia irá assinar (você prometeu) é em grande parte culpa de vocês.
O próximo texto desenvolverá o primeiro ensaio de WaterHorto que fará parte da também primeira — e o mundo espera que seja a única — temporada dessa newsletter que resolvi chamar de “Imagina só”.
Que loucura, essa mistura
No podcast Suco de Umbivis, o qual participo junto com outros amigos (Lionel Leal, Jotazêr Leite e Junio Queiroz), sempre tentamos trazer em todos os episódios, em meio a causos e piadas, discussões sobre os costumes e as tradições baianas de uma forma divertida mas também verdadeira, além do que se é vendido nos slogans criados para atrair turistas e vender uma terra de todos os santos, encantos e axé.
Essa newsletter vai tentar fazer o mesmo, mas utilizando a escrita ao invés de músicas e conversas em áudio. Aqui vou escrever alguns contos e ensaios que irão se passar em Salvador ou em qualquer outro município do interior baiano. Escrever ficção especulativa tendo a Bahia como pano de fundo parece uma ideia boa demais para eu deixar passar a oportunidade de destruir inúmeras vezes.
Um cachorro perdido (ou achado) no Pelourinho numa noite dessas.
Um cachorro perdido (ou achado) no Pelourinho numa noite dessas.
Por hoje é só pessoal, no próximo envio você irá conhecer “O tempo de Jéssica”.
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Imagina só
Imagina só @marciosmelo

Contos, causos e ensaios com manchas de dendê. Uma história inédita por mês e o que mais ocorrer (ou não) nas outras semanas.

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Salvador, Bahia, Brasil