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Imagina só - Ciclista ou Pokémon?

Imagina só
A minha primeira lembrança mora em algum lugar dos anos 1980. Nela, me equilibro numa bicicleta vermelha sem a ajuda das rodinhas. Luto contra a gravidade que me convida a deitar no chão e também contra o vento forte da orla marítima de Salvador. Meus pais estão rindo, estamos em algum ponto entre o Jardim de Alah e o Jardim dos Namorados. Difícil saber o local exato, sabe como é, naquela época a gente não andava com um GPS no bolso.
Eu nunca sei se essa é uma memória real ou daquelas que a gente projeta depois de olhar nossas fotos de infância. O que lembro mesmo é da alegria que me explodia quando subia em minha bike e ganhava as ruas do meu bairro. As férias que passava em Conceição do Almeida, no recôncavo baiano, também ficaram gravadas. Ladeiras e estradas de terra e lama, mato para todos os lados e, quando ia na cidade, aquela estrada de paralelepído que trepidava a monark velha de meu primo.
Tudo era apenas diversão. Não precisa me preocupar com marchas, cassete, catracas, aros ou pedivelas. Não tinha os equipamentos adequados e recomendados. Não precisava me embalar à vácuo em vestimentas projetadas para atletas que sobem colinas ou participam de maratonas. Com a roupa que estivesse usando, descalço ou de sandálias, já estava bom demais.
No natal do ano passado eu resolvi me presentear após muito tempo sem me dar esse luxo. Para sair do cárcere privado de meu calabouço office, comprei uma bicicleta. O intuiro era o de, pela primeira vez desde o início da pandemia, criar uma rotina saudável. Não no sentido físico, mas mental mesmo, ou talvez seja apenas um capricho ou crise etária, ainda irei descobrir. E quis o destino que ela também fosse vermelha, como a minha primeira.
Em poucas semanas nessa minha jornada interpessoal, acabei tendo duas revelações de coisas que não estavam nos meus planos. Primeiro descobri que pedalar agora é, ao contrário do que esperava, um trabalho. E segundo e mais alarmante, ao tentar me enturmar e evoluir um pouco, acabei caindo numa armadilha.

Descrição: Alienígena a frente de uma janela onde passam diversas naves espaciais dizendo "It´s a Trap". Cena clássica do Almirante Akbar em Star Wars.
Descrição: Alienígena a frente de uma janela onde passam diversas naves espaciais dizendo "It´s a Trap". Cena clássica do Almirante Akbar em Star Wars.
Ciclista ou Pokemón?
…Não há mais festa, nem carnaval
Acho que eu fui enganado
Me diga as horas, eu vou embora
Hoje eu tô atrasado…
(Hoje, Camisa de Vênus)
Uma fila de bicicletas se formou na frente do Farol da Barra, uma cena linda. Inocente, fiz pose para uma foto que já tinha sido tirada segundos atrás antes de descobrir o que precisava fazer. Como se estivesse em uma festa infantil — só que sem bolo confeitado — me juntei ao coro e bati palmas enquanto os demais cantavam uma canção fácil de decorar. Não quis parecer o chato da trupe — papel que desempenho, sem esforço algum e com maestria, em qualquer canto — nem tampouco distraído. Segui o grupo no ritual proposto com um sorriso mal amarrado nas vergonhas que acumulei durante minha vida. Aquele amarelo e com a boca mole que sempre rola quando recebo algum pedido errado na lanchonete e só quem é introvertido vai me entender. A gente apenas agradece e come, mesmo sem gostar de picles, afinal, não estamos ali para dar trabalho a ninguém mais a não ser o nosso próprio sistema digestivo cheio de nove horas.
Que porressa?”. Perguntei ao casal de amigos que me acompanhava em mais um daqueles domingos (comuns) de sol lascando o juízo em Salvador. E eles, sem desmanchar o sorriso e nem moverem sequer um músculo facial, me responderam:
Apenas continue batendo palmas, não precisa cantar”.
A verdade, nobres amigos e leitores, o fato impublicável é que ninguém te avisa porra nenhuma. Não existe um daqueles termos de compromisso pra você apenas rolar até o final e seguir em frente. Não tem nenhum Powerpoint ou vídeo no Youtube com aqueles três minutos iniciais de pura enrolação com a chata explicação do porquê você precisa fortalecer a correria e curtir o canal, assinar com sangue o sininho e tudo mais, antes de alguém finalmente lhe dizer a real. Não tem, nem mesmo, uma dança no Tik Tok com textos pipocando na tela do seu telemóvel lhe dizendo que, na realidade, você está participando de uma seita.
Cena do filme Midsommar - O Mal Não Espera a Noite. Descrição: Mulher branca e loira chorando e sendo acolhida por outras mulheres brancas numa sala com paredes de madeira coberta por papéis de parede.
Cena do filme Midsommar - O Mal Não Espera a Noite. Descrição: Mulher branca e loira chorando e sendo acolhida por outras mulheres brancas numa sala com paredes de madeira coberta por papéis de parede.
Ninguém vai te avisar, e é assim com todo mundo que já participou de uma (seita). Você simplesmente já está inserido no mitiê. É como acordar na sarjeta depois de beber todas, ou entrar no busu Alto do Coqueirinho R1 quando, olhando de longe e sem os óculos, achou que estava pegando o Parque São Cristóvão. Quando você pensa que vai seguir reto na avenida Dorival Caymmi, o carro já está chegando no Km 17. E aí já era, pivete.
Vergonha é o primeiro sentimento que pipoca. Logo em seguida a mente começa a travar batalhas galáticas no universo que existe dentro da cabeça tentando encontrar uma explicação mais plausível. Deve ter acontecido algum equívoco, não é possível. Quem sabe de cor toda a discografia da Timbalada e consegue cantar Faraó, Divindade do Egito, inteirinha e sem errar uma palavra sequer é inteligente demais para cair numa das armadilhas mais antigas que existem.
Não, isso é algo que só acontece com outras pessoas.
O Farol da Barra, os turistas nacionais e internacionais, os guardas municipais, o pessoal que vende água de côco aceitando pix e até o cachorro caramelo que deitou na grama, todos estão estão ali, de camarote, me vendo passar aquela vergonha no crédito dividida em infinitas parcelas.
Alguns chamam de mico, outros de vexame e se eu fosse no Fantástico tentar me explicar com voz de pato e naquele esquema de cores dos filmes de Zack Snyder, com tudo escuro sem ninguém conseguir ver porra alguma, todo o Brasil, incluindo meus familiares, iriam comentar no dia seguinte:
Você viu aquilo? Como é que alguém pode cair nessa? Tava na cara que era golpe. Se fosse comigo eu iria desconfiar logo. É preciso ser muito OTÁRIO pra cair numa porra dessas”.
Se fosse apenas cantar músicas e bater palmas até podia superar e deixar pra lá. Podia sair do grupo do zap falando que entrei por engano ou podia dizer que roubaram minha bicicleta e que não tinha condições para comprar outra tão cedo. Melhor, poderia esconder o motivo real com um sigilo de 100 anos. Só que vergonha quase nunca anda sozinha, dificilmente é um tapa perdido que você recebe enquanto tenta atravessar a rua no carnaval, bem no meio de dois trios elétricos disputados. É como torcer pro Vitória, quando a gente acha que não tem mais como se decepcionar, ele perde para um time chamado Floresta. Sim, Floresta. Em casa e jogando com um mais quase o tempo todo.
Esfreguei as mãos na cintura achando que o pior já tinha passado, mas a ovação estava apenas começando. O mais importante ainda estava por vir. Adorar os seres celestiais que cuidam da seita do grupo.
Não me entendam mal, é realmente um trabalho primoroso e muito nobre cuidar da segurança de tanta gente maluca no meio das ruas e do trânsito selvagem de Salvador, mas é muito mais bonito quando a gratidão — uma palavra linda que o linkedin destruiu — é espontânea do que cobrada ou imposta. De qualquer sorte, de todos os micos, esse é o mais inofensivo.
O passeio segue, sua camisa UV azul turquesa não combina com as roupas atléticas e coladas na alma dos demais ciclistas (uma que você vai precisar comprar se quiser continuar andando com eles). Quando você pensa que o sofrimento já está no final, você ainda precisa passar por mais uma provação para mostrar que é o atleta do século, o cavaleiro do zodíaco do bem estar, o ser de luz que serve de modelo para todas as pessoas que ousam estar dividindo o mesmo planeta contigo.
Descobi, tarde demais, que a história fica menos pesada quando contada em segunda pessoa. Parece que quem passou por isso não fui eu.
Domingo de manhã, o que mais poderia ser feito para ganhar a simpatia da vizinhança a qual você está passando com sua bicicleta suando feito cuscuz? Claro, gritar bem alto para todes acordarem e pedalarem contigo naquele sol da ‘disgraça’.
Saiam de suas camas, como vocês ousam descansar num dia de domingo? Venham para rua, adorar os querubins do asfalto. Vamos cantar músicas e bater palmas bem alto e aprender o nome de todas as peças que constituem uma bicicleta. Vamos, cheguem mais. Vamos comprar roupas e itens projetados para atletas apenas para dar uma volta inocente pela cidade.
É preciso sair da sua zona de conforto. Você não está ali para se divertir e sua bicicleta não é um brinquedo. Tire essas bolsas, são apenas peso extra desnecessário. Não coloque essa buzina do picolé Capelinha e muito menos ouse ficar confortável a ponto de conseguir colocar seus pés no chão. Você pode descer da sua bike saltando em cima do meio-fio, afinal, esse banco não pode ficar assim tão baixo. É preciso colocar ele dois metros acima da altura do teto daquela camionete ali. E esse tripé aí, você é idiota? Isso é mais um peso extra. Largue sua bicicleta no chão ou equilibre ela apenas com o pedal, afinal, você não é um ciclista, tu és um Pokémon e precisa evoluir. Sempre.
O fim do giro chegou quando pensei que já tinha deixado todas as vergonhas pelo caminho, até mesmo a chamada de leve que os Policiais do bairro deram enquanto os outros integrantes do grupo gritavam as tais palavras de ordem incentivo em voz alta para Deus e o mundo ouvir, mas não, ainda tinha um comunicado muito importante a ser feito. Não adiantava mais fugir, já tinha chegado até ali, o ponto sem retorno.
Me afastei dos demais para beber o resto de água (quente) que tinha na minha garrafinha de vinte reais — antes que alguém me informasse, amigavelmente, para jogá-la no lixo e comprar uma de duzentos reais para performar melhor no que tange a hidratação — e parei pra ouvir com uma genuína curiosidade. Sabe quando você assiste um filme bem ruim e descobre que ainda faltam alguns minutos e fica se perguntando, porra, o que mais eles podem fazer que consiga piorar, ainda mais, tudo isso?
E para fechar com chave de ouro, todo mundo, agora, reunidos aqui outra vez, que bonito! Vamos lá, cantar aquela música e bater palmas bem forte. Calma, repete aí que não gravou.” 🤡
That´s all folks
  1. Não é minha intenção ofender ninguém, ou seja, sinto muito por ofender quem quer que seja 😅
  2. Como tudo no Século XXI, andar de bicicleta é mais uma atividade que era para ser apenas divertida mas se tornou, na visão de algumas pessoas, mais um trabalho que deve ser medido e  superado a cada nova tentativa.  É preciso melhorar seus tempos, suas distâncias e estar sempre buscando objetivos que apenas atletas, que vivem e recebem dinheiro para isso, deveriam perseguir.
  3. Bom, mês que vem, se ainda estiver inspirado e vocês quiserem, escrevo mais sobre pedais, Salvador e seitas. Para este mês, pretendo enviar mais uma newsletter comentando as leituras desse meu primeiro trimestre de 2022 para não deixar essa edição ainda maior.
E pra fechar, a foto de um dia desses quando pedalei até o Dique do Tororó num sol da disgraça. Ainda estava sem minha bolsa que fica abaixo do selim e outros acessórios que comprei. Meu sonho é transformar minha bicicleta num Tuk-Tuk para o desespero dos atletas jedis dos grupos de pedal de Salvador (será que em todas as cidades é assim também?).
Descrição - Bicicleta vermelha em cima de uma estrutura com chapas de madeira. Mais ao fundo a água verde do Dique do Torroró em Salvador-Ba.
Descrição - Bicicleta vermelha em cima de uma estrutura com chapas de madeira. Mais ao fundo a água verde do Dique do Torroró em Salvador-Ba.
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Imagina só
Imagina só @marciosmelo

Contos, causos e ensaios com manchas de dendê. Uma história inédita por mês e o que mais ocorrer (ou não) nas outras semanas.

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Salvador, Bahia, Brasil