Eles sempre voltam

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Olá, como você está se sentido hoje?
Independente da sua resposta (que nem vou ouvir), recomendo rechear suas redes sociais de pets fazendo traquinagens. O meu instagram, por exemplo, está cheio de cachorros. Faça o algoritimo trabalhar para melhorar o seu humor.
O conto inédito desse mês é um pouco macabro, e é de um gênero que não costumo me arriscar, mas como dizemos aqui em Salvador, hoje “eu tô pra bolo”.
Iria escrever uma newsletter mais “padrão” contando apenas causos da minha vida, mas vou deixar pra próxima edição que deve sair na primeira semana do próximo mês.
Esse conto se chamava “Bar dos Amigos” e envolvia um outro protagonista, mas resolvi mudar de última hora, como sempre faço. Ele foi baseado num desafio de escrita criativa que participei ano passado, onde tinha que criar uma história por dia durante um mês e, um deles, envolvia utilizar essa música do Eagles para servir de inspiraçao. Usei algumas frases no texto e inverti algumas ideias que não condizem mais com os tempos atuais também. Vale colocar como bg ou apenas para preparar o clima (eu acho). 😅
Gostaria de agradecer as pessoas que tem me respondido via email ❤️, fico muito feliz em estender a conversa para além daqui.

Descrição: Uma corda sobre uma banco de madeira, ao fundo, a sombra de uma mulher.Foto de Farzad Sedaghat no Pexels
Descrição: Uma corda sobre uma banco de madeira, ao fundo, a sombra de uma mulher.Foto de Farzad Sedaghat no Pexels
Eles sempre voltam
As cidades espalhavam-se ao redor de estradas empoeiradas como lápides esperando por nomes. Subindo ou descendo pelas crateras que um dia foram uma rodovia bastante movimentada, tudo era igual: Pessoas infiéis e trabalhos indignos. 
Evelyn sabia que era apenas uma sombra de um mundo que não existia mais. Seguindo rodovia abaixo, acreditando ser a vontade Dele, procurava por redenção em locais onde a única liberdade era a morte. Já era fim de tarde quando ela chegou. Os candeeiros já estavam sendo acesos nas ruas do município que, segundo a placa que encontrou no chão um ou dois quilômetros atrás, deveria ser Sapeaçu. 
Apenas Sapé. Por essas bandas as rimas são mais temidas do que as balas que riscam as madrugadas em dias de festa”. 
Era a primeira vez que ouvia a voz naquela semana.
Evelyn não encontrou uma vivalma na pequena rodoviária municipal. Ela caminhou em passos lentos, com a mão sempre conferindo o bolso direito de seu macacão jeans, até chegar num boteco. Numa parede suja, em letras vermelhas quase apagadas, lia-se “Bar dos Amigos”, mas ela não conseguia ver nenhuma cara amistosa dali de onde estava.
Mesmo sem virar o rosto diretamente para ninguém, ela sabia que todos os olhares estavam seguindo cada passo seu, a analisando de cima a baixo como se fosse uma peça de carne pendurada num gancho em um açougue iluminado por energia elétrica, algo que, dado pela hora do dia, não deveria existir por ali. Evelyn sentou-se no tamborete em frente ao balcão e pediu uma Riachão. Um homem, nem muito novo, nem muito velho, a mediu de cima a baixo antes de puxar uma garrafa da prateleira logo atrás.
Uma dose virou duas, depois três, quatro, até que ela pediu para deixar logo a garrafa inteira. O que foi feito não sem antes o rapaz bater palmas imaginárias. Evelyn nem se deu ao trabalho de abrir a boca ou mover algum músculo facial. O que ele queria? Um gracejo? Um sorriso? Se a garrafa não fosse de plástico ele teria recebido a resposta merecida.
Calma, esse não vai servir.
A cachaça rasgou sua garganta seca e aqueceu o seu corpo, mas não curou as suas dores e tampouco calou A voz. A imagem de seu irmão pendurado pelo pescoço num pé de jaca com uma corda velha, daquelas de laçar jegue, voltava a lhe atormentar em momentos como esse. Era como se ela fosse desconectada do mundo real por alguns instantes.
Duas vozes lhe tiraram do transe, aquela que vinha de dentro, e a outra de alguém que estava no bar, logo atrás dela.
“Escória, nem dinheiro para acender uma lâmpada eles têm…". 
Evelyn deu dois tapas ao lado do seu ouvido direito numa tentativa de se concentrar no que estava acontecendo dentro do bar e virou-se levando a mão ao bolso.
— Dois irmãos foram baleados ontem bem aí na rua de trás, sabia? — Um senhor com um chapéu de palha todo furado acompanhou o movimento da mão de Evelyn antes de continuar — Ninguém aqui gosta de quem vem de fora não, viu. Se eu fosse você, eu tomava era muito cuidado, moça.
— Oxe, eu venho em paz e trago a palavra Dele — Evelyn puxou, de dentro do bolso, um pequeno e surrado livro com uma capa de couro velha e manchada.
— Guarde sua bíblia, ela não vai te salvar de porra nenhuma aqui — desdenhou o senhor de chapéu e outros dois sujeitos mal vestidos que estavam na mesa com ele riram.
Evelyn não desviou o olhar. Depois de um certo tempo, pararam de rir e viraram a cara. A sua melhor arma muitas vezes era o constrangimento. Apesar de serem tempos violentos, em que as coisas eram resolvidas quase sempre na porrada, as pessoas nunca tinham uma resposta adequada ou estavam prontas para serem observadas com um olhar impassível por tempo demais até ficar estranho.
Uma mão gelada a tocou no ombro. Ela detestava quando as pessoas a tocavam sem a sua permissão e virou-se girando o tamborete já pronta para gritar, mas deu de cara com um rosto cheio de pequenas tatuagens. Evelyn se arrepiou, mas não de medo, era outra coisa. A carinha bonita que a olhava era de um rapaz esguio e que usava o cabelo na máquina um. Com um gesto, ele a convidou para fora do bar. Antes de sair, ela largou um bolo de dinheiro amassado no balcão e deixou a garrafa ainda pela metade. Assim que pisou do lado de fora, ela ouviu o barulho de pessoas correndo e derrubando cadeiras dentro do bar. 
O céu estava púrpura e seria bonito de contemplar em outros tempos, mas agora era apenas mais um mau agouro para os que ainda se aventuravam a vagar pelas cidades baianas que definhavam ao redor da BR-101.
— Se você tá afim de morrer, acho que chegou no lugar certo. O rapaz sorriu fazendo bico e continuou — Mas se está à procura de outra coisa eu posso te ajudar em troca de algumas dessas notas que você carrega dentro desse seu macacão lindo.
— Hum, sabia, tudo é sempre sobre dinheiro, né mesmo? Eu vim aqui pra saber a respeito do Estranho que tanto falam por aí — Evelyn disse alto demais e algumas janelas começaram a ser fechadas. 
— Ah claro, todos estão atrás desse tal Estranho agora, o malassombrado. Um desperdício de tempo e de vida ir atrás de um sujeito que nem existe, minha linda.
— Sua linda? Se oriente meu filho, que eu nem te conheço. E outra, como assim não existe? Quem lhe disse uma merda dessas hein? O mesmo cara que riscou sua cara, foi? É claro que existe, meu irmão foi morto por ele! — Evelyn respondeu já com o dedo na cara do rapaz, que nem se abalou com o movimento dela.
— Se ele existisse mesmo, como é que ele poderia matar uma pessoa em Cachoeira ao mesmo tempo que outra em Muritiba, tudo na mesma noite? Só se ele fosse uma assombração ou um monstro, mas nada disso existe. O que existe é uma ideia, e elas se espalham mais rápido do que as culhudas daqueles idiotas que vivem nesse bar fudido. Sem contar que matar com um tiro ou uma paulada seria muito mais fácil do que engarguelar alguém com corda grossa e depois ainda pendurar o sujeito por aí. Isso tudo sem nunca conseguir ser pego. Nem meus avós que ainda viram as últimas telas em Salvador acreditaria numa onda dessas.
Para um descrente, ele até que é bonitinho.
Evelyn riu pela primeira vez naquela semana, engarguelar era algo que não ouvia há anos e pelo visto ele não sabia de muita coisa, o que era bom. O destino lhe beijou a nuca colocando aquele rapaz em seu caminho. Ela já estava cansada da longa caminhada que tinha feito desde Cruz das Almas até aquele fim de mundo, “Apenas mais um dentre tantos”, a voz disse em tom jocoso em meio aos seus pensamentos presos naquela cara toda riscada. Por um maço gordo de dinheiro talvez ela conseguisse a paz necessária para descansar por mais alguns dias. Trabalho barato e rápido. O que mais poderia pedir?
E foi no mesmo rompante que a fez deixar o bar, logo no primeiro convite, naquela noite esquecida pela história que não estava sendo mais registrada da Nova Bahia, que ela decidiu ceder ao chamado de quem a atormentava desde o dia em que viu Breninho pendurado na jaqueira da roça de seus avós.
Evelyn meteu a mão no bolso interno que ela havia costurado dentro de seu macacão e puxou tudo o que ainda lhe restava. Aproximou-se do rapaz tatuado na cara com um monte de ‘x’ e ‘0’ — que deveria significar alguma coisa, mas ela estava muito cansada para perguntar —, e segurou as mãos dele que eram lisas demais para alguém que, naquela idade, ainda estava vivo no recôncavo baiano.
— Sabe, gostei de você, mesmo sem saber o seu nome.
— Tom, é como me chamam por aqui — ele respondeu com um sorriso doce — e o seu?
— Esther, com ‘th’ — mentiu. Ela estava na fase de inventar nomes iniciados com ‘E’
Evelyn fez uma pausa esperando o rapaz dizer alguma coisa, mas o seu silêncio a fez continuar.
— Tom, arrume uma corda, vá. Daquelas bem grossas. Vou te esperar ali naquele banco, do lado do coreto — Evelyn apontou para o que, no passado iluminado, fora um local onde casais apaixonados roçavam as pernas pela primeira vez e continuou — Você vai voltar com essa corda e falar para mim que é o Estranho.
— Misteriosa e macabra, estou começando a gostar mais ainda de você, viu. O rapaz pegou o maço de notas e, sem nem contar, jogou tudo no bolso de sua calça e partiu.
Ele vai sumir com seu dinheiro, sua imbecil.
— Queria, eu até que gostei dele — Evelyn falou enquanto uma lágrima escapava de seu olho esquerdo — mas eles sempre voltam.
Evelyn acendeu um cigarro de palha e deu dois tapas novamente no lado direito da sua cabeça. Ela esperou sentada, quase sem se mexer, apalpando a pequena bíblia em seu bolso por tanto tempo que começou até a acreditar que seria diferente daquela vez. A noite estava silenciosa e, bem ao contrário do que haviam lhe falado, Sapé ainda era bastante charmosa. As casas já tinham perdido as cores, mas ainda resistiam à escuridão que engolia as pequenas cidades que lutavam para ficar de pé ao redor das fazendas solares que cobriam cada pedaço de chão livre do estado para vender toda a energia que produziam para bem longe dali.  
Antes que a voz voltasse a lhe atormentar, no meio do breu mal iluminado por um par de candeeiros em cima dos galhos de uma árvore morta que ficava na esquina, ela viu aquele corpo magro aparecer com uma corda enrolada do ombro esquerdo até a cintura direita. 
Olá, estranho — Evelyn falou com uma voz rouca.
— Quero ver até onde vai esse seu joguinho — Tom disse enquanto passava a corda por trás de Evelyn.
— Você não vai ver é nada — Evelyn falou e fez aquele sorriso que vinha ensaiando todos os dias — vire pra lá, vá. Fique de costas pra mim — Ela sussurrou, com uma voz morta, no ouvido do rapaz que já havia largado a corda no chão e, como foi ordenado, tinha virado-se de costas para ela.
Agora.
Evelyn respirou fundo, puxou a bíblia de seu bolso e pegou um canivete velho e enferrujado que estava guardado num buraco cavado dentro de suas páginas. Num movimento rápido ela fez um corte fino e preciso na jugular do jovem e o abraçou enquanto ele se contorcia até afogar-se no próprio sangue. Após algum tempo, deitou o corpo inerte no chão, deu um beijo na sua testa e pegou o dinheiro no bolso da calça do morto de volta. Levantou-se apoiando uma das mãos no peito do rapaz e esperou alguns segundos apenas para ter certeza. A voz havia ido embora, estava feito.
Tom tinha razão, pendurar um corpo de 60 quilos dava mesmo muito trabalho, mas Evelyn achava que ele valia o esforço e que o correto era deixá-lo num lugar bonito o bastante para ser visto por todos na manhã seguinte. Depois de muita luta, conseguiu amarra-lo na escada do coreto. Não era como havia imaginado, mas até que não estava tão ruim assim. Seria bem mais fácil arrumar uma pistola ou um porrete e largar todos eles pelo chão mesmo, mas não foi assim que ela encontrou o seu irmão. Não era o certo.
Evelyn estava toda suja de sangue, não poderia chegar desse jeito em sua próxima parada. Ela deveria ter pedido para o rapaz tirar a roupa antes de terminar o seu trabalho, mas (novamente) não foi o que fez. Se quisesse continuar em Sua missão, já estava claro que ela precisaria se preparar melhor.
Depois de limpar o canivete na calça do amarrado, ela o guardou dentro da bíblia e voltou caminhando em direção aos destroços da antiga rodoviária municipal. Ainda havia muito chão pela frente e ela precisaria dar um jeito na sua roupa, mas isso seria um problema para Evelyn do futuro. O que ela tinha agora era o silêncio como companhia e um mapa na sua cabeça com todos os caminhos e destinos. Iria sair pelo mesmo lugar que entrou, não que houvesse outra forma diferente de ir embora da maioria dos municípios do interior baiano. 
Dali para Conceição do Almeida seriam cinco quilômetros. Não sabia com que força iria subir aquela ladeira na entrada da cidade, mas pelo menos estava feliz por ter vingado a morte de seu irmão, outra vez. 
FIM (?)
Por hoje é só pessoal
Na próxima edição falarei um pouco mais sobre minha vida de Pokémon ciclista em Salvador e alguns absurdos e outras belezas que encontro pelo caminho e também sobre as coisas banais que tem me mantido ‘desperto’ nesses tempos, filmes, séries e o que ando lendo por aí.
Críticas, sugestões ou qualquer coisa, é só apertar em responder aí no seu email ou, se estiver lendo diretamente da página da Revue, me procure nas redes sociais -> @marciosmelo 😁
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