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É proibido beber (água)

Imagina só
Oi, tudo bem? Hoje não tem conto inédito mas tem texto inédito o que deveria dar no mesmo, não é? Diga que sim.
Todo dia que vou pedalar eu penso, porra, deveria contar esse absurdo para alguém, e é basicamente o que faço. Falo com todo mundo em todos os lugares, aqui é apenas um apanhado geral dos últimos acontecimentos no mundo ciclistico de Salvador, mas acredito que seja semelhante em outras cidades.

Radical
Radical
Estou atrapalhando o seu pedal.
Já perdi a conta de quantas vezes ouvi isso. Não, ninguém atrapalha meu passeio, pois é isso que faço quando saio para andar de bicicleta pelas ruas, becos e ‘ladeirinhas’ de Salvador. Vou na paz de Jah, sem pressa, sem metas, sem marcas a serem batidas no Strava. Meus registros em aplicativos são apenas isso, um marco para quem sabe, lá na frente, olhar tudo o que fiz. Ou nunca mais olhar, o que daria no mesmo, não é?
A última vez que alguém, sem graça, me disse que estava atrapalhando o meu pedal foi no sábado passado. Tudo isso porque, cansada, a pessoa achou que se a gente parasse por alguns minutos seria o fim do mundo, iria me atrapalhar. Um carro me cortando, o ataque do Vitória e os fãs de bozo são algumas coisas que me atrapalham. Parar por um tempo, respirar, beber uma água (quente) da minha garrafa que custou vinte e dois reais, como algo assim poderia atrapalhar a diversão de alguém?
Nesse dia em questão, a gente encostou numa murada, de frente para a praia. Aquele marzão azul e uma brisa que serpenteava os coqueiros fizeram companhia enquanto a gente conversava sobre coisas aleatórias até subir novamente em nossas bicicletas e seguirmos nossos caminhos. Sem dor, com ganhos.
Não faz muito tempo, fui pedalar com uma seita turma de um grupo que, geralmente, é bem de boa. Só que nesse dia uma surpresa surgiu, outra pessoa iria “puxar” o pedal. E essa pessoa tinha uma daquelas bicicletas que custam o mesmo valor de um carro popular, ou seja, um absurdo. A bike do sujeito era fina igual a papel e aposto que pesava menos que o meu chihuahua gordo que tenho aqui em casa. E assim ele partiu rumo ao aeroporto de Salvador.
Saímos das imediações da Boca do Rio e, antes de chegar em Piatã, quatro pessoas já haviam pedido penico e voltaram. Nesse momento, uma moça sugeriu que, talvez, fosse legal, se pudesse parar um pouco para respirar e beber água.
Ninguém lhe deu ouvidos. 
Quando chegamos em Itapoan (o bairro seguinte) — já com mais três desistências —, ela gritou com uma mão no guidão e outra na boca:
“Ninguém bebe água não aqui, é porra?! Vocês são formigas, é?”
Fiz aquela cara de quem não entendeu a piada, mas como só outro dia descobri que “papuco” era gíria de ciclista para os iniciantes, amadores, fuleiros que nem aguentam pedalar a 30 ou 40 km por hora, vai ver existia alguma história envolvendo formigas e água que desconhecia, mas até onde lembro até as formigas e outros insetos ingerem água, não sei com que frequência, talvez um dia eu pesquise isso (Spoiler: nunca irei pesquisar, minto para fingir cautela com o que escrevo para vocês). 
Formiga não, é camelo a porra”, ela falou baixinho e só quem estava próximo ouviu e compreendeu a piada. Com algum gracejo finalmente o “líder supremo do pedal evolutivo” iria rir, e parar, não é mesmo? 🤡
Seja lá formiga ou camelo, no ritmo que a gente estava que era bem diferente de “passeio”, como era a proposta daquele pedal, o sujeito da bicicleta olímpica e com batatas de aço acatou e resolveu parar. Não em Itapoan, já no bairro seguinte, claro, afinal ele não podia perder o trecho que precisava de mais um recorde seu.
Já em Stella Maris (me acompanhe, já é outro bairro), conseguimos finalmente nos hidratar e foi quando eu descobri que era proibido parar para beber água.
Não vi essa placa, não observei aviso algum e, confesso, não li as letras miúdas do contrato, talvez lá estivesse escrito:
Artigo 37: Fica expressamente proibido você, ciclista, parar o pedal para beber água. Não atrapalhe a PERFORMANCE. Não diminua a VM (Velocidade Média) do pedal.
Você quer parar pra quê? Oxe, tá doido é?
Você quer parar pra quê? Oxe, tá doido é?
Um colega das antigas, da época da faculdade e que faz percursos mínimos de 60 km e que estava nesse dia ao meu lado, começou a me ensinar como eu, PAPUCO, deveria aprender a, sem parar de pedalar, puxar minha garrafa e beber água sem diminuir o ritmo. 
Vai treinando, que você pega a manha”, ele me falou como se fosse a coisa mais óbvia a ser feita, como se, sem isso, não fosse possível eu virar o Raichivis da bike.
Bom, ou isso, ou comprar uma daquelas mochilas com reservatório de água e mangueirinha. Mais prático não é mesmo? Fico a me questionar se o próximo passo na evolução ciclística seria ter uma mangueirinha pra fazer xixi também, ou de repente pedalar com fraldas geriátricas. Afinal, o giro tem que ser alto.
Não, obrigado comunidade ciclística, agradeço de coração as dicas, mas prefiro continuar a pedalar mansinho e sem pressa. Parando quando eu quero tirar uma foto de todas as maravilhas que ficam pelo caminho e a gente nunca presta atenção quando está num carro ou transporte público ou olhar o mar ou comprar uma água de côco ou até mesmo bater um papo. 
O fato é que como sou ousado, cheguei até o aeroporto com dois goles de água. Parando lá aproveitei para beber o suficiente para seguir o resto do percurso sem parar ou sem cair ao tentar puxar a garrafa do quadro sem parar de pedalar. Fui rebocado e empurrado durante quase todo o retorno (atrapalhei o pedal, foda-se, não tenho remorso algum) e cheguei com outras oito pessoas sendo que saímos com quase 20. Parece uma vitória para quem vive de mentorias e coisas de coach, para mim foi um pesadelo.
O que vi pelo caminho nos últimos pedais?
Algumas fotos que tirei nos últimos dias que saí para andar de bicicleta quando, sem autorização dos Pokémons ciclistas, parei de pedalar para registrar alguns momentos.
Vi o farol da Barra praticamente vazio num dia de sol
Vi o farol da Barra praticamente vazio num dia de sol
Fui até o porto, virei as costas pro mar e dei de cara com essa obra de arte
Fui até o porto, virei as costas pro mar e dei de cara com essa obra de arte
Vi esse catioro fiscalizar o trabalho do rapaz que limpava o Dique do Tororó
Vi esse catioro fiscalizar o trabalho do rapaz que limpava o Dique do Tororó
Olha aí o dia que cheguei no aeroporto com a garrafa de água cheia.
Olha aí o dia que cheguei no aeroporto com a garrafa de água cheia.
Esse dia fui com uma galera massa (e sem pressa) até a igreja de Itapoan à noite.
Esse dia fui com uma galera massa (e sem pressa) até a igreja de Itapoan à noite.
Cheguei no Pelourinho depois de subir uma ladeira com várias curvas. Era pra ter filmado e não tirado uma foto, assim vocês ouviriam os tambores da turma que tava fazendo uma grana com os turistas.
Cheguei no Pelourinho depois de subir uma ladeira com várias curvas. Era pra ter filmado e não tirado uma foto, assim vocês ouviriam os tambores da turma que tava fazendo uma grana com os turistas.
Esse foi o cenário que parei, mais de uma vez, para trocar umas ideias sem hora pra voltar.
Esse foi o cenário que parei, mais de uma vez, para trocar umas ideias sem hora pra voltar.
Ainda preciso fazer o registro de todas as esculturas entre Amaralina e o Rio Vermelho, farei isso num próximo passeio.
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Melhor do que poder conhecer a sua cidade pedalando, é conhecê-la caminhando, ou como dizemos por aqui em Salvador, paletando. Tem um gringo que tem uma newsletter falando apenas das coisas que ele vê enquanto bate perna por sua cidade, vale um vistazo (em inglês).
E você? O que consegue ver quando diminui o ritmo e presta atenção nas coisas ao seu redor?
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Imagina só @marciosmelo

Contos, causos e ensaios com manchas de dendê. Uma história inédita por mês e o que mais ocorrer (ou não) nas outras semanas.

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Salvador, Bahia, Brasil