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Caixa de Lápis de Cor - Verdade verdadeira

Imagina só
Vou criando sessões para encaixar histórias que se passam no mesmo lugar e cá estamos com mais uma que vou chamar de Caixa de Lápis de Cor. O motivo do nome eu explico em uma edição posterior para não me estender demais nesta, mas basicamente ela vai trazer histórias que se passam em Salvador entre os anos 1980 e 1990 num condomínio de prédios coloridos (já está praticamente explicado) num bairro nobre da capital baiana, Pituba.
Esse condomínio criou espaço para que uma classe emergente começasse a alcançar a classe média “tradicional” soteropolitana, para o desespero dos mais abastados e nascidos em berço de ouro, nos anos que sucederam o fim da ditadura no Brasil.
Nessa primeira história tentei me aventurar por um gênero que ainda tenho muito o que aprender, mas só escrevendo e jogando para a fora a gente vai aprendendo a melhorar, por tanto, relevem as bobagens e inocência que essa história carrega.

Descrição: Um conjunto de lápis coloridos num fundo cinzento, lado a lado, alguns maiores que os outros. Foto de Alexandr Podvalny no Pexels
Descrição: Um conjunto de lápis coloridos num fundo cinzento, lado a lado, alguns maiores que os outros. Foto de Alexandr Podvalny no Pexels
Verdade verdadeira
A sandália girou sobre a mesa um par de vezes antes de parar apontada para Marcos. Camila deu um sorriso de canto de boca e piscou com seu olho esquerdo enquanto Patrícia e Danilinho suspiravam aliviados por não terem sido os escolhidos para sofrerem algum tipo de humilhação em forma de pergunta ou desafio. 
Marcos apertou por debaixo da mesa as próprias coxas em desespero, a última vez que ele tinha interagido com Camila tinha recebido, com todo o merecimento do mundo, uma bolada daquelas bem dadas na cara. Isso tinha acontecido duas semanas antes dele achar uma boa ideia ter descido do seu apartamento a noite para participar de algumas rodadas do jogo da verdade. 
Marcos era um garoto tímido e que sempre era um dos últimos escolhidos para formar um time, seja de qual esporte fosse. Ele sempre quis, mas nunca aprendeu a andar de patins, pois, no prédio onde moravam, os meninos andavam de skate, patins ficavam com as garotas. Meninos jogavam futebol, meninas brincavam de baleado, e assim por diante. Essas regras eram passadas de pais para filhos, e as crianças apenas as seguiam sem nunca questionar o porquê. E isso se aplicava a todos moradores do Condomínio Edifício Marcelo, exceto Camila. Ela não comia reggae de ninguém, mandava nas meninas e nos meninos também. Bastava um olhar e todo mundo fazia o que ela queria, os poucos que tentaram desafiá-la não tinham ficado com uma história divertida para contar, e essa foi uma das primeiras coisas que Marcos tinha aprendido quando chegou em Salvador e foi morar com os seus pais no Parque Júlio César no início dos anos 1980.
Foi graças a Camila que alguns garotos puderam matar a vontade de brincar de pular elástico e também de pogobol sem se preocupar com as regras, sem pé nem cabeça, que os adultos tentavam empurrar goela abaixo. Camila tinha bonecas, itens de cozinha de brinquedo e duas moranguinhos, mas ela nunca se limitava a ficar apenas com o que seus pais lhe davam, ela gostava de estar por dentro de tudo e em todos os lugares.
Camila era a única garota que jogava futebol com os meninos. E ai daquele que não passasse a bola para ela. Camila era imune à marcação de falta ou qualquer outra coisa que a impedisse de fazer o que quisesse em campo, era como se ela jogasse com o poder da estrelinha do Super Mario ativado para sempre. E, devido a esse poder infinito, ela passava da defesa para o ataque como um trator desgovernado. Se preciso fosse ela enfiava um dedo no meio das costelas de quem a estivesse marcando, derrubava com uma rasteira ou até mesmo dava um grito no pé do ouvido do adversário, o que tivesse que ser feito para ela conseguir chutar na direção do gol. Se a bola passasse um pouco por fora da marcação das traves feitas com chinelos e ela gritasse gol, nem adiantava argumentar. Era gol de Camila e sempre era de bom tom comemorar se você estivesse na de fora querendo jogar a próxima partida.
Às vezes ela cansava de jogar futebol e decidia que todo mundo iria jogar baleado, e se existia uma pessoa que poderia decretar que todos, meninas e meninos, jogasse uma partida de, como sua prima de São Paulo sempre tentava em vão corrigir, queimada, essa pessoa era ela. Marcos quase sempre dava o azar de cair no time adversário, o que era fatal pois Camila, além de ser bastante habilidosa, tinha uma força nas mãos que faziam os menos nutridos — àqueles que só tomavam achocolatado com biscoito — tremer feito vara verde.
E foi justamente duas semanas antes de estar ali, na mira da sandália que faria ele passar alguma vergonha que jamais esqueceria, que Marcos teve a brilhante ideia de ser logo eliminado com uma bola que veio fraca, mas onde ele fingiu ter dado um jeito no tornozelo para ser acertado. Do lado de fora, ele corria para devolver a bola ao jogo quando essa saia dos limites do ‘campo’. Em uma dessas devoluções, ele chutou a bola, que veio rolando faceiramente em sua direção, de primeira para Camila. Só que o chute saiu mais forte do que ele, Camila e todos ali presentes esperavam, ganhando uma potência incomum para um menino tão franzino e, para piorar, acertou em cheio a barriga dela. 
Poucos sabem disso, mas quando alguém espirra, o coração para de funcionar por alguns milissegundos e o de Marcos, naquele dia ensolarado de Salvador em 1991, parou por quase um minuto completo após ouvir o som da porrada seca na barriga de sua amiga. Todo mundo começou a rir, menos ele.
Camila se abaixou sem pressa, ajeitou a camisa, pegou a bola e se virou na direção do campo para recomeçar a partida. Marcos tinha voltado a respirar, o sangue começava a circular outra vez pelo seu corpo quando ela girou em sua direção e arremessou a bola, com toda a força e fúria que tinha reservado, bem no meio da fuça de Marcos, que só não caiu porque estava próximo da parede.
Assa na hora hein!”. Danilinho gritou imitando os vendedores de queijo coalho nas praias de Salvador.
Marcos se segurou na parede com a mão esquerda. Seu ouvido emitia um zunido agudo, sua bochecha direita ardia e pulsava como uma supernova prestes a explodir uma galáxia. Camila gargalhava, ao seu lado os outros a acompanhavam numa sinfonia de risadas e gritos histéricos. 
Esse foi o primeiro dia que Marcos chegou cedo em casa durante as férias, mas seus pais nem perceberam pois estavam ligados na TV tentando entender algumas proezas econômicas que Fernando Collor e sua equipe tinham realizado. Duas semanas depois, seria vez de Marcos tentar entender o que aquele sorriso de Camila significava. Será que ele, assim como as poupanças de milhões brasileiros, poderia ser congelado também para escapar daquela situação em que tinha se metido?
Camila ainda estava segurando o sorriso no canto da boca quando, com os dois cotovelos apoiados na mesa, aproximou-se de Marcos e perguntou:
“Para você, quem é a garota mais bonita do prédio?”
“Você… É claro”, Marcos respondeu enquanto contava quantas tiras de madeira formavam o tampo da mesa.
“Mesmo?”, Camila voltou seu corpo para trás, encostando as costas na cadeira. As luzes do playground iluminavam os seus olhos castanhos.
“Verdade, verdadeira”.
Se existia uma maneira mais infantil de responder aquela pergunta, ele desconhecia. 
***
O mês de julho escondia uma face de Salvador que poucos conheciam, junto aos dias de céu fechado e chuvas soturnas, a ressaca dos festejos juninos era um golpe duro e, para Marcos, era ainda mais desesperador pois indicava que o seu aniversário estava chegando. Ele mentiu aos seus pais dizendo que queria apenas uma festa com bolo temático, sem coragem de dizer que ainda gostaria de ganhar um Comandos em Ação ou um carro do Lego. Já tinha se conformado em não receber presente algum, quando a campainha do apartamento 1802 tocou. 
Vestindo uma camiseta esgarçada e com a cara de quem tinha acabado de ser atropelado por um chevette enferrejudo, Marcos abriu a porta e sentiu um desespero o corroer de dentro para fora ao ver quem estava na sua frente com aquele sorriso pela metade, uma mão na cintura e outra apoiando seu corpo contra a parede.
“Então…”, Camila começava a mudar a forma de falar iniciando as perguntas que formulava com um “então”. Ela deu uma pausa misteriosa antes de completar o que realmente queria dizer, “Vai rolar um reggae no Fausto, sábado.”
“Legal”, assim como algumas pessoas que perderam todas as economias de uma vida depois do Plano Collor, Marcos queria morrer.
“Não quero ir sozinha”
“Ah, sim”
“Então, vai comigo ou não?”. Camila já estava com as duas mãos na cintura e Marcos não conseguia entender se era indignação ou surpresa o que seus olhos transmitiam naquele momento.
“Claro… VAMO SIM”, Marcos se empolgou no tom da resposta. 
“Sábado, sete da noite no play, viu?”
“Viu”
Marcos esperou ela subir as escadas, aliviado ao perceber que o seu primeiro encontro, de verdade, iria acontecer e ele nem precisou morrer por dentro uma dúzia de vezes para convencer alguém que seria bom negócio sair com ele. Camila tinha descido do vigésimo primeiro andar, pelas escadas, apertou a campainha da sua casa e o convidou para sair. Era incrível, mas o que o preocupava naquele momento era quando ele iria acordar do que, com toda a certeza, era apenas um sonho.
Quando seu coração voltou a bater num ritmo normal e ele se deu conta de que aquilo, talvez, tivesse realmente acontecido, uma nova preocupação surgiu e ocupou toda a sua mente. Nunca, nem mesmo sequer uma única vez na vida, nem mesmo por acidente ou por algum golpe fortuito do destino, ele tinha entrado no edifício Fausto. Tudo o que ele sabia desse prédio era que ele ficava ao lado da banca de revistas. Não era amigo de ninguém que morava lá, só conhecia, de vista, duas ou três pessoas que pareciam sempre bastante ameaçadoras, até mais do que Camila.
***
“Vai pra onde assim hein?”, a mãe de Marcos abriu um sorriso largo, do jeito que o fazia corar e querer pular da janela do seu quarto no décimo oitavo andar para cair bem em cima da amendoeira da entrada do edifício.
“Vou pro aniversário no edifício Fausto”, Marcos percebeu que sua mãe esperava mais informações e completou: “Com o pessoal. Eu te disse um milhão de vezes”, mentiu, tinha dito apenas uma vez no dia anterior.
Marcos calçou sua basqueteira branca e laranja da Reebok, o que era um sinal claro de que a coisa era séria. Se ele fosse convidado para o Oscar, para tirar uma foto ao lado de Rick na Fonte Nova ou para o impeachment de Collor no congresso, qualquer um poderia apostar, ele usaria seu Reebok. Seu cabelo não era igual ao dos garotos dos filmes que ele alugava no Ponto 7, mas usava gel mesmo assim. Seus cachos, que eram bonitos naturalmente, ficavam todos melecados por conta do gel, o que, na verdade, estragava um pouco o seu visual, mas isso pouco importava, afinal, ele tinha uma basqueteira branca e laranja nos pés.
Marcos exitou por um instante antes de chamar o elevador no seu andar, por um momento pensou em descer um lance de escadas e tentar a sorte de encontrar com Camila no elevador dos andares ímpares, mas essa empolgação passou ao imaginar que desculpa daria por não estar no ‘seu’ elevador. Apertou o botão a sua frente algumas vezes para ter certeza que ele viria, a luzinha não acendia mais. 
Para a sua sorte, o elevador estava vazio e desceu direto até o térreo. Marcos andou até ficar próximo da mesa onde uma sandália tinha girado num movimento de pura sorte e que o fez estar ali naquela noite, outra explicação para aquele convite ele não encontrava. A cada barulho de elevador chegando e abrindo as portas, seu coração parava. Não demorou muito e ela apareceu, com um macacão jeans e uma blusa preta e ele com uma camisa vermelha um pouco grande demais para o seu tamanho, mas que criava uma combinação de cores entre os dois que ele curtiu. Marcos se aproximou, Camila estava séria.
“Gostou?”, ela dobrou o joelho esquerdo um pouco, levantando a Melissa preta que calçava.
Marcos respondeu apenas por dentro, já que nenhum som decifrável pela mente humana saiu de sua boca. Para a sorte de Camila, ele balançou a cabeça em sinal afirmativo e isso foi o suficiente para ela tomar a frente e caminhar em direção ao edifício Fausto. Eram menos de quatrocentos metros, mas para Marcos pareceu uma eternidade. Camila era um pouco mais alta e ele tentava compensar a diferença forçando as costas a ficarem eretas. Uma brisa fria vinha da orla e fazia algumas curvas até soprar o perfume dela em sua direção. Quando chegaram à entrada do prédio, o porteiro do Fausto nem perguntou nada quando viu os dois arrumados, apenas indicou onde ficava o salão de festas e voltou a atenção para o seu radinho de pilha que transmitia Fluminense do Rio e Vitória que, até aquele momento, estava vencendo e escapando do rebaixamento para a segunda divisão do campeonato brasileiro
Era tudo igual no edifício Fausto, só que de uma forma diferente, desde a disposição dos elevadores, a entrada para a área de serviço e, claro, o salão de festas que também ficava do lado esquerdo. Tudo estava no mesmo lugar, os pisos eram iguais, as pilastras também eram de mármore branco com detalhes em cinza e portas de vidro separavam o espaço onde os zeladores ficavam do playground, mas existia um ar de mistério naquela noite. Como se eles estivessem descobrindo uma fase secreta de um jogo sem uma revista para lhe ajudar, como se ali, naquele prédio, não fosse lugar para crianças brincarem de bola ou sentarem à mesa para fazer perguntas bobas.
Quando chegaram à festa, algumas pessoas cumprimentaram Camila, uns dois gatos pingados acenaram para Marcos, mas a maioria estava com aquele olhar de interrogação, querendo descobrir o que aquela criança estava fazendo ali, no meio dos mais velhos. Se perguntassem a Marcos diretamente, ele provavelmente também não saberia a resposta. Pela primeira vez ele tinha entendido a letra daquela música da Legião Urbana que dizia em determinada parte: “Festa estranha, com gente esquisita”. Não, ele não tinha bebido nenhuma birita ou qualquer coisa do tipo, mas era evidente a diferença gritante entre os jovens que estavam naquele encontro e ele, o menino do edifício Marcelo, aquele azul meio morto.
Camila era mais velha que Marcos quase dois anos, mesmo assim ela também estava distante da idade dos demais garotos e garotas da festa a qual Marcos não conseguia compreender ainda. Não tinha bolo temático, nem enfeites. Porque tanta gente se reunia numa festa sem um motivo e sem um aniversariante? Pela primeira vez ele viu, ao vivo, jovens fumando maconha e bebendo cerveja, vinho ou vodka. Era mesmo uma festa estranha, mas no final das contas só tinha uma ou duas pessoas esquisitas ali.
Não demorou muito e ela pediu para ir embora, Marcos ficou a observando de longe durante um tempo, encostado na parede enquanto ela ficou olhando para um grupo de pessoas e, pela cara que fazia, parecia não estar gostando de nada do que estava rolando ali. Ou isso, ou ela também tinha entrado em parafusos ao ter descoberto que não existia ninguém fazendo aniversário naquele dia.
“Então, Vamos na pizzaria? Tô de rango”, Camila nem esperou Marcos responder e seguiu para fora do salão de festas saindo igual a Marina Lima, à francesa.
Já estava escuro, as estrelas e a lua crescente faziam um trabalho muito melhor que as luzes fracas dos postes da rua. Camila agradeceu a Marcos por acompanhá-la naquela noite e, mais ainda, por ter aceitado abandonar a festa do Fausto mais cedo do que havia previsto. Marcos ouvia tudo atentamente, ainda que estivesse olhando para cima procurando alguma das constelações que tinha visto no fascículo, que acabara de ser lançado na revista Descobrir, quando ela pegou em sua mão.
A mão de Camila era quente e Marcos estava envergonhado por ter mãos tão frias. Um arrepio subiu sua espinha e o fez desistir de procurar as constelações, ele não conseguia se concentrar em mais nada, nem mesmo em olhar para os lados antes de atravessar a rua como sua mãe o tinha alertado várias vezes antes de sair de casa. Eles ficaram de mãos dadas em silêncio até chegar à porta fechada da pizzaria. Sem ter o que fazer, sentaram na praça que tinha uma escultura esquisita e que parecia um grande palito de picolé cheio de furos que ficava bem em frente ao restaurante. 
Ficaram por ali algum tempo, tempo suficiente para Marcos pensar em mil maneiras de falar algo inteligente ou de conseguir esticar os braços por detrás dos ombros dela. Pensou nas novelas, tentou lembrar os melhores momentos de Anos Incríveis ou de alguma parte de um filme onde alguém falava algo inteligente ou bonito o bastante e que fazia com que a outra pessoa a beijasse. A única coisa que ele conseguia lembrar era de Danilinho imitando os vendedores de queijo-coalho e sua cara vermelha olhando pro chão. E quando foi tempo demais para duas pessoas ficarem em silêncio, à noite, numa praça pouco movimentada, Camila se levantou e o chamou para ir embora.
Voltaram já sem as mãos dadas e a basqueteira criava um novo calo no pé esquerdo de Marcos. Quando já estavam próximos da entrada do prédio, Camila parou por um instante, e olhou para cima.
“Você sabe que constelação é aquela?”, ela perguntou apontando para um amontoado de estrelas e olhando bem nos olhos de Marcos em seguida.
“Sei”, ele mentiu e ficou calado por um ou dois segundos. Não lembrava se era mesmo uma constelação ou se eram apenas estrelas das quais ele nunca ouviu falar e que rodeavam as três Marias. Não era o Cruzeiro do Sul, mas poderia ser a do Cão Maior. Só que cachorro grande era um nome muito feio para dizer numa noite daquelas e então Marcos resolveu, pela primeira vez, improvisar.
“Andrômeda”
Camila sorriu, com os dois lados da boca dessa vez, e antes que Marcos pudesse registar aquele momento, ganhou seu primeiro beijo. Não foi igual ao dos filmes que assistia no Iguatemi 2, mas foi o suficiente para ele passar a noite em claro. 
***
Os dias passaram e, ao contrário do que Marcos e as cartas que ele tinha datilografado na Olivetti verde oliva de sua mãe esperavam, ele e Camila voltaram a ser apenas duas pessoas que moravam no mesmo edifício. Um dia, com pressa, Camila não quis esperar o elevador ‘dela’ e entrou no elevador dos andares de número par, sozinha com ele, e apenas deu um “boa tarde” enquanto digitava algo em seu relógio digital. Marcos ainda acenou quando chegou no seu andar, mas essa foi a última vez que os dois se encontraram a sós. 
Marcos começou a dar razão a Léo Jaime, a vida realmente não prestava, primeiro porque era como se o melhor dia da sua vida nunca tivesse acontecido e, segundo, porque estava se mudando do Parque Júlio César por conta de um presidente que a tv elegeu e que acabou com a vida de milhões de brasileiros, incluindo a de seus pais. 
Um ano se passou, Marcos estava naquela fase em que ainda pertencia a dois lugares, o que viveu toda infância e a nova rua de terra e sem saneamento básico que estava morando. Toda vez que Nenhum de Nós tocava na rádio, ele lembrava de Camila. Será que ela ainda lembrava que ele existia ou ele já tinha se transformado numa daquelas memórias que o cérebro dela preferiu esconder por não ser relevante? Um ano parece pouco tempo para quem já viveu bastante, mas quando se tem pouco mais de uma década de vida, é como se fosse uma eternidade.
FIM?
Capa do álbum Nenhum de Nós lançado em 1987. Descrição: Uma mulher branca, de cabelo ruivo está com as mãos no rosto e olhar de desespero. Em cima está escrito em letras vermelhas no fundo preto "Nenhum de Nós".
Capa do álbum Nenhum de Nós lançado em 1987. Descrição: Uma mulher branca, de cabelo ruivo está com as mãos no rosto e olhar de desespero. Em cima está escrito em letras vermelhas no fundo preto "Nenhum de Nós".
Por hoje é só pessoal
Pensei em escrever uma outra história envolvendo um mistério e três jovens, nesse mesmo cenário. Talvez esse seja um texto a ser continuado num futuro, ou quem sabe sirva apenas de base para uma história mais arrumada.
De qualquer forma, por hoje é só⭐
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Imagina só
Imagina só @marciosmelo

Contos, causos e ensaios com manchas de dendê. Uma história inédita por mês e o que mais ocorrer (ou não) nas outras semanas.

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