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Caixa de Lápis de Cor - O homem da pá

Imagina só
Hoje vou trazer uma memória daquelas que batem e voltam. Eu a escrevi em novembro de 2020, junto com algumas outras as quais queria catalogar num livro que nunca vou lançar, portanto, fica aqui para vocês lerem.
Atenção: Algumas passagens podem gerar gatilhos sobre violência e preconceito.
Caixa de Lápis de Cor
Vivi minha infância num conjunto de prédios coloridos situados no bairro da Pituba em Salvador, entre os anos 80 e 90 do século passado e, durante esse período, acumulei muitas memórias importantes. Por conta de alguns incentivos financeiros — na época não sabíamos que eram, na verdade, armadilhas — e o fim da ditadura no Brasil, uma nova classe média estava se formando no país e o Parque Júlio César recebeu um grande contigente de famílias emergentes que se misturaram com outras mais abastadas e que não estavam “preparadas” para tamanha diversidade em sua vizinhança
Essas famílias tradicionais baianas gostavam de se referir ao Júlio César como Favela Colorida, já os moradores dos condomínios preferiam chamar de Caixa de Lápis de Cor devido ao colorido vivo de alguns prédios que rasgavam os céus da Pituba e se destacam em meio a tantas casas e comércios locais que ainda estavam florescendo.
Se fosse um livro, não iria começar por aqui, mas é o que temos para hoje e já é muita coisa. Este texto está sem uma revisão decente e provavelmente com alguns erros, mas eu preferi enviar assim mesmo, pois, se eu fosse esperar ele ficar “pronto”, ele nunca sairia dos rascunhos do meu Google Drive.
Como sempre, sintam-se livres para me responder, comentar ou criticar qualquer besteira que eu tenha falado abaixo.

O homem da pá
Imagem criada em - https://creator.nightcafe.studio/
Imagem criada em - https://creator.nightcafe.studio/
Já tinha passado da hora de voltar para casa quando ouvi os primeiros gritos. Algumas vozes familiares se sobressaiam ao que parecia ser apenas mais uma das corriqueiras confusões que aconteciam no início dos anos 1990 no Parque Júlio César em Salvador. Em meio a alguns gritinhos irônicos de “pega, pega”, um deles se destacava. Parecia um clamor, um pedido de ajuda em forma de berro que intercalava entre risadas descompasadas e batidas pesadas de chinelos no chão de concreto.
Eu já estava prestes a chamar, ao mesmo tempo, os dois elevadores que iriam ter que fazer uma corrida na qual o vencedor teria a honra de me levar até o 18º andar quando abaixei a mão e resolvi descobrir o que estava rolando. Na entrada do prédio, Gambiarra, o zelador noturno, estava alisando seu bigode e apertando o olhar tentando identificar quem seriam os arruaceiros ou se seria caso de discar 190, ou seja, apenas mais um dia normal com trabalho extra não remunerado em sua vida.
Parei ao lado dele e aprumei meus ouvidos, mas sentia um arrepio gelado cada vez que o grito alto de horror surgia no meio das gargalhadas. De onde estava não conseguia ver muita coisa, mas dava para perceber que a confusão estava acontecendo ao lado do edifício Túlio.
Existia uma zona de confluência entre o prédio que morava e o condomínio edifício Túlio, uma região cinzenta que não pertencia a ninguém e a todos ao mesmo tempo. Uma área inútil, já que durante o dia ninguém brincava ou ficava por ali enquanto os bancos de cimento absorviam todo o calor da cidade. Era impossível sentar neles sem ter queimaduras de oitavo grau. Em resumo, um projeto muito mal feito de pracinha que durante o dia espantava as pessoas e a noite, bem, a noite o que acontecia por ali a gente quando criança não sabia, ou pelo menos não deveria ainda saber.
Fui até o que supostamente era o jardim do prédio para subir no muro pisando com muito cuidado pois, entre os grandes blocos de cimento, existia um matagal que subia descontroladamente e era o lar de ratos que fariam bonito em qualquer filme de terror baseado nos livros de Stephen King. De lá de cima identifiquei algumas carinhas conhecidas, eram todas dos garotos mais velhos do prédio. Aqueles mesmos que chegavam na melhor hora do nosso baba ou qualquer outra brincadeira — no que deveria ser a quadra do prédio mas era apenas um espaço cimentado com uma árvore no meio — e gritavam em uníssono: Acabou! E esse grito de “acabou” era muito pior do que a música que Ricardo Chaves ainda iria lançar.
Dois deles traziam vassouras na mão e um outro segurava uma corda que era igual a que meu avô usava para amarrar o jegue na roça que ele morava no interior. Os outros que estavam com as mãos livres cercavam o perímetro do projeto de pracinha e gritavam sem parar “pega, pega ele”. O movimento do grupo me lembrou as reportagens de caça, quando os caçadores encurralavam a sua presa até a capturar, seja lá de que forma fosse, geralmente com bastante crueldade e violência, e pela cara que eles faziam, mesmo com alguns gargalhando, não parecia que iriam se abster de usar força excessiva ou qualquer outro meio para capturarem o seu alvo.
Subi um pouco mais e segurei a grade de alumínio com as duas mãos. O alvo era um um homem alto e que, naquela altura, já estava nu. Com olhos esbugalhados, ele gritava palavras incompreensíveis. Nas redondezas o chamavam de Maluco da Pá e aquela corda, pelo visto, seria utilizada para amarra-lo da mesma forma que prendiam animais selvagens ou arredios no programa rural que passava nas manhãs de domingo.
As crianças privilegiadas dos anos noventa que viviam ali no Parque Júlio César tinham poucos medos. A maioria deles oriundos dos filmes de terror que assistíamos escondido. Três anos mais tarde, a gente iria ver a reportagem da autópsia do ET no Fantástico que deixaria muita gente sem dormir por semanas, mas até aquele dia, os mais novos só tinham medo de duas coisas: O Velho do Saco e o Homem da Pá.
O idoso que capturava crianças e as jogava num saco, levando elas para longe de seus pais para sempre, era um projeto educativo que minha tia, toda vez que vinha à minha casa, nunca abdicou de aplicar em mim. Qualquer coisa que eu fizesse era passível de ter como castigo ser ensacado por um barba grisalha. Só que o Velho do Saco eu nunca tinha visto (ainda bem!), mas o Maluco da Pá era real. Estava sempre por ali, ao nosso alcance.
Ele nunca foi visto com uma pá e muito menos pegando crianças. Na verdade, ele tinha era medo das pessoas e quase sempre se refugiava no areal que ficava logo atrás dos prédios daquele setor. As vezes ele sumia à noite e, no dia seguinte, todo o areal estava coberto por lindas esculturas, verdadeiras obras de arte.
Desde cachorros e gatos, até pessoas tomando sol na praia. Castelos, rodas de carro, pirulitos gigantes e enfeites de natal. Um dia eu acordei bem cedo e o vi, da janela do meu quarto, finalizando uma de suas obras. Ele estava terminando o braço de uma moça que tomava sol deitada de bruços. Alguns pais e os garotos mais velhos juravam que ele andava com uma pá tempos atrás e a usava contra todos que se aproximassem. Nunca tinha visto ele ameaçar sequer Jurema, a cadela que vivia nos arredores dos prédios e que quase sempre escorraçava quem chegasse perto dela, principalmente quando estava com filhotes.
Algumas poucas pessoas davam marmitas e restos de comida que ele gentilmente agradecia se curvando, no alto de seus quase dois metros de altura, sem conseguir pronunciar uma única palavra. De qualquer forma, mesmo não tendo feito nenhum mal a ninguém ali, a gente tinha que ter medo e correr dele apenas porque ele não tinha uma casa, não vivia com sua família e não conseguia se comunicar da mesma forma que a gente.
Ainda pendurado no muro do prédio, o que me dava uma visão privilegiada já que a pracinha ficava mais abaixo, eu pude ver seus olhos querendo escapulir da cara. O espanto que ele sentiu quando dois dos garotos o puxaram com uma corda me deixou sem dormir naquela noite. Senti um arrepio maior ainda quando ele foi amarrado ao banco de cimento que ainda devia estar quente àquela altura, uma vez que o sol havia acabado de se despedir daquele dia (muito provavelmente para fugir do horror que estava prestes a acontecer).
O deitaram de barriga pra cima, enquanto mais e mais pessoas surgiam para puxar a corda e imobilizá-lo como se ele fosse um animal selvagem.
Liga a mangueira, porra!”, Maurinho gritou gesticulando os dois braços para cima.
Maurinho era conhecido como gaiato tanto pela galera dos meninos mais velhos, quanto pela minha turma. Era um dos poucos que ainda brincavam, nem que fosse por uns dois minutos com a gente e pedia educadamente para nos retirarmos da “quadra” porque era hora dos “adultos” jogarem. 
Uma mangueira surgiu de onde não conseguia ver e começava a ser puxada por outras pessoas até chegar ao homem amarrado no banco. Se antes ele gritava com medo, agora era raiva o que ele sentia. Ele se debatia e fazia força para se soltar, só que era uma luta muito desigual, ainda mais amarrado daquela forma.
De repente uma chuva azul caiu em cima dele. Era sabão em pó que foi salpicado em porções generosas sob todo o seu corpo, até nos olhos. Junto com o sabão começaram a passar a vassoura nele como se estivessem limpando um tapete de carro. Uma delas era de piaçava e arranhava a sua pele que era bem diferente das dos outros que o tinham amarrado e o colacado naquela situação humilhante.
Quando se cansaram de o maltratar, largaram as vassouras e a mangueira no chão, sem nem se darem ao trabalho de fechar a torneira, e saíram todos correndo. Enquanto descia da mureta do prédio eu ainda o vi se levantando, já sem forças e sem gritar. Ele catava seus trapos do chão, já todos molhados, tentando se enxugar e se cobrir.
Corri para frente do elevador onde um grupo dos garotos mais velhos continuavam a rir. 
Pronto, deve ter sido o primeiro banho que aquele imundo tomou na vida”, Maurinho disse rindo.
Viu só a cara dele?”. De dentro do elevador ímpar, que já estava para fechar as portas, falou outro que, na hora, não consegui ver quem era.
Maurinho segurou a porta e perguntou se eu não ia entrar e ir com eles. Eu podia ir até o 19º andar e descer as escadas, mas preferi esperar o meu elevador (o que parava apenas nos andares de número par) chegar. Subi calado, com material suficiente para não dormir por pelo menos alguns dias.
Descrição: Um castelo esculpido na areia - Photo by Carlos Fernando Bendfeldt at Unsplash
Descrição: Um castelo esculpido na areia - Photo by Carlos Fernando Bendfeldt at Unsplash
Algumas notas e informações
O homem da pá ganhou esse nome por causa das histórias que eram contadas de pessoas para pessoas sem nenhuma comprovação de sua veracidade. Era como aquelas brincadeiras de telefone sem fio em que a gente nunca sabe como a mensagem vai ser recebida no final.
O fato é que, naquela época, as crianças morriam de medo dele, mesmo sem nunca terem visto ele fazer mal a ninguém. Na verdade, o que sua presença trazia para o Parque Júlio César, quando estava em seus dias criativos, era encantamento. Suas esculturas no areal, que hoje já foi tomado por prédios cada vez mais fechados e trancados em um mundo de câmeras e outros itens de segurança eletrônica, eram gratas surpresas que surgiam de tempos em tempos por aquelas bandas.
Depois desse dia ele foi visto cada vez menos no bairro. Ele já não aparecia com frequência para receber um prato de comida ou alguma roupa velha, nem para encostar em algum canto e ficar horas olhando o céu. Nunca mais ele fez outras esculturas no grande mural de areia branca que ficava atrás dos prédios do setor que eu morava, o menos colorido.
De repente chegou o dia em que alguém comentou que nunca mais o tinha visto. E todos se pegaram pensando há quanto tempo tinha sido a última vez que ele esteve nas redondezas, sem nenhuma pá, mas com a fama de “maluco” que o precedia.
Lembra daquela vez que Maurinho e a galera deu um banho nele? Foi muito engraçado.” Um dos garotos mais velhos, já “pai de família”, tomou a frente e um monte de gente riu, repassando todos os momentos desde os preparativos até a conclusão do plano.
Se eu tivesse que catalogar minhas lembranças por gênero como numa locadora de vídeo, essa com certeza estaria na sessão de horror. Nunca achei engraçada essa história, e tampouco o artista do areal se divertiu ao ser esfolado com piaçava e sabão em pó amarrado a um banco de cimento que ninguém gostava sequer de sentar. Com o passar dos anos, o edifício Túlio reclamou propriedade e a “praça” foi devidamente murada e cercada. 
De todas as lembranças que tenho da minha infância, e olhe que já caí de um carro em movimento, fissurei o meu crânio ao cair andando de skate e presenciei a lavagem do poço de água do prédio uma vez, essa é uma das que ainda me deixam arrepiado, de dentro pra fora, mas só quando resolvi escrever pude perceber o quanto ela foi cruel. 
Por hoje é só pessoal
Os nomes das pessoas e quaisquer outras informações e características contadas aqui não são, obviamente, as reais, até porque a intenção é apenas tentar fazer um recorte de um período na história do país e da Bahia que, infelizmente, tem muita gente querendo, a todo custo, reviver.
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Imagina só
Imagina só @marciosmelo

Contos, causos e ensaios com manchas de dendê. Uma história inédita por mês e o que mais ocorrer (ou não) nas outras semanas.

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