Ponto da situação - newsletter de Magda e Ponto Final, Parágrafo - Edição Nº3

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Magda Cruz, apresentadora do PFP
Magda Cruz, apresentadora do PFP
Olá, queridx ouvinte
Vou começar de forma diferente:
-Boa tarde - disse eu, que não sabia que ia experimentar três segundos de completo silêncio depois de me anunciar. Queria dizer a coisa perfeita, mas só depois de entrar na biblioteca é que pensei que tinha de dizer algo. Já estou destreinada a falar com outras pessoas, confesso. Mas tinha de dizer mais algo – e não só umas palavras, tinham de ser perfeitas.
- Que saudades de ver estantes cheias - voltei eu a dizer, preenchendo de som aquele átrio apalaçado. Olhei imediatamente para as estantes para fugir do olhar da bibliotecária. Não me lembro desta senhora e não sei se está feliz por voltar ao trabalho.
- Pena terem estas fitas. Parece um local do crime - responde-me a bibliotecária. Acho que era Fátima ou Fernanda. Como não fixei, quando for devolver os livros que requisitei não a vou poder chamar pelo nome. Quando voltar com o “Princípio de Karenina”, de Afonso Cruz, e a “Granta” (sobre memória), não vou poder iniciar uma relação de alguma amizade. Aqui tem, dona Fátima. É Fernanda. Ah, desculpe. Memorizei mal.
Será a biblioteca a pedir que eu volte e volte? Ah um pequeno conselho: levem o cartão da biblioteca quando forem à biblioteca. Demora muito menos. Se bem que se o tivesse levado não teria ouvido a colega chamar pela Fátima. Ó Fátima, vês se temos este livro? Ou seria Fernanda.
Ainda penso no que me disse “Pena terem estas fitas. Parece um local do crime”. Aquela afirmação abalou-me um bocado. A cultura tem estado vedada a muitos de nós há algum tempo. Eu não aguentei nestas últimas semanas e tenho estado a comprar mais livros que barriga… E essa sensação de “ando a comprar quando os posso ler de borla” intensificou-se quando vi um livro que me chegara pelo correio nessa manhã e que estava na biblioteca, exposto, sereno. Estava, obviamente, fechado, de capa para mim, mas tinha uma carga qualquer como que a pedir para ser lido. 
Cheguei a casa e comecei a ler “Princípio de Karenina”, de Afonso Cruz. Deve ser algum tipo de record para mim porque o terminei no dia seguinte. Tens a minha opinião no Goodreads. É verdade que também tinha um incentivo: precisava de lê-lo porque é um dos livros escolhidos pelo próximo convidado, o romancista musical Miguel Jesus.

Ouvir os episódios do podcast
Os Patronos já receberam o episódio 41, com o Miguel, que só estará no ar dia 24. Posso dizer-te, aqui entre nós, correu muito melhor do que eu estava à espera, e fiquei a adorar o Miguel. Vou até ler livros anteriores dele (e esperar pelo próximo, sobre o qual o Miguel revela algumas coisas pela primeira vez no podcast). Tens também a minha opinião sobre o mais recente romance do Miguel, “Lugar para dois” - que ele próprio leu e achou piada.
Para te tornares Patrono ou Patrona, é só fazeres uma contribuição mensal no Patreon, aqui. Há 3 níveis de contribuição e cada um tem as suas vantagens. Já vários ouvintes estão a usufruir delas. No final do mês vamos ter uma sessão de partilha para discutirmos o que andamos a ler. Parece mesmo algo em que tu participarias, não é?
Tópico de discussão - Tradução
Tem havido também a discussão sobre quem traduz o quê. Isto vem no seguimento da tradução de um poema de Amanda Gorman, que declamou na tomada de posse de Joe Biden, em janeiro. O jornal Público, do qual vou voltar a falar nesta newsletter, empreendeu uma reportagem para responder a estas perguntas: Será preciso ter a mesma cor, o mesmo género, o mesmo perfil para traduzir ou interpretar alguém? 
Para entender esta discussão, podes ler primeiro este artigo sobre a tradutora branca que ia traduzir o tal poema, mas que se retirou depois da polémica de alguém branco traduzir o produto de alguém que não o é. E repara: é muito complicado escrever sobre isto com os vocábulos mais corretos, já que não sei tudo sobre esta área. Espero que compreendas que estou a dar o meu melhor para explicar isto, sendo o mais inclusiva e correta possível.
O foco aqui é: quem se manifestou contra a tradução da holandesa acha que alguém pode fazer melhor, o que é legítimo. E o debate é muito interessante.
Raquel Lima traduziu o poema The Hill We Climb, da Amanda, a convite da Casa Fernando Pessoa e disse que o “maior desafio foi a tentativa de preservar a força da Amanda, o seu sentido de humor, eloquência, inteligência, sensibilidade e, acima de tudo, confiança sobre a sua participação poético-política na sociedade”. Para traduzir, a intérprete afrodescendente considerou várias coisas, como o ritmo e a hesitação de Amanda. Achei interessante a pergunta que a tradutora fazia: “como é que eu diria isto em palco se o poema fosse meu?”
Na peça do Público lemos entrevistas de Margarida Vale de Gato, poeta, tradutora, professora de tradução Literária na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que se preocupa com a comunicação intercultural que a tradução possibilita, "que justifica a sua existência e a sua necessidade. Ou seja, no limite, só Gorman teria legitimidade para traduzir Gorman”.
Lemos também opiniões do escritor e tradutor Paulo Faria (de quem comecei a ler um livro, por acaso); de Inocência Mata, especialista em Estudos Pós-coloniais, professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, na área de Literaturas, Artes e Culturas; da escritora Djaimilia Pereira de Almeida; do escritor Itamar Vieira Junior; do historiador e professor catedrático no departamento de Estudos Políticos da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa Diogo Ramada Curto; e de Pedro Schacht Pereira, professor de Estudos Portugueses e Ibéricos na Ohio State University, Estados Unidos.
O artigo é exclusivo para assinantes (eu a tentar que assines o jornal pela secção de Cultura hahaha), mas ficas com uma ideia da conclusão: não há. É demasiado complexo para haver uma reposta. Deve-se procurar o/a melhor tradutor(a) possível? Sim, mas isso sempre foi assim. Se um livro de alguém negro for traduzido na China, o tradutor tem de ser chinês e negro? Percebes a complexidade?
Também se levanta a pergunta muito pertinente: quantos e quem são são os poetas, tradutores, livreiros, editores negros em Portugal? Esse levantamento ainda não existe no nosso país.
Por falar nisto,
Quem também já se mostrou apoiante de tradutores competentes traduzirem o que quer que seja, com a devida pesquisa sobre o/a autor(a) e respeito pela língua original, foi o ex-editor da Dom Quixote e Porto Editora Manuel Alberto Valente.
Sugiro que leias as crónicas do Manuel no semanário Expresso. Os textos são memórias que o editor tem das relações com autores com quem contactou ao longo da vida. A desta semana . Já se sabe que haverá um livro de Manuel com estes conteúdos, mas vai ser uma compilação das crónicas, pelo o que me disse.
As minhas coisas favoritas esta semana
1 - Sugestão para aprender - Voltando ao Público. Inscrevi-me num curso de crítica literária. Chama-se "O Cânone - 10 lições de literatura portuguesa”. O nome pode não te ser estranho porque saiu há tempos o livro “Cânone”, pela Tinta da China. O curso tem, pasma-te, dez aulas; é coordenado por António M.Feijó, João R. Figueiredo e Miguel Tamen; vamos falar de Eça, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, e… para meu rejubilo: as Três Marias. (Tenho encontrado referências a Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa em todo o lado, incluindo num ensaio na Granta. Sim, a que trouxe da biblioteca. É impressionante.) O curso começa na quinta-feira, dia 25 de março, e estende-se semanalmente, até dia 27 de maio. Já sei que vou ver uma ouvinte do podcast por lá e isso é ótimo.
2 - Bibliotecas abertas - espero que tenhas uma por perto para andares com livros para trás e para a frente.
3 - O dia mundial da literatura, que é só amanhã, mas já estamos a celebrar no podcast. Ao longo do fim de semana estarei a partilhar as participações dos ouvintes (e as minhas) com os poemas que escolheram ler.
Citação da semana
(gerado pelo Readwise - se quiseres inscrever-te ganhas um mês grátis e eu outro hehehe, por aqui)
O livro que terminei esta semana. Tenho de pegar em mais Afonso Cruz
O livro que terminei esta semana. Tenho de pegar em mais Afonso Cruz
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Magda Cruz, apresentadora do PFP
Magda Cruz, apresentadora do PFP @https://twitter.com/ParagrafoFinal

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